03/12/2022
 
 
Germano Almeida. “A ideia da escrita não é a conquista, mas o prazer da sedução”

Germano Almeida. “A ideia da escrita não é a conquista, mas o prazer da sedução”

20/10/2014 00:00

O escritor confessa que é um contador de histórias e quando conta uma delas pensa numa mulher concreta. É neste diálogo que cria, mesmo quando fala nos “poetas” dos vários regimes. Nuno Ramos de Almeida falou com o autor  de “Do Monte Cara Vê-se o Mundo” e Rodrigo Cabrita tirou-lhe as medidas

Escrevo pelo prazer de escrever, nunca consegui forçar-me”, confessa Germano Almeida. O escritor cabo-verdiano tem uma obra rica, os seus livros preocupam-se em contar a história das pessoas. Uma arte de contador de histórias em que a realidade e a imaginação se misturam.

Conheceu muitos contadores de histórias?

Bastantes. Quando eu era jovem pagávamos para nos contarem histórias à boca da noite. Não havia internet, não havia televisão e havia poucos divertimentos. Um dos grandes divertimentos era ouvir histórias. Acho que as pessoas que sabiam muitas histórias inventavam muito. Essa era a parte mais interessante. Lembro-me que ouvi contar a vida de Carlos Magno e dos reis de França contada tantas vezes que eu sabia aquilo praticamente de cor. A piada é que em adulto comprei o livro e não o achei tão interessante como a versão que tinha escutado anos antes.  

Começou a escrever aos 16 anos depois de assistir a um naufrágio. A escrita espanta a morte?

Um forma de afugentar os medos. Eu naquela altura já lia muito. Acho que tinha lido quase todos os livros que encontrei na Boa Vista. Quando aconteceu esse desastre fiquei com medo dos defuntos. Isso porque eu em miúdo estive para ficar no mar e fiquei com receio das pessoas que morriam no mar. Nesse dia lembrei-me: se eu contar e escrever sobre eles, sou capaz de me libertar. Como não sabia de que maneira tinham morrido, comecei a imaginá-los – isso é a vantagem da literatura, as pessoas fazem aquilo que a gente quer, como pô-los a gritar por serem engolidos pelos tubarões. No fim de escrever já estava liberto do medo.

Quais eram os livros que encontrava?

Lembro-me que li os 12 volumes de uma viagem ao mundo de aventureiros. Havia imensos livros de cowboys e da Corín Tellado, também os devorei. Depois fui para a Praia, e um dia fui a uma loja que vendia livros. A primeira vez comprei uns romancinhos de cowboys, no dia seguinte fui comprar outros, e o homem da livraria disse-me: “Você não está interessado em ler livros melhores?” Mostrou-me a “Colecção Civilização”. Foi aí que comecei a entrar na literatura séria. A minha aprendizagem foi feita ao acaso.   

No seu romance há uma personagem que a certa altura diz que “em todos os livros inúteis há conhecimentos úteis”.

Até hoje não acredito que haja conhecimentos inúteis [risos]. Todos os conhecimentos são úteis. Ainda hoje defendo que o que importa é ler, seja lá o que for. Vais lendo livros maus e acabar por conhecer livros bons.

Vem para Lisboa em 72. Notava-se o fim do regime?

Estávamos no tempo do Caetano, com a sua ideia de evolução na continuidade. Para nós não era evidente, apesar da contestação e dos gorilas na faculdade, que o regime estivesse a acabar.

Qual era a sua posição política?

Estive várias vezes para fugir, mas acabei por não o fazer. Convivi com um dirigente do PAIGC e estive para ir com ele para a Guiné. Já estava politizado e quando cheguei a Portugal fiquei mais perto do pessoal do MRPP.

É primeiro maoista da Boa Vista...

Calhou. Arranjei mais amigos entre eles, mas do ponto de vista político sentia-me muito mais próximo do Partido Comunista que dos maoistas, que eu achava um bocadinho folclóricos, mas os amigos que eu tinha eram do MRPP.

Volta a Cabo Verde logo depois da independência?

Já em 1973 fui desafiado para ir para a luta, mas disse-lhes: “Agora deu-me tanto trabalho chegar cá que acabo o curso.” Entretanto dá-se o 25 de Abril. Acabo o curso em 1976 e vou imediatamente para Cabo Verde.

E foi para o Ministério Público?

