O tempo passa, e faz um ano em 10 de Março que caiu o pano do grande teatro da governação geringonço-socialista, depois de oito anos de peculiares encenações de um escol de artistas, autores, comediantes e também muitos farsantes. Todos eles saíram naturalmente pela esquerda baixa, seguindo as suas convicções de nunca olharem ao centro ou à direita.
Exibia esse teatro os grandes valores da solidariedade, humanidade e compaixão para com os deserdados da sorte e desamparados da vida, bandeiras desfraldadas como exclusivo seu. Infelizmente sempre na boca, mas porventura longe do coração e sem expressão concreta na acção individual. Também a Sr.ª Catarina do Nascimento de S. João Baptista, personagem de A Morgadinha dos Canaviais, de Júlio Dinis, a beata mais bem retratada da literatura portuguesa, era toda cheia de igreja e lausperenes, mas o infeliz marido, quando chegava à noite do trabalho, encontrava a “casa vazia, o lume apagado e o caldo na horta…”.
Comemorando a data, recorda-se, numa peça em três actos, a interpretação que três dos artistas e o seu mestre de cena fizeram daquela tão anunciada paixão.
Abre o pano para o 1ª Acto com um alvoroçado comediante travestido de ministro a deslocar-se em autoestrada a alta velocidade e grave contravenção das normas estabelecidas, naturalmente considerando que as suas funções ministeriais não se coadunavam com prosaicas regras de códigos da estrada. Num momento, dá-se um acidente do qual resulta a morte de um trabalhador da conservação da via. Contrastando com a natural confusão no auxílio ao acidentado, logo aparece um assessor com uma bacia de água onde o ministro, no centro do palco bem iluminado, lava as mãos de qualquer responsabilidade, afirmando ser apenas um passageiro, num teatral gesto de grande manifestação de solidariedade para consigo próprio e de profundo menosprezo pelo condutor. Ainda enxugava as mãos, e já o mestre de cena, entrando de rompante em cena pela esquerda alta, grita também a sua solidariedade para com o comediante, pois que nunca um passageiro podia ser responsável e condenado por um acidente.
Findo o intervalo e novamente o palco bem iluminado, inicia-se o 2º Acto com o mestre de cena a nomear solenemente para representações de grande melindre e confiança o actor que diz ser o seu melhor amigo. Todavia, na cena seguinte e num palco já obscurecido, perpassam cenas de bastidores pouco visíveis, porventura encenações mancomunadas com artistas estranhos ao elenco, que suscitam intervenções de agentes da justiça. Mas logo se abrem as luzes e, bem à esquerda, o mestre de cena explica a ocorrência e rejeita a amizade de anos, porque um mestre de cena não tem amigos e que foi uma infelicidade ter-lhe colado esse rótulo em tempos….
No 3º acto, e à luz plena do palco, toma conta da ribalta o super assessor e guardião único da documentação estratégica que regia as novas caravelas aéreas nacionais, ainda com o cabelo molhado do banho depois do treino de andebol, rolando na sua embarcação a pedal, utilizando o sextante para a escolha da melhor rota. Toca o telemóvel e, vendo que era o seu patrono, logo previu que lhe iria perguntar pelo piercing sobressalente que esquecera na sua secretária. Mas tão atónito ficou ao ouvir o anúncio do seu despedimento sumário e a torrente de impropérios por não ter facultado as notas, até aí informais e assim inexistentes, de uma reunião com a CEO das novas caravelas, que até saiu da pista dos velocípedes para o meio da via, provocando um coro de buzinadelas. Já no Ministério a recolher os seus pertences pessoais, vê-se impedido por um cerrado pelotão de combate feminino comandado pela actriz a quem chamavam Eugénia, o que levou a uma atlética aproximação de argumentos. Livre, entretanto, da armada atacante, sai do gabinete com os seus haveres, mas vê a porta da rua trancada pelo auxiliar técnico da portaria. Assim sequestrado, chama as autoridades que o fazem sair em liberdade. Já em casa, e intimado pela terrível polícia secreta entretanto chamada ainda não se sabe por quem, foi obrigado a entregar, na escuridão da alta madrugada, o computador onde guardava os segredos da companhia das caravelas e do próprio Estado.
No momento seguinte, e a plena luz do palco, o actor super assessor, até aí de toda a confiança, é exibido, acusado e condenado por actos de gatunagem de bens públicos, num solene ritual presidido pelo mestre de cena com transmissão em todas as televisões do reino, sublime acto de justiça pública em causa própria e solidariedade consigo e para com os seus.
E enquanto as luzes se vão apagando e o pano se fecha, um pequeno foco clandestino vai mostrando o vulto desfocado do condutor, sozinho e abandonado, carpindo a falta de compaixão e o desdém daqueles que tanto apregoavam a solicitude pelos mais fracos ou caídos em desgraça. Outros vultos se aproximavam, mas a cena foi interrompida com corte geral da energia na sala.
É que os velhos actores perderam palco, mas não o comando dos bastidores.
Economista e Gestor
Subscritor do Manifesto Por uma Democracia de Qualidade
pcardao@gmail.com