John Coltrane. Ressuscitar a arqueologia do jazz

John Coltrane. Ressuscitar a arqueologia do jazz


2018, ano não oficial do resgate do jazz aos eruditos, graças a nova geração de músicos e de ouvintes, é também de John Coltrane. As gravações que se julgavam perdidas de “Both Directions at Once” foram desvendadas pela família da primeira mulher, Naima, e têm o valor de um acontecimento


Em 1963, o quarteto clássico de John Coltrane, formado com o contrabaixista Jimmy Garrison, o baterista Elvin Jones e o pianista McCoy Tyner, entrou no estúdio Van Gelder em New Jersey.

O saxofonista tinha 36 anos e contrato com a recém-fundada editora Impulse!. Era casado com Juanita Naima Grubbs, a musa do instrumental “Naima”, do álbum “Giant Steps”, editado quatro anos antes. A primeira mulher de Coltrane seria peça-chave do álbum.

Nas linhas de “Both Directions At Once”, o investigador musical e jornalista Ashley Kahn descreve o período do quarteto como “a injeção da mensagem extasiante da igreja negra no mundo educado do jazz: o domingo de manhã no sábado à noite”. E assim se explicam duas direções a apontar para um só caminho, embora outras explicações sejam plausíveis. Por exemplo, o desejo de recriar em estúdio a emoção do palco. Ou ainda uma célebre ideia, partilhada com o saxofonista Wayne Shorter, de começar uma frase (musical) pelo meio e ir ao início e ao fim em simultâneo – Kahn sugere no livreto que as metáforas sempre funcionaram como um rastilho revolucionário para grandes improvisadores como Coltrane.

Quando o engenheiro de som Rudy Van Gelder fez um registo separado das gravações, o músico confiou-a a Naima – desconhece-se se Coltrane alguma vez terá ouvido o resultado final do que resulta agora em “Both Directions At Once”. Já a fita da Impulse! foi destruída por razões de espaço. 

Um ano e meio depois, Coltrane haveria de gravar a obra suprema “A Love Supreme”, editado em fevereiro de 1965, já divorciado de Naima. Não haveria de viver muito mais, já que um cancro de fígado traiu um dos líderes espirituais do jazz com apenas 40 anos. 

A ex-mulher também haveria de partir, mas só em 1996, com um cancro. As canções de “Both Directions At Once”, que deveriam ter visto a luz do dia em 1963, acabaram guardadas no cofre por razões nunca reveladas. Estaria Coltrane inseguro? Quereria aguardar? Nem as páginas do álbum respondem a esta questão. Certo é que permaneceram em parte incerta, chegando a julgar-se perdidas para sempre. Quando a casa de leilões Guernsey anunciou a venda dos artefactos de Coltrane, a editora comprou um conjunto de fitas. 

“Músicos como Coltrane e Duke Ellington gravavam tanto que se esqueciam do que gravavam. E, literalmente, eram pilhas [de gravações]”, contava Bob Thiele, o produtor de Coltrane na Impulse!, morto em 1996. 

Até que, este ano, a família de Naima descobriu as gravações e trabalhou de perto com o filho Ravi Coltrane, coprodutor a quatro mãos com o executivo Ken Druker.

No ano da ressurreição do jazz como língua viva, liderada por Kamasi Washington, o músico mais capaz de aproximar das ruas a herança genética dos grandes mestres como Coltrane, Miles Davis e Herbie Hancock, e por uma geração de ouvintes que, graças à democratização permitida pelo streaming, perdeu os complexos tribais para se relacionar com a música sem espartilhos de género, “Both Directions At Once” é a história a acontecer em tempo real. E entra para a galeria de álbuns notáveis não só de John Coltrane mas do jazz. E se considerarmos que este é um álbum de 2018, estará entre os melhores do ano.