30/09/2023
 
 

O fartote de asneiras não poupa setores

Sábios, os portugueses não querem mudanças imediatas por saberem que ficaria tudo na mesma.

1. As sondagens são claras. Os portugueses estão fartos da confusão, mas não querem eleições nem instabilidade. Estão cientes que apostar na mudança às vezes dá para o torto, como se vê agora. No fundo, caiu-lhes no colo o que queriam: um Presidente atento, um primeiro-ministro vigiado e uma oposição que começa a ser alternativa. Queriam também ter mais uns cobres no bolso, mas isso é só para alguns. O Estado continua a desperdiçar, a economia de peso não arranca e é o turismo, com emprego mal pago, que traz dinheiro, que exporta e que baralha o consumo interno. Só não há uma profunda recessão porque os estrangeiros gastam. Vá lá!

2. Como é óbvio já não há “silly season”. Tal como o calor, que se estende pelo ano todo, as patetices e incompetências de governo e oposições entraram num “non stop”. Como diziam os antigos, é melhor do que ir ao cinema. É um fartote de asneiras e de dislates, que não poupam setores. Não se pode dizer que haja um mais grave do que o outro, tal é a bandalheira. A incapacidade de governar é o mais preocupante porque afeta o quotidiano de todos os portugueses, pobres ou ricos, doentes ou saudáveis. A incompetência e a impreparação dos responsáveis são óbvias. A falta de preparação dos políticos vindos das “jotinhas” é total (basta ver os atuais presidentes). Não sabem. Ou melhor, sabem muito, mas só das manhas, das golpadas e dos arranjos. Os gestores do Estado não são melhores. O que se vai vendo na CPI da TAP é elucidativo. Quem se senta nos lugares não governa nem decide. Pede pareceres (normalmente à medida) a gabinetes diversos para se escudar neles. Vão longe os tempos de governos provisórios cheios de personalidades sábias e corajosas, como Palma Carlos, Nobre da Costa, Mota Pinto, Pintasilgo e, até mesmo, de gente que integrou os executivos de Vasco Gonçalves, um louco. O que se passa hoje nada tem a ver com os governos de Soares, Cavaco, Guterres ou Barroso. Depois de Sócrates tudo se degradou. Chegou a marabunta da política! Até antes do 25 de Abril a situação era outra em termos de conhecimento. Não é por acaso que também se dizia que Portugal vivia uma ditadura de catedráticos. Os melhores de hoje fogem da causa pública. Além da política que afeta todos, há um setor que tem mesmo de ser mexido, a bem de Portugal e da liberdade. É o Ministério Público. É patético ver a Procuradora-Geral a falar de falta de meios quando se vê investigação feita à base da coscuvilhice e do facilitismo das escutas que, depois, não dão em nada ou têm a ver com factos prescritos. É uma vergonha que se vomitem escutas cá para fora. E já agora pergunta-se: será que não há uma escutazinha para se mover um processo que dê cadeia a quem diariamente combina preços iguais em hipermercados, bombas de gasolina e tantos outros setores? Claro que há os reguladores que aplicam pontualmente grandes multas que eles não pagam. Enganar o freguês é prato do dia. Esses crimes económicos custam bem mais caro a todos do que um arranjo numa junta de freguesia. No dia em que o Ministério Público quiser mesmo é só pedir a um juiz de turno a respetiva autorização.

3. A semana política promete. Desde logo com a ida de Pedro Nuno Santos (PNS) à comissão de economia e mais tarde à CPI TAP/SIS. É um teste decisivo para PNS que de putativo herdeiro de Costa passou a facínora para alguns. O tempo tem mostrado que não é bem assim, apesar precipitações pontuais. Até ver, foi o único que atirou para a mesa um plano realista para resolver o triplo problema: TAP, aeroporto e “hub”. Se lhe correrem bem os próximos passos, haverá que contar com ele.

4. A banca portuguesa (que já nos custou cerca de 25 mil milhões) é reconhecidamente das mais sovinas e das mais glutonas da Europa. Sempre que tem um problema chora e o governo cede. Estava aflita por causa dos Certificados de Aforro. Pela calada da noite de sexta-feira, o governo fez o frete de milhares de milhões ao baixar os juros desses instrumentos de poupança, evitando a fuga de depósitos. Por mais volta que Medina dê ao texto, foi isso que aconteceu. Não vale a pena argumentar que é o Estado que paga esses juros. Quanto à abertura para que todos os bancos passem a vender os certificados é altamente improvável que se aplique, porque se trata de um produto concorrente aos deles.

