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Paulo Lopes. Quando esperar é uma virtude

Paulo Lopes. Quando esperar é uma virtude

05/05/2014 00:00
Guarda-redes subiu à equipa principal em 1997 e foi campeão 17 anos depois. A estreia foi apenas em 2012

Quase, quase 430 quilómetros. Foi essa a distância que Paulo Lopes percorreu entre a sua terra natal, Mirandela, onde o seu irmão Rui Lopes de 41 anos joga desde 1991, até ao Estádio da Luz. Era miúdo e acabaria por formar-se como guarda-redes de águia ao peito até merecer a confiança do clube para subir à equipa principal. Aconteceu no Verão de 1997, numa altura em que a miopia desportiva era gritante e as contratações pingavam como se Londres vivesse em cima da velhinha Luz - foram 21 entradas. Apesar disso, nessa época até chegaram jogadores de qualidade como Nuno Gomes, Hugo Leal, Poborsky, Amaral e Gamarra. Paulo Lopes era muito jovem, era simplesmente um ex-júnior, e por isso a direcção decidiu contratar Sergey Ovchinnikov para "competir" com o titular, Michel Preud"Homme. Dois anos e 17 idas ao banco depois, a estreia nunca chegou e a carreira teria continuidade no Gil Vicente e Barreirense (2.ªB).

O regresso ao Benfica aconteceu em 2001/02 para defender a baliza da equipa B no terceiro escalão do futebol português. A boa época valeu-lhe quatro idas ao banco da equipa principal, onde Robert Enke era rei e Moreira aguardava a sua oportunidade. A estreia continuou a ser uma miragem. Era tempo de dar corda aos sapatinhos e caminhar por outras estradas, deixando uma pegada mais pesada e funda. Salgueiros (2002-04), Estrela da Amadora (2004-07), Trofense (2007-09) e Feirense (2009-12) foram os emblemas que se seguiram, construindo assim uma carreira com sete anos de 1.ª Divisão, seis na 2.ª e duas na 2.ªB.

No Verão de 2012, 15 anos depois da subida à equipa principal, Paulo Lopes assinou por dois anos e regressou ao Estádio da Luz para representar o clube onde foi formado. Desta vez chegou para substituir Eduardo e competir com Artur; Mika, o guarda-redes vice-campeão do mundo sub-20 em 2011, iria apenas uma vez ao banco de suplentes.

A caminhada no deserto de Paulo Lopes teria o seu fim em Outubro de 2012. O jogo contava para a terceira eliminatória da Taça de Portugal e o adversário era o Freamunde de João Eusébio, que contava com o senhor dos hat-tricks - Bock - na frente de ataque. Jorge Jesus colocou Paulo Lopes na equipa titular e o guarda-redes pôde finalmente sentir o sabor de jogar com a camisola do seu clube de sempre. Resultado? Quatro-zero (Lima, Cardozo, Salvio e André Gomes) e uma baliza imaculada. "Foi uma noite especial, marcou a minha estreia como jogador oficial do Benfica. Estou feliz por ter jogado e feliz pela vitória. Uma estreia num clube como o Benfica nunca chega tarde, chega quando tem de chegar. É um prémio para quem trabalha e eu sempre trabalhei muito", desabafou no fim. Paulo Lopes voltaria a jogar na quarta eliminatória da Taça (2-0 vs. Moreirense) e na Taça da Liga (2-1 vs. Olhanense; 1-1 vs. Moreirense; 3-2 vs. Académica).

Coincidir com os títulos também era algo que não assistia a Paulo Lopes. Olhemos apenas para os últimos três antes deste. Em 93/94, o guarda-redes ainda estava nos juvenis e sonhava apenas com chegar aos seniores. Em 2005, o ano em que Trapattoni devolveu o céu ao clube, era o suplente de Veiga no Estrela da Amadora na Segunda Divisão. Curiosamente, Veiga também foi formado no Benfica e continua a jogar aos 37 anos: no Worcester City (sexto escalão do futebol inglês). Em 2010, foi totalista (2700") na baliza do Feirense na II Liga.

Em 2012/13, Paulo Lopes foi 29 vezes ao banco e nunca, nunca teve a oportunidade de se estrear. Que saúde de ferro, Artur! Este ano a cantiga foi outra, mas por pouco. Foram 12 idas ao banco, sempre com a baliza como miragem, já que Artur começou como titular e, mais tarde, Oblak viria a agigantar-se e jamais deixaria a baliza para mãos alheias. A conquista do título chegou na jornada 28, após a vitória contra o Olhanense. Paulo Lopes, mesmo sem jogar, foi dos mais efusivos: grande fotografia, hein? Subiu à baliza que nunca defendeu na Liga e ergueu bem alto o troféu tão desejado. No entanto, de acordo com o regulamento (artigo 101.º, alínea 3), apenas os jogadores utilizados receberão a medalha de campeão. Solução? Titularidade frente ao V. Setúbal (1-1) e campeonato no bolso. Finalmente, 17 anos depois...

Apenas Steven Vitória corre o risco de não receber a medalha. O central que passou pelas camadas jovens do FCP já foi seis vezes ao banco mas nunca entrou. Ironicamente, a derradeira oportunidade é na última jornada, no Dragão, onde foi expulso há nove dias, num jogo a contar para a meia-final da Taça da Liga. O defesa já venceu duas edições da 2.ª Divisão (Olhanense-2009 e Estoril-2012) e, aos 27 anos, não pode dar-se ao luxo de esperar mais 17 anos como Paulo Lopes.

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