Nota prévia: nas guerras, é após a saída dos ocupantes que se descobrem os crimes contra a humanidade que foram cometidos e o grau de destruição. A Ucrânia não é exceção. Ninguém sério duvida que as execuções criminosas reveladas foram cometidas por tropas russas, conhecidas pela sua crueldade. As principais vítimas dos conflitos armados são civis desprotegidos, o que gera uma indignação enorme.
Os responsáveis pelos crimes e os seus apoiantes negam sistematicamente a evidência da sua responsabilidade. Há mesmo quem negue o Holocausto. A guerra da Ucrânia vai revelar muitas outras chacinas cometidas por invasores e, ninguém duvide, por invadidos. Apesar de tanto horror e sofrimento de um povo heroico (o ucraniano) e de um outro oprimido e desinformado (o russo), é ainda possível ter esperança que a violência seja substituída por um cessar-fogo ou uma paz negociada por exaustão do agressor ou porque ele já obteve o que queria. Mas não haja ilusões: os autores materiais e morais das atrocidades relatadas jamais serão julgados.
1. O programa do Governo está datado e não motiva. Ao lê-lo, fica-se com a ideia absurda de que a conjuntura não mudou radicalmente. As referências à guerra da Ucrânia são metidas a martelo e a inflação que nos corrói desde antes do conflito é tratada como um mero aumento dos preços. O resto do documento estava no computador de quem o fez antes das reviravoltas do mundo. Tudo isso torna impossível acreditar que António Costa seja capaz de evitar a degradação económico-social do país.
Dentro de meses, até a Roménia nos vai ultrapassar. Uma estratégia económica recomendaria que Costa Silva ativasse o AICEP e a diplomacia económica para vender Portugal a investidores. O nosso posicionamento geoestratégico ganhou relevância com a guerra da Ucrânia. Estamos longe da Rússia e somos a porta de entrada da Europa pelo sul. Simultaneamente, devemos procurar fortalecer relações com países da Ásia Central e do Médio Oriente, como bem sabem os especialistas em energia e em estratégia político-económica, incluindo Costa Silva. Ninguém vai falar destas coisas menos mediáticas nos próximos dias, mas elas são decisivas.
2. No plano interno, António Costa deveria acudir a quatro áreas colapsadas: Saúde, Segurança Social, Justiça e fiscalidade. Na Saúde, o caos é total. Não está só no SNS e ADSE. Espalha-se já no setor privado cheio de ineficácias, mesmo nas áreas não convencionadas. Uma das novas dores de cabeça dos doentes que, com sacrifício, recorrem a seguros de saúde, está nos bloqueios e falta de acessibilidade de empresas tipo “qualquer coisa care”. Estão desmaterializadas, funcionam por net, com call centers ineficientes e sem fiscalização. Dificultam a vida dos subscritores que tentam colmatar as alarmantes falhas do SNS sobretudo nos centros de saúde e no recurso a especialistas.
Na Segurança Social, a ineficácia junta-se à burocracia e à incapacidade de gerir o dinheiro para o efeito que ele existe. Na justiça, já não é só a eterna questão de uma morosidade que favorece culpados e trucida inocentes. Está cheia de problemas estruturais, logísticos e de incompetências. Há até casos de corrupção e prepotência numa área que toca toda a sociedade, da família ao crime mais sórdido. A fiscalidade é outro bico de obra. O Estado é gordo e estático. Come muito e faz pouco. Tem de emagrecer e mexer-se. Um português que ganhe cerca de dois mil euros brutos devolve mil a Medina, entre impostos e taxas. E paga um balúrdio para ter uns tostões no banco. O programa do Governo é um prato requentado que levou ervas aromáticas e especiarias para disfarçar.
3. Como aqui se previu, há notícia de falhas na atribuição do número de contribuinte e de utente de saúde a refugiados ucranianos, o que impede uma inserção mínima na sociedade. A mentira propagandística tem perna curta. A nossa burocracia é desumana, irresponsável e incompetente. Neste caso, envolve fisco, saúde, segurança social e SEF.
