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O comboio irrefreável de Dino Campana

O comboio irrefreável de Dino Campana

Tomás Sottomayor 12/02/2024 17:13

“Literatura? Não sei. A minha memória, como água assim.”

– Dino Campana, Cantos Órficos.

Em poucas mortes entrevejo a ausência de deus como na de Dino Campana, que numa tentativa de fuga do hospital psiquiátrico de Castel Pulci, presumivelmente se corta no escroto no arame farpado, morrendo a 1 de Março de 1932 de septicemia. Também por isso me sinto impelido a escrever sobre a sua poesia.

Dino Campana nasce a 20 de Agosto de 1885 em Marradi, uma aldeia Toscana na vertente emiliana dos Apeninos tosco-emilianos. De Marradi Campana escreve: “A manhã sorri sobre o cimo dos montes. No alto sobre as cúspides de um triângulo desolado ilumina-se o castelo, mais alto e mais distante. Vénus passa agachada numa carroça pela estrada conventual.”

Desde muito cedo revela uma disposição nervosa, de alguma forma confirmando o posterior diagnóstico de hebefrenia (vocábulo composto pelos dois substantivos de grego antigo aqui transliterados: hébe, juventude; e phrén, mente, coração, estômago, etc.). Admitindo a tese de Aristóteles de que o coração é a sede da mente e o cérebro um órgão que serve para temperar o sangue vindo do coração, podemos dizer que o cérebro de Campana não refrigerava bem o sangue. O próprio vocábulo esquizofrenia expressa a clivagem da mente/coração. Numa carta a Manuelita Etchegarray intitulada Dualismo (o próprio título é revelador), que integra a única obra de Campana, Cantos Órficos, publicada pela primeira vez em Junho de 1914, Campana escreve: “E, no entanto, Manuelita, tendes de sabê-lo se podeis: eu não pensava, eu não pensava em vós: eu nunca pensei em vós.” Campana encerra a carta da seguinte forma: “E, no entanto, juro-vos Manuelita, eu amava-vos e amo-vos e amar-vos-ei sempre mais do que a qualquer outra mulher… dos dois mundos.” Esta disposição fragmentária e impulsiva é testemunho da indistinção paradoxal em que Campana viveu, sentiu, pensou e escreveu. A quimera campaniana parece uma expressão dessa dupla fragmentação: “(...) a eterna Quimera tinha entre as mãos encarnadas o meu coração antigo.” A própria sintaxe de Campana muitas vezes se emaranha, irresoluta, como as paisagens bravias da Romanha que ele tão habilmente representou.

Muitas vezes os elementos autobiográficos não são mais que uma mera curiosidade, uma frágil contextualização da produção artística. Este não é o caso de Campana. A sua única obra é, a meu ver, inextricável das aventuras e desventuras da sua elaboração (e reelaboração). Sim, porque a obra impressa em 1914 pela tipografia Ravagli, em Marradi, não era a primeira versão que Campana escrevera, que apenas ressurgiu em 1971 entre as cartas de Ardengo Soffici. Esta primeira versão, perdida negligentemente por entre a papelada do literato que, após a queda de Mussolini, prestou vassalagem à República de Salò, intitulava-se O Dia Mais Longo. Campana detalha este episódio a Emilio Cecchi em Março de 1916: “Chegado o Inverno fui a Florença, à Lacerba, de encontro a Papini, que conhecia de nome. Ele recebeu o meu manuscrito e devolveu-mo num café no dia seguinte e disse-me que não era tudo o que se esperava, mas que era muito, muito bom e convidou-me para ir ao giubbe rosse à noite. Eu era um pobre coitado, exausto, desanimado, vestido como um camponês, de cabelos longos, um pouco bem-falante e um pouco taciturno. Costetti tem o meu retrato de então em Florença. Isto continuou por três ou quatro dias até que Papini me pediu que lhe entregasse o manuscrito e outras coisas que eu tinha, que as publicaria na Lacerba. Mas não as publicou. Não tendo mais dinheiro, parti.” O manuscrito passou de mão em mão até ao dia em que “eles [ Soffici, Papini, Marinetti, etc.] se prostituíram no palco do serão futurista, arrecadando cinco ou seis mil liras.” Campana regressa a Marradi sem a sua única cópia do manuscrito. Após sucessivas cartas remetidas a Soffici, exasperado, refugia-se em Orticaia, nas encostas de Marradi, e reescreve o livro de memória. Esta segunda versão, reintitulada Cantos Órficos, é publicada com o apoio financeiro do seu amigo Luigi Bandini. Em Janeiro de 1914, Campana escreve a Prezzolini: “preciso de ser publicado para provar que existo.” Esta primeira edição foi um fracasso, e Campana, com a errância que lhe era característica, andou ele mesmo pelos cafés de Florença e Bolonha a vender exemplares do livro. Soffici, hipocritamente ou não, não tardaria a louvar esse livro de capa amarela que lhe parecera uma edição francesa, acrescentando que escrevera uma carta a Campana justificando o extravio do livro e elogiando os Cantos Órficos. Parece-me importante mencionar a possibilidade de que a perda do manuscrito original não tenha sido uma contingência mas antes, quem sabe, um acto consciente de Soffici e Papini, que dum modo calculista e canalha, tentaram evitar que a poesia de Campana eclipsasse a sua. “Eis inevitável sob os pórticos o enxame alado das jovens senhoras intelectuais, que ri e gorgoleja mostrando os dentes, caçando, parece, todos os inimigos da ciência e da cultura, que se vai despedaçar aos pés da cátedra. Já está na hora! vou enlamear-me no meio da estrada: a hora em que a ilustre besta de carga sobe com o seu fardo de negra ciência catalogal (...)”.

