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Helder Macedo. “Não sou um escritor que está a tomar notas policialmente em relação ao mundo”

Helder Macedo. “Não sou um escritor que está a tomar notas policialmente em relação ao mundo”

01/04/2015 00:00
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Romancista, ensaísta, poeta, investigador e professor jubilado do King’s College, em Londres, Helder Macedo é autor de seis livros de poesia e de seis romances publicados em Portugal e no Brasil. O mais recente, “Tão Longo Amor, Tão Curta a Vida”, foi editado em 2013 e é âncora de uma conversa, na qual se falou de escrita, vida e morte, corpo e alma, futuro e país. Helder Macedo escreve como português, porque essa é a sua matriz, e para cada livro que parte o propósito é entender, unicamente.

 

Em 2013 lançou o romance “Tão Longo Amor, Tão Curta a Vida”, cujo título vai buscar a Camões. A inspiração para os seus romances vem da poesia?

Não, não necessariamente, mas a poesia é sempre o ponto de referência e, às vezes, escrito o romance, a pessoa pode encontrar correspondências. Neste caso, foi uma questão de encontrar um título que fosse simultaneamente definitivo e inconclusivo. 

Disse, em entrevistas, que escreve poesia para se entender a si e prosa para compreender os outros. Porquê ?

A poesia tem uma raiz mais subjectiva, enquanto em ficção há a tentativa de criação de seres alternativos que não sou eu. Eu muitas vezes uso-me como personagem, num romance que não é sobre mim, e estou a tornar-me a mim próprio numa personagem fictícia. Para mim, a ficção é uma prospecção da diferença e a poesia seria mais uma tentativa de entender quem sou.

Nesse sentido, a ficção também permite viver várias vidas.

Sim. Geralmente, quando escrevo uma obra de ficção começo por pensar numa pessoa e depois numa situação, acontecimentos, em que as características dessa pessoa se possam manifestar. Nenhum de nós existe de fora de um contexto de vida, de modo que é a maneira, senão de viver várias vidas, de assistir a várias vidas.

E o que é que o leitor fica a conhecer do Helder Macedo poeta e do Helder Macedo romancista?

Isso não sei [risos]. Não faço ideia nenhuma. O que tem havido é um número considerável de teses de mestrado e doutoramento, sobretudo no Brasil, mas também em Portugal, nos Estados Unidos e Inglaterra, e eu fico sempre um pouco surpreendido com estas leituras críticas e académicas que são feitas da minha obra, porque pegam de ângulos e maneiras diferentes. Por isso, em relação aos leitores também depende da subjectividade de quem lê.

Gosta de ler o que os outros escrevem sobre si, sendo que é também um crítico e um investigador?

Não. Olho com curiosidade, mas aí ponho o piloto académico a funcionar e defendo-me e protejo-me um bocado das leituras e, sobretudo, dos elogios.  É porque o elogio é feito da perspectiva deles e eu não quero elogios, quero o diálogo.

Enquanto autor dialoga com muitos géneros. É um escritor compulsivo?

Não. Sou preguiçoso, passo mais tempo a ouvir música ou a ler, mas principalmente a ouvir música, do que a escrever. Mesmo quando escrevia mais poesia do que escrevo agora, nunca fui um poeta diário. E quando escrevo um romance, é num período de vários meses, de incidência, de obsessão, inclusivamente. Depois disso fico muito aliviado de poder ficar de papo para o ar a gozar a vida [risos].

O que é que o faz começar a escrever?

Querer entender, unicamente. E daí que eu escreva em vários géneros. Na ensaística procuro entender obras de autores de quem eu gosto, na ficção os tais outros, outros mundos, e na poesia a mim próprio. E quando digo que escrevo sobre mim próprio não é bem isso, a pessoa escreve a partir de percepções próprias, mas na poesia a incidência é o eu, enquanto na ficção a incidência é o outro. 

Nas conversas em que participou, durante a última edição do Festival Literário da Madeira,  chegou a dizer que gosta de pessoas, pelo menos daquelas de quem gosta. É um observador atento dos outros?

Observo, mas não sou um espreitador. Observo porque a coisa passa por mim, tenho uma excelente memória e estou, de facto, interessado nos outros, quando me interessam. Acho que as vidas das pessoas são fascinantes. Só existimos em relação. A relação que temos com o outro é parte de nós próprios ou parte da definição de nós próprios, como tal observo. É mais uma forma de tentativa de adesão à alteridade e de desejo de conhecimento da diferença. Mas não sou minimamente um escritor ou um cidadão que está a tomar notas policialmente em relação ao mundo.

Esse seu último romance foi lançado no mesmo ano em que foi reeditado o seu ensaio “Camões, a Viagem Iniciática”. Quando olha para a viagem que tem feito como escritor o que gosta mais naquilo que vê ?

Nunca me sinto satisfeito, só um parvo ficaria satisfeito. A mim aconteceram-me muitas coisas, tenho tido uma vida com altos e baixos, mas fundamentalmente positiva. Até porque essa é muito a minha atitude. Não é a questão de me sentir satisfeito ou insatisfeito, é aquilo em que estou e não tenho outra escolha. Isto é uma questão perversa na minha idade, mas eu penso sempre que há futuro, embora saiba, e basta olhar para qualquer calendário, que ele é limitado. Penso sempre nas possibilidades de mudança, de transformação dentro da vida, o que é uma ilusão. Estou quase com 80 anos e, estatisticamente, não posso durar muito, mas procedo como se fosse um jovem.

A vida é curta. Aceita-se melhor isso com a idade ou não?