4. As eleições para a mesa da Assembleia da República mostraram a perfídia da nossa política. Só a escolha de Santos Silva para presidente correu como esperado. Quanto à dos vices a coisa foi triste. Em vez dos quatro previstos, só se elegeram Adão Silva e Edite Estrela. Adão obteve muito mais votos que Edite. Tal significa que o PSD não cumpriu o acordado, o que torna também provável que parte dos seus deputados não tenham votado em Cotrim de Figueiredo, que não conseguiu a eleição. Funcionou a democracia, mas falhou a praxe. Rio veio, com razão, lembrar que bastavam os votos do PS para eleger Cotrim, atirando para os socialistas a responsabilidade. Há quem esconda a mão que atira a pedra.
A não eleição dos candidatos propostos pelo Chega estava, entretanto, preanunciada, mas não prestigia. O Chega é antissistema, mas não é antirregime. Não é tão extremista como o PCP e o Bloco, que tiveram vice-presidentes da Assembleia. Não se ouve Ventura proclamar apoio a ditaduras atuais ou passadas de extrema-direita nacionalista. Já o PCP e Bloco são defensores de gloriosas democracias como a soviética, a russa de Putin e norte coreana, nomeadamente.
5. Nuno Melo ganhou o CDS como previsto. Regressaram alguns “pauloportistas” experientes. Está para se ver se é um renascer ou o canto do cisne. O facto é que votar no CDS já não apetece.
6. No PSD, aguarda-se a confirmação do avanço de Jorge Moreira da Silva para disputar a liderança com Luís Montenegro. São dois políticos reconhecidos por razões diferentes e com pontos de vista nem sempre coincidentes. Ambos foram muito próximos de Passos Coelho. Montenegro é favorito, como indicia o apoio de Graça Carvalho que normalmente acerta. O pitoresco Ribau não avançou. Pinto Luz e Pedro Duarte estão a ponderar.
7. Humor ou bullying? O humor pode ser pontualmente cruel. Mas não se pode confundir as duas coisas. Quando estamos perante a sistemática tentativa de diminuir e achincalhar alguém, é claramente bullying. Ultimamente, Araújo Pereira tem-se entretido a gozar a figura do Presidente da República. Apesar de ter graça, a insistência traz água no bico. Cheira a campanha. Araújo Pereira é um humorista, comunista, rico e muito estimado. É o nosso oligarca do riso.
Uma espécie de DDT da graçolândia, sendo que, curiosamente, também recorre a coisas que não são suas (imagens) para ganhar dinheiro. O zelo de Araújo quanto a Marcelo aumentou na medida em que cresceu a sua dependência de um grupo cujo acionista-mor muito estima o Presidente da República. RAP merece ser o funcionário do mês.
8. Na política portuguesa sempre houve quem usasse o atraso para atrair a atenção mediática. Hoje, o grande executante da modalidade é Pedro Nuno Santos. Usou-a no congresso do PS, o que António Costa atribuiu ao sono. Agora não compareceu a tempo para a primeira foto de família do Governo. Explicou aos jornalistas que iria aparecer no boneco, o que hoje é facílimo com as tecnologias. É uma prática antiquíssima. Foi usada por uma grande referência de uma certa esquerda: Estaline, para apagar uns quantos. Em matéria de atrasos é provável que o ministro queira estar sintonizado com a TAP e a CP, que ele tutela.
9. A situação da Associação Mutualista Montepio mantém-se preocupante. Virgílio Lima, reconduzido à frente da instituição que controla o banco, e a sua equipa apresentaram contas que continuam a merecer reservas do auditor, a PWC. Anunciam-se lucros de 40 milhões, mas resultam de situações extraordinárias como subidas de taxas de juro e de ativos por impostos diferidos. As contas apresentadas coincidem com lucros que Lima já tinha proclamado durante a campanha. Conclusão: ou não foi verdadeiro na altura ou a mutualista não trabalhou desde então. O grupo Montepio é frágil. Portugal não pode ter novos Banif, BES/GES, Novo Banco ou BPP.