5. Agora que estamos em seca extrema. Agora que não há hipótese de repensar transvases. Agora que os espanhóis estão indisponíveis para conversar sobre a água, o governo criou um grupo de trabalho para estudar a seca no Algarve. Possivelmente vai reunir-se em Vilamoura em agosto numa petiscada. Notável! Melhor ainda só mesmo o Metro de Lisboa. As obras custaram milhões e têm outros milhões de desvio. E afinal o traçado não é fluido para quem vem de Odivelas e do Lumiar. Barracada completa!

6. A Carris fez saber que não conhece o plano de mobilidade para as Jornadas da Juventude (JMJ). É tal a confusão que já há indicadores de que vamos ficar abaixo do milhão e meio de peregrinos esperados. Os custos, esses, derrapam! O bispo Aguiar anda a pedir desculpa por erros cometidos e, por antecipação, ao que vem a seguir. A propósito, diga-se que é aceitável certas organizações exibirem reivindicações antes da JMJ. Mas fazer greves ou boicotes é criminoso e indesculpável.

7. Na Direção-Geral de Saúde reina a desorganização. Dois subdiretores gerais demitiram-se em pouco tempo, o que obrigou Graça Freitas a voltar à pressa de férias e manter-se nas funções das quais queria reformar-se desde o princípio do ano. O concurso está aberto há seis meses. No terreno faltam vacinas para crianças, além da do tétano e anticoncecionais. O ministro ri e diz que está tudo bem!

8. A presidência da NAV, a empresa de navegarão aérea que zela pela segurança do nosso espaço, continua sem presidente desde a saída de Alexandra Reis. Mais uma galambice!

9. A Efacec apresentou um prejuízo de 310 milhões em 2022. É a desastrosa pegada na economia de Siza Vieira que teimou em nacionalizar a empresa quando era o número dois de António Costa. Qualquer dia custa mais do que a TAP. Com a diferença que não traz muitos milhões de retorno.

10. Num estranho concurso cheio de manhas, o Governo mandou comprar equipamentos multimédia para apoio ao seu gabinete de propaganda e contrainformação. Os brinquedos custaram vários milhares. Serão operados pelos 23 contratados que tratam da imagem do governo. Sem qualquer sucesso, como se tem visto.

11. O eurodeputado Álvaro Amaro vai renunciar ao cargo no dia 6 de julho, horas depois de terminar todas as tarefas complexas de que estava encarregado. Amaro é o único português coordenador de um intergrupo (sobre Biodiversidade e Caça). Portugal perde um deputado elogiado pelo combate à desertificação do interior e que integra a Comissão da Agricultura e do Desenvolvimento Rural. A renúncia foi decidida na sequência de uma estranha condenação a três anos e meio de cadeia com pena suspensa. Isto por supostos atos cometidos no exercício de funções autárquicas em Gouveia, há mais de 12 anos. Amaro declara-se inocente e recorreu. Entende que não deve ficar no PE para não prejudicar o seu PSD. Poderia, legitimamente, alongar a sua permanência até ao início da próxima sessão, mas não o fez.

12. Dois anos depois de ter sido relançado e de se afirmar em grande, o Tal&Qual tem novo diretor. Trata-se de Bruno Horta, um jornalista jovem e dinâmico. José Paulo Fafe deixa as funções de administrador para outros projetos. Jorge Morais prescinde da direção e continua a colaborar. Fundado num tempo sem redes sociais e onde o institucionalismo era total, o T&Q foi um marco e trazia o que ninguém publicava. Agora também!

13. Há dias a rádio Observador arrancou a manhã pondo em grande destaque a existência de um grupo de ativistas e supostos ambientalistas que se dedica a esvaziar os pneus de carros ditos SUV que considera sorvedouros de gasolina. O alarido foi de tal ordem que outros retomaram a notícia. Os extremistas agradecem a publicidade! Até ali, não tinha havido sequer uma queixa na PSP. É o chamado efeito perverso.

14.  Boaventura Sousa Santos aceitou que teve comportamentos de assédio (que chama docemente inapropriados) com mulheres, designadamente alunas. Mas rejeita ter cometido atos graves, o que é extraordinário. O suposto cientista justificou-se dizendo que fez o que fazia quem nasceu nos anos 40. Os extremos tocam-se. Trump é da mesma década e usa um argumentário parecido. Só um tolo é que não percebe que o falso arrependimento de Boaventura é para lhe permitir manter o controlo do CES que custa milhões para proclamar doutrinas sectárias.

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