Não tenciono alongar-me em considerações biobibliográficas, até porque me propus inicialmente a escrever sobre a poesia de Campana. Contudo, recuso-me a empalhá-la como um taxidermista, que ama o animal porque este não lhe faz frente. “But our lot crawls between dry ribs/ To keep our metaphysics warm.” A poesia de Campana, tal como a sua própria vida, é uma poesia de errância e de tensão, e esta errância e tensão é duma natureza dupla. Sinto-me tentado a dizer que, se há um elemento que pode representar a sua poesia, esse elemento é a água. “Para criar a paisagem, a terra virgem que o rio no vale solitário enche do seu rumor de frescos arrepios, não basta a pintura, quer-se a água, o elemento justo, a melodia dócil da água que se estende entre as ravinas à ampla ruína do seu leito, que doce como a antiga voz dos ventos encalça em direcção aos vales em curvas régias: pois aqui ela é verdadeiramente a rainha da paisagem.” Servindo-nos da figura do centauro e da relação que Hölderlin estabelece entre este e o espírito do rio, talvez aclaremos, mesmo que apenas em parte, essa tensão entre a civilização e a selva, as margens e a corrente (que o famosíssimo poema de Brecht, Da Violência, tão bem explora). Podemos também deduzir que as margens do rio o oprimiram e sufocaram, dum modo semelhante ao que Artaud afirma ter sucedido com Van Gogh. “Queriam à força que eu fosse louco (...)”. Mas no que diz respeito à corrente, esse ímpeto vagabundo que pautou grande parte da sua vida, talvez fosse uma omissão reprovável não referir algumas das viagens que informaram a sua obra.

