Roménia. O escabroso caso do Scornicesti

Roménia. O escabroso caso do Scornicesti


Em 1978, o clube da cidade natal do ditador Ceausescu precisava de uma vitória gorda para subir à I Divisão – ganhou por 18-0!


Depois da tranquibérnia desta semana no Jamor que parece conduzir à morte anunciada dessa organização espúria antigamente chamada Belenenses e que agora não passa de uma simples letra, a memória parte à procura de outros casos meio escabrosos, embora, evidentemente, com contornos diferentes. Nesse aspecto, a antiga Roménia de Nicolae Ceausescu é um manancial, até porque o ditador fazia questão de se meter no futebol fosse de que maneira fosse.

Em 1978, o escândalo Scornicesti rebentou e toda a Europa falou nele. Chegado à última jornada do campeonato o Fotbal Club Olt Scornicesti, que se preparara durante dois anos para ascender, finalmente, à I Divisão, precisava de um resultado dilatado sobre o Electrodul Slatina. Um resultado pelo menos suficientemente volumoso que não o deixasse sujeito ao que nesse momento se passava noutros campos da Roménia com os outros candidatos à subida.

O público que encheu o Estádio Vitorul – cerca de 20 mil pessoas – deleitou-se com a goleada fantástica de 18-0. Claro que, para alguém menos dado ao entusiasmo clubista que tomou conta da cidade de Scornicesti, talvez desconfiasse de alguma marosca. Afinal o Electrodul entregara-se como um cordeiro ao sacrifício, não resistindo minimamente às investidas dos adversários. 

Mais estranho ainda foi o facto de que, dez minutos após as duas equipas e os árbitros terem recolhido aos balneários, voltassem a subir ao relvado para, segundo explicações dadas pelos altifalantes, haver um erro na contabilidade dos minutos e não se haverem esgotados os noventa regulamentares.

O povo que já estava a caminho de casa, regressou às bancadas, e preparou-se para assistir a mais um naco de actividade circense composta por palhaços sem piada. Mais tarde veio a saber-se que havia dúvidas sobre o resultado de um dos rivais do Scornicesti à subida e, por via das dúvidas, fora tomada a medida de prolongar o jogo do Estádio Vitorul não se desse o caso de os 18-0 serem curtos.

Ceaucescu O presidente do Scornicesti era uma figura sinistra chamado Dumitru Dragomir, Mitica de nome de guerra. Tinha uma tal tendência para a cadeira presidencial que chegou, em fases distintas, a ser o presidente do Chimia Râmnicu Vâlcea, do Olt Scornicesti, do FCM Brasov e do Victoria Bucuresti, além de presidente da Liga Profissional de Futebol da Roménia. Um tipo poderoso, como está bem de ver. Membro do  Partidul România Mare, o Grande Partido Romeno, e membro da Câmara de Deputados, tinha uma relação próxima com o Presidente Ceausescu.

Nicolae Ceausescu chegou ao poder em 1965, quando foi eleito secretário-geral do Partido Comunista Romeno. Em 1974 tornou-se Presidente da República governando o país com um recurso à violência tão convicto que os seus homens da polícia secreta, a Securitate, tinham carta branca para praticarem as maiores atrocidades.

Ceaucescu nasceu numa pequenina cidade de cerca de 12 mil habitantes no dia 26 de janeiro de 1918. A cidadezinha pertence à região de Olt, junto à fonteira com a Bulgária, e fazendo parte das históricas províncias da Olténia e da Munténia. Instalada na planície, atravessada pelo rio Olt, não muito longe de um dos vales do Danúbio, Scornicesti ficou para a História por ser a cidade natal de Nicolae Ceaucescu. E assim, a célebre vitória por 18-0, começava a fazer algum sentido.

Mais tarde, o presidente do Electridul confessaria: “Não havia nada a fazer. E nem sequer era uma questão de cobardia. Era apenas realismo puro e simples. No meu escritório na sede do clube era o retrato de Ceausescu que estava pendurado na parede, não era o meu”.

A revolução de 1989 e o fuzilamento popular de Nicolae fez desaparecer o Scornicesti. Como outros clubes ligados ao regime derrubado, foi banido das provas profissionais e hoje vegeta no insignificante Campeonato de Olt. Ficou para sempre ligado a uma infâmia…