Super Bock Super Rock. Não é preciso guitarras para ser rock

Super Bock Super Rock. Não é preciso guitarras para ser rock


É uma questão de espírito e atitude. As gerações nascentes já não ouvem rock, mas isso não quer dizer que não interiorizem a alma e a simbologia. O hip-hop tomou o lugar do rock nos corações adolescentes e o Super Bock Super Rock leu os sinais. O cartaz é plural e a noite de todas…


Who The f*ck is Zé Pedro

Homenagem familiar e, por isso, inversa à do Rock in Rio, quando meio Portugal, de Marcelo Rebelo de Sousa a António Costa, Fernando Medina e Pauleta, invadiu a “Casinha” dos Xutos & Pontapés. Hoje são os herdeiros familiares quem recorda o “pai adotivo”, o “tio” ou outro grau de parentesco, de sangue ou de amizade. 

Quem está em causa é o senhor rock’n’roll, morto no final do ano passado. A direção musical é de Fred, um dos filhos de Kalu. Carlão, João Pedro Pais, os Ladrões do Tempo, Manel Cruz, Manuela Azevedo, o Palma’s Gang (de que Zé Pedro fazia parte), Rui Reininho e Tomás Wallenstein são o megafone de quem não queria morrer devagar.

Justice

As paredes de amplificadores Marshall à Kiss. Os casacos de cabedal. A distorção digital e estilizada. Formas rock’n’roll, do hard rock foleiro ao psicadelismo distópico, definem a dupla francesa que, contemporânea dos Daft Punk, assimilou os códigos sonoros dos robôs e lhes deu poder de fogo e artilharia eletrónica. 

Gaspard Augé e Xavier de Rosnay são os Justice, e os Justice a bandeira do extinto maximal. Como o revivalismo ainda não chegou ao MySpace e os gauleses se reinventaram, continuam pujantes e musculados a bater-se pela música de dança eletrificada e movida a gasolina superaditivada. Hoje com pirotecnia. 

The xx

Os xx estão a meio de várias viagens. Não são enormes, mas simbolizam uma espécie nem sempre fácil de caracterizar a que se costumava chamar “mainstream alternativo”. Não são uma banda de rock puro e duro, mas deram um concerto glorioso no NOS Alive do ano passado. Estão demasiado à esquerda para ser pop, mas Jamie xx é requisitado para produzir para Drake e Florence + The Machine. Na casa das máquinas, é ele o timoneiro de um trio que em “I See You”, o álbum do ano, confirmou por fim o catálogo de virtudes que ficara por concretizar até então. Em palco é que nunca falham. Não deve ser hoje o dia. 

Slow J

A revelação e confirmação do talento ímpar de Slow J é a ascensão no cartaz do Super Bock Super Rock. Há dois anos, tinha o clássico instantâneo “Vida Boa” acabado de se estrear, deixou toda a gente pasmada no palco Antena 3. A noite memorável de Kendrick Lamar não esqueceu quem, à tarde, lançou a(s) primeira(s) pedra(s). No ano passado, e já com “The Art of Slowing Down” em fase acelerada de conquista nacional, saiu triunfal do SBSR. Tanto que no dia seguinte foi confirmado na edição deste ano, mas no palco maior. O nome maior da sua geração até começou no punk e toca guitarra em palco. Slow J firmou-se no hip-hop, mas as vistas são muito mais largas.

Anderson.paak

Alguma da produção mais interessante do hip-hop americano move-se nos seus interstícios. É o caso de Anderson.Paak, uma aposta pessoal de Dr. Dre, que passou alguns anos na sombra antes de explodir com o álbum “Venice”, híbrido de beat clássico e rima bem intencionada com o coração da soul e o corpo do funk. 

“Oxnard Ventura”, o sucessor, é um dos discos mais esperados para 2018 e já tem um single – “Bubblin’”, valorizado por uma remistura imparável com o veterano Busta Rhymes. Anderson.Paak canta, toca, produz e dança. Há tanto de James Brown como de Dr. Dre aqui. O nome certo para a noite certa de quem acredita na diferença. 

Travis Scott

Há razões válidas para desconfiar da transposição de algum hip-hop para grandes palcos. O concerto de Future no Super Bock Super Rock do ano passado gerou divisões e, já este ano, o pobre espetáculo apresentado por A$ap Rocky no NOS Primavera Sound, repleto de clichés como canhões de fumo e tiros, não ajudou.

Travis Scott é um dos símbolos da era da democratização do hip-hop americano e fiel escudeiro da técnica do auto-tune, afirmada por Kanye West – um dos seus primeiros e principal padrinho. Que singles como “Goosebumps” têm ferocidade rock, não há dúvidas. Em que modo serão apresentados, eis a questão.

The The

Tal como Robert Smith é o mesmo que dizer The Cure, Matt Johnson é igual a The The. A diferença é que, enquanto os Cure arrastam o cadáver há 30 anos, Matt Johnson optou por sabotar os The The e vedar a banda à indústria – o principal motivo porque durante anos se exilou em Nova Iorque, comunicando apenas via mailing list. Longa se torna a espera e o grupo com um dos nomes mais inusitados da História voltou não só à estrada como gravou um novo single. Mas aqui é de memórias que se fala, de diamantes como “This Is The Day” e “Love Is Stronger Than Death”. Se quem não esqueceu é público de festival, é outra questão. 

Stormzy

Uma grande aposta da organização, agora que o grime é rebocado pelo hip-hop americano. O cabecilha do movimento já não é Dizzee Rascal e Mike Skinner reativou os The Streets, mas só os intelectuais o compreendem. Skepta, o Harry Kane do grime, está em Paredes de Coura. Mais polido, Stormzy vem substituir a belíssima Jorja Smith – mais cedo ou mais tarde, uma estreia que terá de acontecer. Em “Gang Signs & Prayer” convivem duas realidades. A ala dura do grime manifesta-se na trepidante “Big For Your Boots”. “Blinded By Your Grace, PT. 2” é a costela romântica de um narrador das ruas, cientificamente avançado e de coração grande.