A Liberty Media aproveitou a realização do Grande Prémio de Inglaterra, em Silverstone, para apresentar o protótipo do carro para 2022. Um monolugar com um design simplista, o que se pode considerar uma revolução suave nos conceitos aerodinâmicos da Fórmula 1. “O novo regulamento foi concebido para facilitar as ultrapassagens e trazer maior emoção às corridas. Queremos que os melhores pilotos vençam, mas queremos também maior competitividade em pista” sublinhou o presidente da FIA, Jean Todt.
O carro do próximo ano mantém as mesmas dimensões, mas diferencia-se por ter uma gigantesca asa dianteira, deflectores nas rodas da frente, aileron traseiro compacto, enorme extrator atrás e pneus maiores (passam de 13 para 18 polegadas) montados em jantes fechadas. Destaque para o regresso do efeito de solo (deixa literalmente os carros agarrados à pista), que compensa a perda dos apêndices aerodinâmicos nas partes laterais da carroçaria.
Segundo os especialistas da FIA, o novo package aerodinâmico deverá diminuir a turbulência do ar que afeta o carro que vem atrás, isso permitirá aos pilotos andarem mais próximos uns dos outros, competir no limite e ultrapassar com mais facilidade. Se as previsões não falharem (como falharam em outros regulamentos) as corridas deverão ser menos previsíveis do que são atualmente.
Para os mais puristas é um downsizing a nível da aerodinâmica e performances – os carros deverão ser mais lentos três segundos por volta em determinados circuitos – para os promotores do campeonato é a salvação da Fórmula 1.
O carro apresentado é bastante escultural, mas é apenas um protótipo. Cabe agora aos engenheiros e projetistas das equipas seguir o seu caminho, explorar ao máximo as novas regras e aproveitar alguns furos no regulamento para criar carros verdadeiramente espetaculares e eficazes – é que cada milésimo de segundo vale ouro na Fórmula 1.
No capítulo mecânico não houve alterações, pelo que se mantêm os motores V6 1.6 híbridos até 2025. A FIA anunciou que pretende alcançar a neutralidade carbónica na Fórmula 1 em 2030, mas também já admitiu que o uso exclusivo de motores elétricos não é a solução. Há quem defensa o desenvolvimento de um combustível sustentável que poderá ser o hidrogénio.
PILOTOS APROVAM O heptacampeão Lewis Hamilton (Mercedes) reconheceu que “será um grande desafio conduzir um carro novo. Se os pilotos andarem mais próximos uns dos outros isso será ótimo para os fãs e para o desporto. Os carros serão mais lentos, mas a época poderá ser mais emocionante”.
Já o líder do campeonato Max Verstappen (Red Bull) considera “a ideia interessante. É muito diferente do que estamos habituados. Não quero saber se o carro é bonito ou feio, o importante é que os pilotos andem mais próximos e que seja possível ultrapassar mais vezes”.
Charles Leclerc testou o novo carro no simulador da Ferrari, e confidenciou: “O carro é agressivo e a condução será muito diferente. Definitivamente mudará algumas coisas, e isso poderá tornar as corridas mais interessantes”.
George Russell (Williams) gostou do que viu “tem um ótimo aspeto, e a mudança parece-me acertada. Temos de esperar para perceber se tem as performances que desejamos. É a primeira vez que a Fórmula 1 tem um grupo de trabalho dedicado a melhorar as corridas, e como piloto é tudo o que quero.”
SPRINT PARA A HISTÓRIA O fim de semana de Silverstone trouxe outra novidade que foi a corrida Sprint (17 voltas) que estabeleceu a ordem de partida para o Grande Prémio, o que aconteceu pela primeira vez na história da Fórmula 1. Os pilotos veteranos mostraram algumas reservas, e tinham razão. A corrida Sprint não trouxe nada de novo, foi mais um passeio de Max Verstappen (Red Bull) com Lewis Hamilton (Mercedes) em segundo.
O verdadeiro Grande Prémio (52 voltas) teve 140 mil espetadores a assistir! e começou com o espetacular acidente que mandou Verstappen para o hospital, e obrigou à interrupção da corrida na primeira volta. A forma agressiva como os dois pilotos lutavam pelo primeiro lugar, várias vezes roda com roda, acabou com o violento despiste de Verstappen, a 300 km/h, após toque com Hamilton. Foi grave, e motivou a passagem do piloto pelo hospital do circuito para observação após uma desaceleração brutal de 51g!
Pela reação extremada das duas equipas, este acidente vai marcar o resto da época, sendo certo que Hamilton deixou de ser o bom rapaz perante o azougado Verstappen. “Ele está bem”, disse o director da Red Bull, Christian Horner, e apontou culpas: “O Lewis conhece muito bem este circuito e sabe que aquela curva não é o lugar para tentar uma ultrapassagem”, a corrida mostrou o contrário! Toto Wolff, diretor da Mercedes, respondeu enviando um email ao diretor de corrida com frames da trajetória do carro de Hamilton, e acrescentou: “Há coisas a mudar nos futuros regulamentos.”
O recomeço da prova trouxe novo protagonista: Charles Leclerc (Ferrari), que liderou até à penúltima volta, altura em que foi ultrapassado por Hamilton, nem os dez segundos de penalização devido ao acidente com Verstappen o impediu de vencer, seguido por Leclerc e Lando Norris (McLaren). Sobre o acidente foi claro: “Estava à frente e escolhi a trajetória, ele estava muito agressivo e veio para cima de mim.” Sobre a corrida, disse: “Nunca desistimos, dei tudo para compensar a penalização. A vitória é muito especial para mim e para toda a equipa”.
Este Grande Prémio fica também na história por ser amigo do ambiente. A FIA utilizou 30 mil litros de biocombustível para alimentar os geradores que forneciam energia à sala de imprensa, à zona da TV Compound e outras áreas ligadas à organização da prova, conseguindo reduzir as emissões de carbono em cerca de 90 por cento.