A consciência mais aguda da morte acontece quando somos adolescentes. Os grandes suicidas são adolescentes, a grande inquietação da ideia da morte vai simultaneamente com a percepção da vida, do eu, e aí, quão precário é esse eu ainda não formado. Com a passagem do tempo, não é que se pense menos, mas pensa-se de maneira diferente. Eu escrevia muito mais sobre a morte quando era novo do que agora.

No festival, falou também que o corpo é a beleza, apesar do seu carácter precário.

Sim, não há outra. Nós somos corpo. Ele vai mudando, mas não temos outra existência a não ser aquela que está na nossa fisicalidade e a mente, o que se chama alma, é físico. Quando alguém morre perde a alma, desaparece. Tive uma experiência terrível, e admirável ao mesmo tempo. Um grande amigo meu, Bartolomeu Cid dos Santos, estava a morrer. Chamaram-me, estive com ele, a segurar-lhe a mão e a falar para ele, até que ele morreu. Passados 20 minutos não era a pessoa, era a casca da pessoa, passou a ser um corpo desalmado, mas até então só havia corpo com alma lá dentro.

Passando da precariedade do corpo, para a que ouvimos falar em termos sociais, e para a ideia de recusa que levou a algumas conversas, buscar a beleza na literatura, como forma de fuga a este ambiente de crise, não pode gerar um excesso de recusa e poucas obras que registem estes tempos?

A recusa é ponto de partida, não é um objectivo em si própria. É a tentativa de encontrar uma via alternativa, diferente. A recusa cria uma nova responsabilidade que é a de encontrar qualquer coisa que é aquilo que não nos está a ser facultado, oferecido ou imposto. É uma situação transitiva, por definição. Quem se recusa e fica quieto deixa de existir, de participar, de ter opções e então é melhor que não recuse nada e vá com a maré.

Mas em relação à literatura?

Tem de haver, e inevitavelmente há. As grandes intervenções, muitas vezes, não são aquelas que parecem estar a sê-lo na altura, mas, retrospectivamente, a pessoa encontra-as. Todos nós concordamos, acho eu, que um dos maiores poetas do século XIX portugueses foi o Cesário Verde. Ninguém lhe deu atenção durante a sua vida. Os outros a quem deram atenção e que diziam ser a voz daquele tempo estão esquecidos. Isso não é apenas uma questão de repercussões, é uma questão de relevância retrospectiva. Portanto, as grandes testemunhas do nosso tempo ainda não podemos saber quem são.

Vive há muitos anos em Inglaterra, mas continua ligado ao nosso país. Para quem teve também uma intervenção política e governativa, no pós-
-25  de Abril, como é que vê o estado da nossa democracia?

Portugal, tal como outras democracias, está em perigo.

E qual é o maior perigo?

O maior perigo é a tirania financeira que estamos a ver, é a revisão das prioridades que foram positivas, e utópicas, se quiser, mas que deram resultados. Quando as pessoas dizem que Portugal tentou criar um Estado social sem ter bases económicas para o fazer, em grande parte é verdade. Não tínhamos, de facto, a riqueza, nem dinheiro suficiente, para se fazer o sistema de educação, o sistema de saúde que se tentaram fazer, a protecção laboral que se implementou. Mas agora, se nos vamos estreitar a isso…A economia não é Deus, é um instrumento, e é um instrumento que tem de ser usado até aleivosamente, até mentirosamente. Ironicamente, costumo dizer que é melhor que a emigração actual dos portugueses seja de doutores e não de analfabetos.

Porquê?

É terrível que o seja, mas é gente com formação. Criou-se, durante 30 anos, uma outra ordem, uma outra cultura. As mulheres deixaram de ser as vítimas totais que eram – embora algumas ainda continuem a ser. Há uma enorme transformação. Mas agora que me venham pôr, em nome de valores que não têm nada a ver com a qualidade das pessoas e com a qualidade de vida, sacrifícios de outra ordem, em que estão, no fundo, a destruir a possibilidade e o futuro de outros, aí insurjo-me.  Se eles são realmente especialistas financeiros e não sei quê, se são minimamente competentes arranjem outras soluções. São pagos para isso, para arranjar soluções que não sejam sacrificar os que são sempre sacrificados. Nesta crise que se está a viver, 5% ou 10% da população está até melhor do que estava. Porque é que os outros 90% hão-de ser sacrificados em nome disso? Não podemos aceitar essa norma que eles impõem como uma norma moral. Pelo contrário, é imoral.

Falta-lhes perceber, como dizia, que a definição de nós próprios parte da relação com os outros ?

Sim, em grande parte falta. E olham-se a si próprios muito narcisicamente. No fundo, para eles o mundo é um lago de Narciso. E, por outro lado, têm valores errados. Acham que ter um bilião de euros, libras ou dólares no banco é mais importante do que fazer amor, por exemplo. É gente reduzida. Se fosse caridoso, que não sou, teria pena deles.

Diz que escreve como português. O que é que isso significa exactamente?

Escrevo em português, sou português. Podia ter optado por fazê-lo em inglês, mas quando voltei para a universidade para estudar literatura portuguesa foi a opção definitiva de que é em português que eu funciono. Vivo em Londres, deixo que os ingleses organizem a minha vida, acho perfeito, mas penso em português. Nunca seria capaz de viver com alguém que não falasse português. Se tivesse tido filhos, em Inglaterra, teriam tido de falar português comigo. A minha portugalidade tem a ver com a minha infância colonial em África, com o Brasil. Mas não me sinto nem africano, nem brasileiro. Sou português e a minha portugalidade inclui tudo isso e o viver no estrangeiro mantendo-me português.

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