Em 1913 matricula-se no curso de química pura na Universidade de Bolonha, desistindo em Janeiro de 1914 para ingressar na Academia Militar de Modena. Após chumbar o exame para o posto de sargento, é dispensado do serviço e, em seguida, expulso. Desta feita, Campana transfere-se para o curso de química farmacêutica na Universidade de Florença, abandonando-o pouco depois para regressar a Bolonha. Estas duas cidades são, como veremos, lugares seus. Num dos últimos textos dos Cantos Órficos, intitulado Siroco (Bolonha), escreve: “Do outro lado de uma praça dourada de pequenos túmulos, na esteira branca da sua plumagem uma figura jovem, os olhos cinzentos, a boca de linhas rosadas ténues, passou na vastidão luminosa do céu. Empalidecia no céu enevoado a melodia dos seus passos. Havia qualquer coisa de novo, de infantil, de profundo no ar em comoção. O tijolo vermelho rejuvenescido pela chuva parecia exalar fantasmas turvos, condensados em sombras de dor virginal, que passavam no seu turvo sonho (...)”. E num poema intitulado Florença (Uffizzi): “Entre as tuas pontes multicolores/ O pressago Arno quietamente encalhado/ E em reflexos tranquilos mal se fragmenta/ Arcos severos entre o esmorecer de flores. (...)”. Após a sua primeira fuga, que se dá depois do regresso a Bolonha, e o primeiro internamento, no manicómio de Imola em Setembro de 1905, as fugas e os internamentos sucedem-se uns aos outros, até ao relacionamento frustrado com a poeta Sibilla Aleramo, que catalisa a sua doença, precipitando-o no abismo da loucura. “Tombè dans l’enfer/ Grouillant d’êtres humains (...)” A viagem a Buenos Aires e Montevideu é particularmente interessante. Ungaretti, por exemplo, negava que ela tivesse ocorrido. Campana conclui assim o texto intitulado Pampa: “Levantei-me. Sob as estrelas impassíveis, sobre a terra infinitamente deserta e misteriosa, da sua tenda o homem livre estende os braços ao céu infinito, não profanado pela sombra de Nenhum Deus.” Neste mesmo texto encontramos uma símile velada, entre a locomoção dum comboio e a vida de Campana, que me parece relevante: “E nunca, parecia-me que nunca aquele comboio deveria ter de parar: enquanto o rumor lúgubre das engrenagens comentava incompreensivelmente o meu destino.” Crê-se que Campana partiu de Génova para a América do Sul no Outono de 1907. O que ele escreveu, nomeadamente o poema com que encerra os Cantos Órficos, referente à capital da Ligúria, sempre me deixou com uma estranha impressão de que se identificava com o espírito de Génova. “Vasto, dentro dum odor ténue de alcatrão/ Esvaído, velado pelas luas/ Eléctricas, sobre o mar que mal se exalta/ O vasto porto adormece./ Ergue-se a nuvem das chaminés/ Enquanto o porto num doce crepitar/ De cordames adormece: e a força/ Dorme, dorme e embala a tristeza/ Inconsciente das coisas que serão (...)” No Outono de 1910, Campana faz a peregrinação ao Santuário de La Verna onde, segundo reza a lenda, São Francisco de Assis recebeu os estigmas a 17 de Setembro de 1224. É curioso que, de alguma forma, esta disposição espiritual de peregrino se me afigure transversal a todas as suas viagens, talvez por na sua poesia estar bem patente um olhar pagão, sincrético, animista... “O corredor onde corre o sopro gelado das cavernas reveste-se todo da lenda franciscana. O santo aparece como a sombra de Cristo que, resignada, nascida na terra do humanismo, aceita o seu destino na solidão. A sua renúncia é simples e doce: (…) da sua solidão entoa o canto com fé à natureza: Irmão Sol, Irmã Água, Irmão Lobo.”

