Histórias das 3001 noites lusitanas


A representação foi passando de farsa a comédia, de comédia a drama e de drama a tragédia quando, envolvido nos escândalos dos vizires que tinha escolhido para a governação do sultanato, o Sultão não conseguiu segurar a sua cabeça.


Face ao adultério da esposa, o Sultão Shariar mandou-a matar e, para evitar novas traições, jurou executar todas as mulheres que desposava. Convencida de que poderia pôr fim a tal violência, Sherazade ofereceu-se como esposa e, habituada a contar histórias à irmã pequenina, pediu ao Sultão que a deixasse contar a ambos a sua última história. Um enredo tão empolgante e interminável, que o Sultão pediu para continuar na noite seguinte. E assim aconteceu por Mil e Uma Noites, quando o Sultão, certamente numa análise de custo-benefício, trocou a sua jura e a morte das concubinas pelo encanto das histórias de Sherazade.

Num outro país, nos confins do Al-Andalus, também se contavam histórias, mas aí era o Sultão o contador, forma de amolecer o bazar e ir salvando a sua cabeça. Histórias narradas em empolgantes representações ao vivo, em palcos alcatifados ou em teatros de rua, onde se misturavam farsa e comédia, circo e malabarismo e fornadas de figurantes que não regateavam aplausos.

Agora que estão a terminar, recordam-se algumas dessas histórias das 3001 noites do Al-Andalus Ocidental.

Cem luas atrás, subia o Sultão ao palco para a primeira encenação. Brandindo o canudo de marfim de Ali que permitia ver tudo o que se desejava, anunciou ao bazar o fim da austeridade e o caminho da riqueza, à razão de 30 cêntimos por mês para os reformados e 70 cêntimos para famílias carenciadas. E olhando com mais atenção para o fundo do canudo, logo anunciou a descoberta da password da caverna de Ali Babá e proclamou a distribuição do ouro encontrado, prémio ao seu séquito, promessa a novos seguidores e diminuição do tempo de trabalho para os servidores do palácio. Findou a performance em inesquecível apoteose.

Ainda não terminados os aplausos, e já novamente no palco, agora munido com a lâmpada de Aladino, o Sultão encenou as esplendorosas promessas de médico de família para todos, fim das listas de atendimento nos hospícios e mesmo, por acção da maçã de Ahmed, a cura de todas as enfermidades.

Por vezes, o desempenho sofria perturbações, quando a sua patrona, a feiticeira Parinabu, o bloqueava e até acorrentava às ideias vigentes no palácio à esquerda do seu. O que exigia inesperados e ainda mais grandiosos espectáculos onde se encenava a renacionalização da Companhia dos Tapetes Voadores ou a reversão das concessões feitas a mercadores do bazar dos transportes nas calçadas e canais da cidade e espaços circundantes.

E se outras nuvens assombravam o Sultão como os desvarios grevistas dos professores, de imediato subia ao tablado para anunciar o total sucesso nas escolas sultânicas, mágica bem mais difícil do que o voo dos macacos das histórias de Sherazade, até porque na encenação os alunos passavam de ato para ato sem saber quaisquer das suas falas.

Os espectáculos repetiam-se nos mais variados palcos, onde o tapete voador de Hoçaine o conduzia sem estorvos, evitando naturalmente os fogos nas orlas das florestas, cujas chamas poderiam chamuscar o sultão e às quais o frágil veículo não poderia ser exposto. E encenava a atribuição de passes gratuitos nas malapostas do reino, mesmo que as diligências estivessem paralisadas à míngua de manutenção, ou por falta de cavalos e camelos, mortos de cansaço, longe dos caravançarais, bazares ou hospícios mais próximos. Performance repetida à base de estribilhos era a da diminuição dos tributos, mesmo quando os fazia voar para alturas nunca antes atingidas.

Quando a peça não correspondia ao cartaz, o Sultão fazia avançar a troupe de malabaristas, ilusionistas, contorcionistas e prestidigitadores para entreter os espectadores, fazendo as vacas voar.

E se, mesmo assim, as vacas não voavam, logo friccionava a lâmpada de Aladino e convocava o antigo sultão para lhe atribuir toda a culpa, mesmo que já dormisse fora do palácio ia para as 3000 noites.

E neste entorpecimento, o sultanato endividava-se como nunca, o bazar suportava os maiores tributos de sempre e ficava cada vez mais na cauda dos 28 bazares vizinhos.

Esgotando-se na retórica vã, a representação foi passando de farsa e comédia, de comédia a drama e de drama à tragédia quando, envolvido nos escândalos dos vizires que tinha escolhido para a governação do sultanato, o Sultão não conseguiu segurar a sua cabeça e demitiu-se. Não sem representar a pantomina final quando, ainda em palco, responsabilizou o Califa pela demissão, num passa-culpas similar à das histórias do corcundinha.

Apagadas as luzes do palco, ficou uma ribalta obscurecida, símbolo do buraco negro dos serviços públicos em declínio, uma escola pública que exclui da ascensão social quem mais precisa, um sistema de saúde que serve a ideologia e despreza o doente, o crescimento da pobreza, o desperdício dos fundos europeus em despesa corrente em vez de investimento produtivo, uma tributação crescente e das mais elevadas de todos os bazares.

No fim das histórias, Sherazade casou em glória com o Sultão; por cá, o Sultão saiu naturalmente pela esquerda baixa.

