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O que aconteceu à Apple de Steve Jobs?

O que aconteceu à Apple de Steve Jobs?

Lucas J. Botelho 23/02/2023 15:22

Em 2018 a Apple tornou-se a primeira empresa no mundo a atingir um valor de mercado de um ‘trilião’ de dólares, no entanto muitos relembram o que a marca costumava representar.

No início de outubro de 2011, com a morte de Steve Jobs, muitos questionaram-se para onde iria a Apple, a empresa que Jobs liderou de forma ímpar. Prosseguiria o seu trajeto triunfante? Iria definhar ou perder qualidade? Estaria Tim Cook, o novo CEO, à altura de suceder a uma figura tão carismática?

Sinónimo de audácia, inovação e elegância, a icónica empresa fundada a 1 de abril de 1976 em Los Altos, Califórnia, marcou a história com produtos inovadores como o Macintosh, o iPod e o iPhone 3. Entretanto, na última década «sofreu uma alteração profunda na sua filosofia», comenta Joaquim Jorge, professor catedrático da área científica de Interação e Gráficos do Instituto Superior Técnico. «A Apple no passado era uma empresa de inovação de hardware e atualmente o seu enfoque é a proteção da cadeia de valor».

Com a liderança de Tim Cook, sublinha Joaquim Jorge, investiu-se numa campanha de expansão da cadeia lojista e procurou-se uma maximização dos lucros, através de «plataformas como a app store que geraram lucros avultados anualmente» com ganhos provenientes «principalmente das subscrições e compras de Apps em que a Apple fica com a parte de Leão (70%+)». A lógica assentou na proteção de três elementos: «o software, a cadeia de lojas e as plataformas online, tais como, o itunes, a app store e a apple music, que asseguraram a estabilidade da empresa».

Não é que a Apple estivesse desinteressada na faturação – simplesmente esse não era o seu único, ou sequer o principal, enfoque. Jobs considerava determinantes as experiências e as sensações que os produtos iriam proporcionar aos seus utilizadores. Aspetos como a inovação tecnológica e o design eram considerados a chave para o sucesso.

 

Primeiros passos e impacto na sociedade

O lançamento do Macintosh em 1984 alterou de forma radical a maneira como passámos a olhar para os computadores.

Foi o primeiro “PC” ao alcance de todos. Não que fosse um produto acessível, muito pelo contrário, mas era um “bem de consumo” – nada menos do que o primeiro computador comercializado no setor com características e funcionalidades acessíveis à maioria da população. As suas características user friendly transformaram-no num sucesso.

Com um preço de venda ao público de 2500 euros, tinha um valor especialmente elevado se tivermos em conta a inflação desde a década de 1980 até à data – o Macintosh fugiu muito do que era desejado pela equipa original que o desenhou e fez com que não fosse um produto destinado a professores, alunos e às atividades do quotidiano da maior parte das famílias, conforme foi publicitado. Contudo, a questão em causa não era esta, o objetivo era abrir as portas para uma nova era tecnológica e não ia ser um obstáculo financeiro que ia impedir o desenvolvimento dos projetos inovadores de Steve Jobs.

Bill Atkinson, um engenheiro de computação que trabalhou para a Apple entre 1978 a 1990, chegou a referir: «Não estávamos a fazê-lo de um ponto de vista empresarial».

Outro dos principais membros da equipa original do Macintosh, Andy Hertzfeld, considera: «Na atualidade é obvio que os computadores fazem parte do dia a dia das pessoas e o Macintosh foi o ponto de viragem para esta tecnologia».

Da forma como os ex-engenheiros de computação e antigos trabalhadores da Apple falam de Steve Jobs, não parece haver dúvidas quanto ao peso que teve, não só como um visionário, mas também como um elemento criativo fulcral nos novos produtos da empresa – que acabaram por cativar todo o tipo de faixas etárias.

Mesmo em períodos de maior dificuldade, Steve manteve-se fiel às suas convicções. Ao ser afastado da administração da Apple, fundou a NeXT Computer Company que nunca se revelou um êxito comercial, mas concebeu tecnologia pioneira no setor. A partir dos modelos da NeXT, foi criada a World Wide Web (WWW) que permitiu a análise de documentos na forma de vídeos, sons, hipertextos e imagens, tal como a capacidade de descarregar páginas de web, através de um software chamado ‘navegador’ (como o Google Chrome, Mozilla Firefox, Internet Explorer…). Por outras palavras, os computadores da NeXT deram um contributo decisivo para o que conhecemos como a Internet na era moderna. E como se não bastasse, a própria Apple acabou por ficar em dívida para com a NeXT, visto que o seu software serviu de base para o sistema operativo que a Apple utiliza até hoje (o ios).