Pouco nos interessa distinguir entre a sua poesia em prosa e a sua poesia em verso. Para Campana, como para Mallarmé antes dele, tudo (até a prosa) é poesia. “La Poésie, proche l'idée, est Musique, par excellence – ne consent pas d'infériorité.” Mais interessante será debruçarmo-nos sobre duas ou três ideias/símbolos. Digo duas ou três porque me parece dúbio que duas (ou mesmo três) destas ideias/símbolos se excluam mutuamente, mas antes, interpenetram-se, são diferenças aparentadas, semelhanças distintas, modalidades do aquém e do além: a noite, a mulher e a quimera. Seria também erróneo concluirmos que estas ideias nada têm de material, considerando-as puras abstracções. Contudo, parecem-me realmente irredutíveis, relações em aberto, espúrias, testemunhos da indistinção e do desejo. “A magia da noite, lânguida amiga do criminoso, era a intermediária das nossas almas obscuras e os seus fastígios pareciam prometer um reino misterioso.” As mulheres sucedem-se obsessivamente nos Cantos Órficos: servas, prostitutas, alcoviteiras, estudantes, sacerdotisas, deusas, quimeras, etc. Com penas no cabelo, chapéus de palha, perfis bizantinos, poses de odalisca... Muitas vezes o voyeur deambula os espaços espectrais como um sátiro, um caçador de sonhos e de quimeras. “No odor pírico da noite de festa, persistia ainda no ar um rebuliço, vi as antiquíssimas raparigas da primeira ilusão perfilarem-se (...)”. Também estas serão prostitutas. Parece-me inegável que elas são um dos problemas e tensões fulcrais da sua vida e obra. Palhaços repintados, mulheres elásticas, “(...) mulheres variegadas nas soleiras das portas (...)”. É-nos difícil não entreter a teoria de Sebastiano Vassalli, de que Campana terá contraído sífilis em 1915, tendo em conta o posterior deterioramento insanável da sua condição. “Ó Satanás, tu que as putas nocturnas metes no coração das encruzilhadas, ó tu que da sombra mostras o infame cadáver de Ofélia, ó Satanás tem piedade da minha longa miséria!” São putas, sim, mas mulheres, de que Campana fala. “Lá em baixo, as mulheres da rua, as antigas, tinham arrastado languidamente as longas vestes até ao esplendor vago da porta (...)meninas de penteados ágeis, de perfis de medalha, desapareciam de quando em quando sobre os carrinhos atrás das curvas verdes.” É como se procurasse a tensão e o conflito, porque até como sujeito e objecto simbólico do seu desejo elege as prostitutas, as meninas, os infernos... Como Orfeu, Eneias e Dante, desceu ao inferno. E não será também a noite um inferno, um limiar impossível de transpor? Como Nicolau de Cusa, no seu jogo de espelhos de místico, teólogo e filósofo, encontra o Deus oculto de Isaías no limite, no umbral intransponível, Campana colhe no poço infindável da noite uma poesia em ferida, uma música de metro convulso. “Não era então o mundo habitado por doces espectros e na noite não era o sonho despertado de novo em toda a sua força triunfal? Que ponte, mudos perguntámos, que ponte lançamos nós até ao infinito, que tudo nos parece uma sombra de eternidade?” Tudo, até o irreal e o equívoco, é fecundo, um húmus fantasmagórico, pré-verbal. Sentimo-nos tentados a concordar com a ideia de Deleuze de que o inconsciente é uma fábrica. “A longa noite cheia dos enganos das várias imagens.” Assim a noite, a mulher e a quimera, se interligam numa constelação, pelo que têm de irreconciliável, mudo, ausente... “Não sei se entre as rochas a tua face/ Pálida me aparece, ou se o sorriso/ De distâncias ignotas/ Foste (…)/ Ó Rainha ó Rainha adolescente:/ Mas pelo teu ignoto poema/ De volúpia e de dor/ Música menina exangue (…) / Mas pela cabeça virgem/ Reclinada, eu poeta nocturno/ Velei as estrelas vivas nos pélagos do céu,/ Eu pelo teu doce mistério/ Eu pelo teu taciturno devir. (…)/ E ainda por ternos céus distantes sombras luminosas correm/ E ainda te chamo te chamo Quimera.” A música quebra-se. É uma música nova. Muito se escreveu sobre a mitologização na obra de Campana, mas tudo isso me parece regurgitado para alimentar doutores depenados. O poeta maldito italiano, as fulgurações, Rimbaud, etc. etc., ad nauseam. A poesia é só um modo de arder. Al Berto, num poema intitulado Lápide, escreve: “a contínua escuridão torna-se claridade/ iridescência lume/ que incendeia o coração daquele cujo ofício/ é escrever e olhar o mundo a partir da treva/ humildemente/ foi este o trabalho que te predestinaram/ viver e morrer/ nesse simulacro de inferno (...)/ meu deus! /tinha de escolher a melhor maneira de arder/ até que de mim nada restasse senão um osso/ e meia dúzia de sílabas sujas/ calcinadas”. Porque o inferno não tem nove círculos, mas a medida de cada homem. Para Campana, que se auto-apelidava de o homem eléctrico graças à terapia de choque, a poesia foi essa descida inexorável ao sem fim do inferno. O seu poema, a sombra de Eurídice. “A cada qual sua palavra./ A cada qual a palavra que cantou para ele,/ quando a matilha o atacou pelas costas (…)”. “E o inferno é certo.”

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