Há uma lei de Deus e uma lei dos homens. O Estado é laico. Mas como homem que acredita, eu não vejo futuro nas sociedades sem fé. Quaisquer que elas sejam.
Ninguém se atreverá a disputar uma verdade autoevidente: os locais onde vivemos resultam daquilo em que acreditamos. Ideias como justiça, solidariedade, riqueza, proteção ambiental ou até educação não são inseparáveis da moldura ética e moral formada pelas nossas crenças políticas e religiosas.
Não é por acaso que algumas das mais prósperas cidades do mundo são também aquelas com maior diversidade e tolerância religiosa.
Há cidades que têm de fazer um enorme esforço para se abrirem ao exterior e à diferença. Cascais não precisa de fazer esforço algum para ser tolerante e inclusiva. Isso está no nosso ADN. É a nossa predisposição, confirmada pela história, ter os braços abertos ao mundo. Tratar o outro como um dos nossos. Orgulhamo-nos de ser uma terra sem estrangeiros, apesar de aqui viverem representantes de mais de 120 nacionalidades do mundo.
A vocação humanista e universalista de Cascais constitui hoje um ativo que tem poder de atração junto das mais variadas comunidades espalhadas por toda a Europa e pelo mundo. É um círculo virtuoso: quanto mais atrativa for Cascais, mais diverso e próspero se torna o território, com isso captando a atenção de mais cidadãos do mundo.
A Casa Chabad – Centro de Vida e Aprendizagem Judaico, inaugurado no passado dia 12, é um dos projetos que contribuíram de forma incalculável para o aumento do nosso poder pelo exemplo.
Como eu sempre disse, a Casa Chabad não seria uma sinagoga. É um espaço – por sinal, superiormente idealizado pelo arquiteto Mário Sua Kay e pela sua equipa – inteiramente dedicado à educação e à cultura judaica. Isto faz deste centro uma das mais importantes obras de matriz judaica que o nosso país viu nascer em democracia. Portugal tem sinagogas em Belmonte, Porto e Lisboa. Mas, nos últimos 500 anos, este é o primeiro espaço de vivência integral dos princípios judaicos. Não é um espaço de oração, é um espaço de educação. De cultura e de abertura.
É, não menos importante, um espaço de raízes. Alguns radicais – muito poucos, na verdade – esforçam-se por apagar da nossa vida a matriz judaico-cristã. Em Cascais, não só nos orgulhamos dela como nos bateremos contra quem a queira debelar. Essa tradição, que fez de nós aquilo que somos, respira-se por todas as paredes do centro judaico – muito particularmente nas paredes da biblioteca, onde encontramos exemplares extraordinários. Como o primeiro livro impresso em Lisboa, no ano de 1489, a primeira Tora, de 1490, ou até a obra excecional de Abraham Sabba. A história deste rabino, um grande intelectual, merece ser contada. Quando a perseguição aos judeus em Portugal escalou, Abraham Sabba teve, como tantos outros, de fugir da Inquisição. Incapaz de carregar o que quer que fosse, o rabino escavou um buraco debaixo de uma oliveira onde refugiou os seus sábios comentários à Tora. Impossibilitado de regressar a Portugal e a viver em Marrocos, Sabba dedicou parte da sua vida a reescrever, de memória, o seu livro original. Publicado em Veneza, em 1523, esse livro está hoje na biblioteca judaica da Casa Chabad.
Quando olhamos para a arena das nações, percebemos que Portugal tem uma influência que não é proporcional à sua geografia. Isso deve-se em grande parte a este património imaterial de humanismo e tolerância que une gerações e gerações de portugueses. Este património genético une as forças políticas moderadas. E, felizmente, não tem sido arrastado para as disputas comezinhas do dia-a-dia nem para o lamaçal das forças extremistas. Se Portugal é um ponto focal no diálogo inter-religioso e intercultural a nível europeu, Cascais é, orgulhosamente, um dos seus principais intérpretes nacionais.
Não podia, neste texto, deixar de sublinhar a presença entre nós do presidente da comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros, o deputado socialista Sérgio Sousa Pinto, bem como do embaixador Luís Barreiros, em representação do Governo de Portugal, entre muitos outros.
A inauguração da Casa Chabad ficou ainda marcada por um discurso de Gerald Sousa Mendes, neto de Aristides de Sousa Mendes, um português que gravou o seu nome para a eternidade na história universal e que, desde segunda-feira, está representado na toponímia de Cascais.
A Casa Chabad é a última de uma série de “casas” que estão ao serviço da população num território que quer ser “casa” para o maior número.
No espaço de apenas 30 dias inaugurámos as residências da CERCICA, para cidadãos com deficiência. E também abrimos as portas do Centro de Acolhimento, a casa para pessoas sem-abrigo.
Continuaremos a trabalhar para que daqui em diante se sigam as residências para idosos, estudantes, profissionais de saúde e de educação que têm de se deslocar para Cascais. E, mais, avançaremos com casas a preços controlados que permitirão a emancipação dos nossos jovens e o alívio de despesas com habitação para a nossa classe média.
Cascais é, e continuará a ser, um concelho de todos. Um território onde ninguém é deixado para trás e sem acesso a teto.
Cascais é, historicamente, um concelho de acolhimento.
Presidente da Câmara Municipal de Cascais
Escreve à quarta-feira