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Ensino superior. Há 20 anos que as mulheres dominam a universidade

Ensino superior. Há 20 anos que as mulheres dominam a universidade

25/02/2015 00:00
Há duas décadas que os homens estão em desvantagem no ensino superior. Este ano há menos 26 mil alunos que alunas em universidades e politécnicos. A presença é mais forte mas não traz igualdade

1985 foi o ano da viragem. Em Junho, Mário Soares, então primeiro-ministro, assina em Lisboa o tratado de adesão de Portugal à então chamada Comunidade Económica e Europeia (CEE) e o país começa a escrever um novo capítulo da sua história. No final desse Verão, 51 102 caloiros dão os primeiros passos no ensino superior, ao mesmo tempo que se inscrevem 51 043 alunas em faculdades e politécnicos. A diferença foi de 59 lugares, vantagem para os rapazes. Foi há 20 anos e foi também a última vez que essa vantagem existiu. As mulheres começaram nesse momento a virar a sua página.

Na década de 50 começou a preparar-se o caminho para uma participação a sério das mulheres no sistema de ensino básico em Portugal. Vinte anos mais tarde, a democratização da escola pública dá os primeiros passos no secundário, e é por mera consequência das decisões políticas anteriores que, em meados dos anos 80, as mulheres começam a reclamar verdadeiramente o seu lugar nos bancos das faculdades. Quando chegam ao ensino superior, depressa passam a ser mais que os homens e, regra geral, são melhores - destacam-se pelos bons resultados alcançados no final de cada semestre. "A partir do momento em que há um acesso paritário ao ensino, as mulheres têm sempre mais sucesso educativo", conta o historiador Paulo Guinote, especialista em educação.

Esse "sucesso" começa a ser cimentado nos anos anteriores. Qual ironia do destino, para que isso fosse possível, refere Natália Alves, muito contribui a discriminação positiva que o sistema de ensino acabou por fazer das raparigas - as mesmas a quem anos antes a sociedade não reconhecia valor para sair de casa e passar anos a estudar. "As meninas desenvolvem competências sociais que são mais valorizadas pela escola", explica a socióloga do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. São mais calmas, mais avessas à contestação e por isso são também menos susceptíveis de esbarrar em problemas de indisciplina escolar. "As mulheres adequam-se melhor à organização de massas baseada na disciplina e no conformismo", concretiza Paulo Guinote.

Mas o facto de terem conquistado o direito a estudar, como os rapazes já faziam, não lhes tirou de cima o peso do preconceito. "Tradicionalmente a mulher não era escolarizada e quando por fim chega à escola é-lhe exigido um esforço acrescido", diz o historiador. No fundo tinham de remar com duas vezes mais força para provar que chegavam onde os rapazes chegavam.

A ideia era que "à partida aquele esforço não teria retorno". O percurso já estava definido: nascer, aprender a cuidar da casa e educar convenientemente os filhos, ser boa mulher e fazer disso o seu papel de vida. Havia que provar o contrário e, com a nova oportunidade que receberam, as mulheres passaram a ocupar os lugares de destaque nos rankings de avaliação das suas escolas.

A inversão de números dá-se precisamente em 1986 (ver gráfico ao lado). Na mesma altura, uma outra decisão política ajuda a levar as estudantes para o ensino superior. "A partir da década de 80 temos um forte processo de privatização do ensino em Portugal", refere Natália Alves. De 81 582 estudantes do ensino superior em 1978, Portugal passa para os 102 145 em 1985 - sete anos e 20 500 estudantes universitários a mais, o Estado começa a não conseguir dar resposta à procura crescente de licenciaturas. A par do aparecimento das instituições privadas, prolifera nesses anos a inauguração de institutos politécnicos em novas e mais isoladas zonas do país. "Muitas raparigas viviam com um garrote de expectativas porque teriam de estudar fora das suas cidades", lembra a socióloga Natália Alves. A universidade era longe de casa - o que tirava "controlo" aos pais - e estudar era caro.

Em suma: melhor perfil para aquilo que a escola procura e a capacidade de trabalhar o dobro para alcançar bons resultados - dois argumentos que explicam o porquê de as mulheres terem há 20 anos uma presença em maior número nas instituições de ensino superior. E os homens, por onde andaram?

Os homens desistiram, em parte, dessa formação superior. Em primeiro lugar, quando lá chegam estão menos preparados (porque não remaram tanto como as colegas). Em segundo lugar, porque percebem que, chegando às empresas, são privilegiados. "O mercado de trabalho continua a ser muito discriminatório para as mulheres", diz Natália Alves. "Essa desigualdade salarial faz com que as mulheres invistam mais na educação para terem o retorno que o homem tem", acrescenta Paulo Guinote". A eles basta-lhes a licenciatura para receberem tanto como elas recebem com mestrado.

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