Operação Pretoriano: perigo de fuga aumentou a segurança

Operação Pretoriano: perigo de fuga aumentou a segurança


O perigo de fuga de algum dos arguidos e o receio de desordem pública, tanto no interior como no exterior do tribunal, obrigou a PSP reforçar fortemente a segurança do julgamento. Subintendente da PSP recebeu ameaças de morte e ficou sem carro, pois puseram-lhe fogo.


As imagens televisivas não deixam muitas dúvidas: algo estranho se passa no tribunal São João Novo, no Porto, onde se realiza o julgamento da Operação Pretoriano, em que o líder da claque Super Dragões e outros correligionários estão a ser julgados pelos crimes de coação agravada, entre outros. Tudo seria normal para a ‘vida’ de um tribunal, não fosse o facto de a PSP ter feito uma análise de risco do julgamento e ter concluído que há perigo de fuga de algum dos detidos, além de desordem pública no interior ou exterior do tribunal. Por isso, voltando às imagens, quem vê as notícias do julgamento nos serviços noticiosos das televisões constata que a segurança ultrapassa quase tudo o que se viu na cidade do Porto.


Há várias razões para isso, uma das quais é a mais óbvia. O subintendente Dennis da Cruz, que liderou as investigações, recebeu várias ameaças de morte e até ficou sem carro, pois alguém decidiu fazer uma fogueira com o mesmo. «Teve ‘n’ ameaças de pessoas ligadas ao Macaco. ‘Vamos-te matar’, ‘vais morrer’, queimaram-lhe o carro, teve inclusivamente segurança pessoal que lhe deu proteção alguns tempos», explica ao Nascer do SOL fonte conhecedora do processo.


Atendendo às especificidades do local onde está o tribunal, a PSP optou por colocar vários homens à civil para anular eventuais ajuntamentos de populares mais bairristas, além de ter reforçado fortemente o dispositivo policial, tanto no exterior como no interior do tribunal, ficando muitas vezes as equipas da Unidade Especial nas proximidades, para o que der e vier.
«Às vezes, não tem a ver com os meios só, tem a ver com a própria metodologia de organização da segurança. Por exemplo, o que normalmente se faz mesmo nas zonas de risco é, se houver ali uma rua próximo do tribunal, corta-se a rua ao trânsito e monta-se um ‘cerco’ ao tribunal. Neste momento há muito pessoal à civil naquelas ruas adjacentes, a própria metodologia alterou um bocadinho, no sentido de perceber, às vezes, os momentos que possam originar algumas situações complicadas. Há um conjunto de pessoas que gostam do Macaco e que são da claque, mas depois também há um conjunto de pessoas que o apoiam pelo bairrismo. E quando é assim é fácil começaram a discutir e a Polícia está muito atenta a esse tipo de situações, às vezes improvisadas, até porque as organizadas vão sendo desmontadas, mas aquelas situações imprevistas, aquelas situações que surgem de um momento para o outro, às vezes de uma conversa simples num café ou numa zona qualquer, um movimento qualquer que, de repente, obriga a uma intervenção diferente. Isso tem sido calculado também», diz outra fonte do comando do Porto.

Assembleia fatal
Tudo começou na assembleia geral do FC Porto, de 13 novembro de 2023, onde se discutia a alteração dos estatutos do clube e onde os sócios afetos a uma futura candidatura de André Villas-Boas foram agredidos pela guarda pretoriana de Pinto da Costa, capitaneada por Fernando Madureira, vulgo Macaco. Como estavam magistrados na assistência, tornou-se mais fácil para a PSP investigar os tais casos de coação agravada entre outros.
Fernando Madureira, o ex-líder dos Super Dragões, pensou, segundo alguns polícias do Porto ouvidos pelo nosso jornal, que ainda estava no antigamente: «No passado, a dificuldade era tanta, e estes problemas eram tantos, que a PSP se acobardava. Era inimaginável a PSP, há 20 anos, no Porto, dar segurança pessoal a um oficial que fosse ameaçado pela claque do clube. Tivemos várias situações em que não percebemos por que a Polícia reagia desta ou daquela forma. Há uma imagem até muito caricata que apareceu na comunicação social há uns anos em que o Pinto da Costa está de dedo em riste para um oficial e o oficial com a cabeça cabisbaixa. Aquela imagem acabava por descrever a ideia que as pessoas tinham da relação entre a Polícia e o próprio FCP, através do Pinto da Costa. Era, no fundo, como se dissesse que ele é que mandava naquilo tudo, ele é que era o dono daquilo, ele dava-se ao luxo de dar um ordem a um oficial ou de dar um ralhete a um oficial. Isso acontecia muito. Por isso é que essa relação entre os polícias, magistraturas, as várias organizações do Estado ligadas à segurança era muito tendenciosa, um bocadinho estranha, de facto», acrescenta outra fonte, ironizando.


Recorde-se que são 12 os arguidos na Operação Pretoriano, que irão responder por 31 crimes, a maioria em coautoria.