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Frio. Mau aquecimento das casas é perigo para a saúde pública

Frio. Mau aquecimento das casas é perigo para a saúde pública

10/02/2015 00:00
Investigadores defendem criação de subsídios para pagar as contas do Inverno, como existem no Reino Unido, e apelam à criação de um plano para o frio, o inimigo esquecido da saúde

Chegam os meses de Inverno e fala-se de gripe e vacinas, mas um grupo de investigadores defende que está na hora de o frio se tornar um tema central da discussão e do planeamento da saúde no país. Não faltam provas dos seus efeitos, que vão além do maior perigo de infecções. O frio faz disparar o risco de doenças cardiovasculares, respiratórias e descompensação de doentes crónicos, por exemplo diabéticos.

Nos últimos cinco anos o projecto ClimaHabs, coordenado pelo Centro de Investigação em Arquitectura, Urbanismo e Design da Universidade Técnica de Lisboa, estudou os hábitos nacionais e o impacto da exposição ao frio na saúde. Elisabete Freire, coordenadora do projecto, adiantou ao i que os trabalhos terminaram no final de 2014 e vão preparar um relatório que farão chegar às autoridades. Entre as recomendações, adianta, está a criação de um plano nacional de resposta ao frio, que deveria incluir medidas como as que existem por exemplo no Reino Unido, em que as pessoas com mais de 62 anos se podem candidatar a um subsídio de até 400 euros para pagar as contas de electricidade no Inverno. Mas também regras mais rígidas para a construção dos edifícios, com melhor isolamento e colocação de portas e janelas adequadas, em que os projectos de origem sejam efectivamente seguidos.

Os dados obtidos ao longo da investigação mostram que muitos portugueses, mesmo conhecendo os riscos da exposição ao frio, não aquecem a casa por causa da conta no final do mês. Um dos estudos concluiu que por cada grau a menos nos dias de Inverno há um aumento de 2,2% nos casos de enfarte nos hospitais de Lisboa e de 1,7% nas unidades do Porto.

Em inquéritos feitos a vítimas de enfarte verificou-se que metade não tinham aquecimento em casa e um quarto tinham mas não o usavam. Dados também anteriores à crise, da rede europeia Fuel Poverty, já alertavam que, em 2011, Portugal era dos países europeus onde havia mais dificuldade em manter a casa à temperatura adequada, problema que então atingia uma em cinco famílias.

saúde pública "Tem-se minimizado o frio. Parte-se do princípio de que Portugal tem um clima óptimo e durante décadas esquecemo-nos do frio quando se morre bastante por causa disso", resume Elisabete Freire, geógrafa que começou a estudar os indicadores nacionais nos anos 90 e recorda como nessa altura ainda se pensava que a relação entre as temperaturas e o estado de saúde não era robusta.

A Direcção-Geral da Saúde colaborou no projecto ClimaHabs e hoje não faltam dados mas a investigadora diz que tem havido demora na aplicação de medidas preventivas, que na sua opinião acabam por explicar os problemas que se viveram este ano nos serviços de saúde: "Muito do excesso de problemas terá sido devido ao frio e tem de haver um planeamento atempado."

Há cinco anos que a DGS pondera a criação um plano de contingência para o frio, como o que existe desde 2004 para as ondas de calor. Está previsto que o plano nacional para as temperaturas extremas venha a ter um módulo de frio, que implica uma avaliação anual do impacto, mas isso ainda não aconteceu. A subdirectora Graça Freitas explicou que este Inverno houve um avanço com a instituição de um plano de contingência para as infecções respiratórias e admite que as dificuldades técnicas, nomeadamente em matéria de previsões meteorológicas, têm atrasado a concretização do plano. "Não desistimos de elaborar um plano e estamos a começar a formar os grupos de trabalho para o próximo ano", garantiu a responsável, que defende ainda assim que nos últimos anos houve melhorias, já que as acções no âmbito do plano de contingência para o calor - nomeadamente o reforço dos sistemas de climatização em instituições públicas e lares - acabam por melhorar também o panorama nos meses de Inverno.

O que falta Inglaterra tem uma estratégia nacional contra o frio desde 2011, em que se prevêem quatro estados de alerta com funções específicas para os serviços de saúde, parceiros sociais, agências meteorológicas e protecção civil. O plano vigora de Novembro a Março e quando há previsões de que as temperaturas vão baixar para os 2oC ou 60% de hipóteses de nevar há instruções para ser dada prioridade ao atendimento de doentes mais vulneráveis, por exemplo na organização de visitas domiciliárias.

O Ministério da Saúde já justificou a desorganização nas urgências pelo Natal com o tempo frio inesperado, já que não se estava ainda no pico da epidemia da gripe, algo que um plano centrado no frio poderia ajudar a colmatar.

Em Portugal, Elisabete Freire diz que os trabalhos permitem concluir que, abaixo dos 5oC há um aumento de mortalidade e morbilidade, que poderia ser fixado como patamar de risco e que tende a manifestar-se numa maior procura dos cuidados de saúde. Informação, articulação e mais sensibilização junto da população é o que falta, defende a investigadora.

Ontem a maior parte do país continuava com temperaturas baixas, mas o último alerta por parte da Protecção Civil foi feito no dia 3, avisando para o arrefecimento no litoral e em regiões do Interior. O último alerta no site da DGS, com recomendações à população, também é da semana passada. Segundo dados do INE, nos meses de Inverno morrem em Portugal mais 20% de pessoas que nos meses de Verão, uma diferença que todos os anos, em Dezembro, Janeiro e Fevereiro, ronda as 10 mil mortes. Estima-se que a gripe sazonal seja a causa de morte de 2 mil portugueses, o que mostra a margem dos outros problemas menos falados. Em Inglaterra foi a percepção de que todos os anos havia 25 mil mortes por causa do frio que levou à criação do plano, este ano na quarta edição.

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