 

Economista e Gestor
Subscritor do Manifesto Por uma Democracia de Qualidade

pcardao@gmail.com

Histórias das 3001 noites lusitanas


A representação foi passando de farsa a comédia, de comédia a drama e de drama a tragédia quando, envolvido nos escândalos dos vizires que tinha escolhido para a governação do sultanato, o Sultão não conseguiu segurar a sua cabeça.


Face ao adultério da esposa, o Sultão Shariar mandou-a matar e, para evitar novas traições, jurou executar todas as mulheres que desposava. Convencida de que poderia pôr fim a tal violência, Sherazade ofereceu-se como esposa e, habituada a contar histórias à irmã pequenina, pediu ao Sultão que a deixasse contar a ambos a sua última história. Um enredo tão empolgante e interminável, que o Sultão pediu para continuar na noite seguinte. E assim aconteceu por Mil e Uma Noites, quando o Sultão, certamente numa análise de custo-benefício, trocou a sua jura e a morte das concubinas pelo encanto das histórias de Sherazade.

Num outro país, nos confins do Al-Andalus, também se contavam histórias, mas aí era o Sultão o contador, forma de amolecer o bazar e ir salvando a sua cabeça. Histórias narradas em empolgantes representações ao vivo, em palcos alcatifados ou em teatros de rua, onde se misturavam farsa e comédia, circo e malabarismo e fornadas de figurantes que não regateavam aplausos.

Agora que estão a terminar, recordam-se algumas dessas histórias das 3001 noites do Al-Andalus Ocidental.

Cem luas atrás, subia o Sultão ao palco para a primeira encenação. Brandindo o canudo de marfim de Ali que permitia ver tudo o que se desejava, anunciou ao bazar o fim da austeridade e o caminho da riqueza, à razão de 30 cêntimos por mês para os reformados e 70 cêntimos para famílias carenciadas. E olhando com mais atenção para o fundo do canudo, logo anunciou a descoberta da password da caverna de Ali Babá e proclamou a distribuição do ouro encontrado, prémio ao seu séquito, promessa a novos seguidores e diminuição do tempo de trabalho para os servidores do palácio. Findou a performance em inesquecível apoteose.

Ainda não terminados os aplausos, e já novamente no palco, agora munido com a lâmpada de Aladino, o Sultão encenou as esplendorosas promessas de médico de família para todos, fim das listas de atendimento nos hospícios e mesmo, por acção da maçã de Ahmed, a cura de todas as enfermidades.

Por vezes, o desempenho sofria perturbações, quando a sua patrona, a feiticeira Parinabu, o bloqueava e até acorrentava às ideias vigentes no palácio à esquerda do seu. O que exigia inesperados e ainda mais grandiosos espectáculos onde se encenava a renacionalização da Companhia dos Tapetes Voadores ou a reversão das concessões feitas a mercadores do bazar dos transportes nas calçadas e canais da cidade e espaços circundantes.

E se outras nuvens assombravam o Sultão como os desvarios grevistas dos professores, de imediato subia ao tablado para anunciar o total sucesso nas escolas sultânicas, mágica bem mais difícil do que o voo dos macacos das histórias de Sherazade, até porque na encenação os alunos passavam de ato para ato sem saber quaisquer das suas falas.

Os espectáculos repetiam-se nos mais variados palcos, onde o tapete voador de Hoçaine o conduzia sem estorvos, evitando naturalmente os fogos nas orlas das florestas, cujas chamas poderiam chamuscar o sultão e às quais o frágil veículo não poderia ser exposto. E encenava a atribuição de passes gratuitos nas malapostas do reino, mesmo que as diligências estivessem paralisadas à míngua de manutenção, ou por falta de cavalos e camelos, mortos de cansaço, longe dos caravançarais, bazares ou hospícios mais próximos. Performance repetida à base de estribilhos era a da diminuição dos tributos, mesmo quando os fazia voar para alturas nunca antes atingidas.

Quando a peça não correspondia ao cartaz, o Sultão fazia avançar a troupe de malabaristas, ilusionistas, contorcionistas e prestidigitadores para entreter os espectadores, fazendo as vacas voar.

E se, mesmo assim, as vacas não voavam, logo friccionava a lâmpada de Aladino e convocava o antigo sultão para lhe atribuir toda a culpa, mesmo que já dormisse fora do palácio ia para as 3000 noites.

E neste entorpecimento, o sultanato endividava-se como nunca, o bazar suportava os maiores tributos de sempre e ficava cada vez mais na cauda dos 28 bazares vizinhos.

Esgotando-se na retórica vã, a representação foi passando de farsa e comédia, de comédia a drama e de drama à tragédia quando, envolvido nos escândalos dos vizires que tinha escolhido para a governação do sultanato, o Sultão não conseguiu segurar a sua cabeça e demitiu-se. Não sem representar a pantomina final quando, ainda em palco, responsabilizou o Califa pela demissão, num passa-culpas similar à das histórias do corcundinha.

Apagadas as luzes do palco, ficou uma ribalta obscurecida, símbolo do buraco negro dos serviços públicos em declínio, uma escola pública que exclui da ascensão social quem mais precisa, um sistema de saúde que serve a ideologia e despreza o doente, o crescimento da pobreza, o desperdício dos fundos europeus em despesa corrente em vez de investimento produtivo, uma tributação crescente e das mais elevadas de todos os bazares.

No fim das histórias, Sherazade casou em glória com o Sultão; por cá, o Sultão saiu naturalmente pela esquerda baixa.

 

Economista e Gestor
Subscritor do Manifesto Por uma Democracia de Qualidade

pcardao@gmail.com