 

A revolução do iPod 

Na altura do regresso de Jobs, a Apple estava a precisar de uma oferta diferente que reanimasse a empresa no mercado. Jobs teve a resposta indicada – o iPod.

Era algo à frente do seu tempo e que inicialmente não foi compreendido inteiramente pelos consumidores. Afinal de contas era um MP3 e a Apple era conhecida como fabricante de computadores.

O que as pessoas não imaginavam era que Jon Rubinstein, um dos membros da equipa executiva, tinha descoberto um pequeno disco rígido da Toshiba com 5 gigabytes (GB) de memória. Quando Steve Jobs entrou no campus da Apple, a 23 de outubro de 2001, para apresentar o iPod ao mundo, pôde mostrar um dispositivo portátil e de utilização fácil, que conseguia descarregar 1000 músicas e funcionar durante 10 horas sem ser carregado (valores extraordinários para a época).

Para termos uma comparação, em 1999 a ´The Remote Solutions Personal Jukebox` quebrou o recorde de armazenamento com o lançamento de um MP3 com 4,8GB – mas, ao contrário do iPod, a Personal Jukebox tinha o disco rígido de um computador, o que implicou dimensões que não eram práticas para o quotidiano e naturalmente pouco atrativas para o público-alvo. Acresce que esta tecnologia de armazenamento era muito cara e quando a Personal Jukebox foi lançada no Las Vegas Comdex, em novembro de 1999, as licitações chegaram a uns alucinantes 1000 euros.

Inicialmente o Ipod também teve um preço elevado, ligeiramente inferior a 400 euros.

O que realmente colocou o dispositivo no mercado foi a Apple tornar o aparelho compatível com o Windows na sua segunda geração. Assim, tornou-se possível a sincronização do computador Windows com o iPod, e um ano depois, a Apple introduziu o iTunes na ‘Windows Experience’. Com isto abriu-se toda uma nova clientela da Microsoft que começou a adquirir produtos da Apple. Com o sucesso do iPod, a empresa decidiu convertê-lo num acessório mais acessível e com maior alcance, e em 2005 lançou o iPod Shuffle, que podia ser adquirido por cerca de 100 euros e que contribuiu fortemente para a popularização mundial do produto.

A obsessão de Jobs com a satisfação do cliente não conhecia limites. Tony Fadell (um ex-executivo da Apple que esteve ligado à criação do iPod e do iPhone de 2001 a 2009) contou numa entrevista ao New York Times, um episódio na evolução do projeto do iPhone, em que se ponderou fazer o ecrã tátil do smartphone a partir de plástico, visto que seria menos frágil do que o vidro e teria um método produção mais fácil. Segundo Fadell, Jobs contrariou esta posição pelo facto de o plástico ter como desvantagem riscar-se rapidamente, e que os utilizadores iam ver isto como um defeito de fabrico. «Apesar de todos os factos e a lógica indicarem que devíamos optar pelo plástico, seguimos o instinto de Steve, e tomámos a decisão oposta», revelou Fadell.

 

O legado de Jobs

Mais de uma década depois da morte do guru da tecnologia, o que resta do seu percurso? Joaquim Jorge recorda um dos traços mais conhecidos de Jobs: o caráter difícil, por vezes irascível. E fala mesmo de um «nazismo industrial» na conceção dos produtos da Apple, «especialmente a nível estético» e da sua capacidade de aproveitamento de pesquisas groundbreaking conduzidas no passado, salientando que «as ideias que serviram de base à interface do iPhone vinham de investigação produzida nos anos 80» tal como «a interface gráfica dos Macs que se baseou em ideias pioneiras, 25 anos anteriores à criação do produto».

A nível de inovação o professor catedrático conclui que «basta observar como simples característica que o iPhone original tinha um único botão, ao contrário da concorrência da Nokia – um dos principais competidores da época, que ainda dispunha do teclado tradicional com dezenas de teclas». Isso foi em junho de 2007. Hoje praticamente todos os smartphones, independentemente da marca, são, de uma forma ou de outra, ‘filhos do primeiro iPhone’, exibindo características e desempenhos semelhantes, mas a um preço inferior.

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