Fui para o Ministério da Justiça. Depois de lá estar tive de ir para procurador da República, porque tínhamos imensos problemas de quadros, e com ou sem experiência, desde que um fulano tivesse formação, tinha de aceitar desempenhar certos lugares, estando ou não preparado para aquilo.

Usou as suas experiências como procurador em romances seus, mas as suas opiniões como escritor foram bastante diferentes dos seus despachos...

No caso dos dois irmãos sempre tive dúvidas. Absolvê-lo, no caso real, não era possível, mas condená-lo era complicado, porque implicava condenar toda uma população. Daí eu ter defendido que ele devia ter sido julgado pelos seus pares. Ele foi julgado segundo os nossos valores, não segundo os valores da sua comunidade. Aquele livro ficou-me na cabeça durante muitos anos: eu sentia que tinha de escrever. Não sabia é como. Só quando li “A Crónica de Uma Morte Anunciada”, do Gabriel García Márquez , disse: “Já sei como escrever o meu livro”, e depois foi muito rápido.

É no fundo a ideia de que toda a gente sabia...

Mais que isso, toda a gente fazia para que acontecesse. No caso dele, quase fugia da situação, e toda a gente lhe dizia: “Tens que, tens que, é a tua honra que está em causa...” Já passaram décadas, as coisas podem ter mudado. Eu não estava habituado, na Boa Vista não era assim. Se houvesse uma traição, podiam ser trocados uns sopapos, mas em Santiago era preciso correr sangue.

O que o levou a querer escrever?

O facto de ter sido o acusador do homem. Acusei-o diante de toda aquela gente, que o absolvia e o tratava como um herói. Foi uma coisa que me impressionou: “Alguém está errado e não me parece que sejam eles”, pensei eu muitas vezes.

A ideia que perpassa em muitos dos seus livros é que do ponto de vista da moral católica, apostólica e romana, Cabo Verde, para bem dos cabo-verdianos, deixa muito a desejar.

[Risos] É mesmo assim. Isso não é contraditório com essa noção de honra. Enquanto no barlavento a coisa é mais ligeira, a pessoa zanga-se e dá eventualmente dois socos, a traição, que é uma coisa pessoalíssima, é muito séria em Santiago. Aquilo implica com a própria personalidade da pessoa: se esse indivíduo não reage fica eternamente corno.

Um dos seus primeiro livros é “O Meu Poeta”. Foi difícil de publicar?

Foi um livro que eu demorei muitos anos a escrever, terei levado uns quatro anos a escrever. Naquela altura estávamos em regime de partido único, e eu achava que se publicasse o livro me iam proibir e chatear, de modo que ia colocar tudo o que eu achasse conveniente. Por isso é que o livro é excessivo e demasiado longo.

Há uma passagem deliciosa do livro, em que perante as acusações de que é alvo, de ter ganho a eleição mais suja de sempre, o candidato reage indignado e diz: “Que exagero, como é que sabem se não há termo de comparação, porque não houve eleições antes”...

O meu poeta é o protótipo do hipócrita, é um fulano oportunista. Aliás, isso verificou-se muito no regime do PAICV, mas também se está a verificar no regime do MPD. As pessoas gravitam à volta do poder. Eu sempre achei que devia haver pluripartidarismo, e tive por isso uma passagem episódica pelo MPD no início, embora esteja muito mais próximo das ideias do PAICV. As pessoas têm o direito de escolher. O PAICV e o MPD estão cheios de poetas. Sempre achei que a política devia ser um sacerdócio, mas a verdade é que nem os sacerdotes se comportam como deve ser.

O seu último romance é um bocadinho a história de alguém que apesar de estar velho continua a poder amar...

É uma história de amor que em certa medida eu? conheci. A minha personagem Pepe é baseada em várias pessoas, mas sobretudo numa pessoa que eu conheço. É de facto um homem que tem 80 anos, mas ninguém diz que tem essa idade, continua com um perfil jovem, encanta as mulheres e as moças.

Ele reconheceu-se no livro?

Ainda não o leu, mas acho que não se vai reconhecer: o livro está longe dele. Curiosamente, coloquei-lhe uma frase que se ele ler, vai-se reconhecer.

Escreve por prazer, esse prazer é similar ao dos contadores de histórias?

Exactamente, a ideia de escrever é a ideia de contar histórias. Quando escrevo tenho sempre alguém em mente, a quem estou a contar uma história. Não estou a escrever abstractamente, visualizo uma pessoa.

É uma forma de sedução?

De certa forma, normalmente são mulheres. A ideia não é conquistá-las. É só o prazer da sedução e não da conquista.

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