Mudança da hora faz mal à saúde

Mudança da hora faz mal à saúde


Uns concordam, outros discordam e há quem lhe seja indiferente. No entanto, a mudança da hora tem impacto no organismo humano, como atestam os professores Conceição Calhau, Isabel Azevedo e Jaime Branco.


É já neste domingo que a hora volta a mudar, com o ponteiro dos relógios a recuar das duas para a uma da manhã, e o tema dos horários de inverno e de verão continua a suscitar muita controvérsia. Se, por um lado, há quem concorde com a mudança da hora, a verdade é que não falta quem discorde frontalmente, sobrando obvimanete aqueles que o encaram com indiferença. No entanto, nos últimos dias, surgiram variadas notícias sobre peritos internacionais insurgindo-se contra esta regra e insistindo que, na madrugada de domingo, a hora não deveria mudar do regime de verão para o regime de inverno. Ou seja, os relógios não deveriam atrasar uma hora.

Na prática, em Portugal continental e na Região Autónoma da Madeira, às 2h horas da manhã não atrasaríamos o relógio em 60 minutos, passando para a 1h hora da manhã, e na Região Autónoma dos Açores a mudança também não seria feita à 1h hora da madrugada de domingo passando para a meia-noite do mesmo dia.

Há exatamente quatro anos, no final de outubro de 2018, Portugal avisou a União Europeia de que queria manter a mudança da hora. A proposta foi feita em agosto daquele ano pela Comissão Europeia, mas o Governo português discordou e quis manter as coisas como estavam. Cada país teve de se pronunciar até abril do ano seguinte. De acordo com uma sondagem feita pela Aximage, à época, para o CM, a maioria dos portugueses eram contra a mudança da hora (60,7%). Já segundo a consulta pública realizada pela Comissão Europeia (CE) – que teve 4,6 milhões de contributos – concluiu-se que 84% dos europeus defenderam uma posição idêntica. Inclusivamente, em agosto de 2018, neste âmbito, o jornal i recordou que desde 2001 que os países da União Europeia (UE) ficaram obrigados a mudar a hora legal duas vezes por ano. Portanto, a primeira no último domingo de março e a segunda no último domingo de outubro. O ano dos europeus ficou, assim, dividido entre um horário de verão e um horário de inverno, o dito ‘normal’.

Os motivos para a criação do horário de verão, que foi implementado progressivamente pelos diversos Estados-membros no século passado, incluem a poupança de energia, a redução de probabilidade de acidentes automóveis e o melhor aproveitamento do tempo livre, decorrentes do maior número de horas de luz natural diárias. Porém, alguns Estados-membros, eurodeputados e cidadãos europeus pedem mesmo o abandono definitivo da mudança da hora, sendo que os defensores desta proposta argumentam que os benefícios apontados para o regime atual são sobrevalorizados e que a mudança de hora gera efeitos prejudiciais aos hábitos de sono.

A verdade é que, em 2018, alguns Estados-membros abordaram a questão da hora de verão em ofícios dirigidos à Comissão. A título de exemplo, a Finlândia solicitou o fim da mudança semestral de hora e a Lituânia apelou a que fosse realizada uma revisão do sistema atual, com o objetivo de ter em conta diferenças regionais e geográficas. Entre tantas opiniões díspares e interrogações, a Comissão Europeia abriu uma consulta pública, até 16 de agosto daquele ano, para saber se os europeus concordavam ou não com a existência de um horário de verão.

As respostas foram dadas online e mantinha-se o horário de verão ou podia escolher-se o horário a seguir. Se ganhasse o ‘não’, o Parlamento Europeu salientava que se devia manter um ‘regime [horário] unificado europeu’, para promover o comércio e proteger o mercado único.

 

O que devemos ter em conta?

No livro Saúde e Estilos de Vida, coordenado pela professora Conceição Calhau e pelo professor Jaime Branco, ambos docentes da NOVA Medical School, num texto escrito por Isabel Azevedo, professora aposentada da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, podemos compreender o impacto que a mudança da hora pode ter no nosso organismo, sendo que esta discussão tem sido maioritariamente dominada pelas áreas da Cardiologia e da Neurologia. «A cronobiologia é a ciência que estuda os fenómenos biológicos que ocorrem com uma determinada periodicidade (ritmos biológicos), fundamentalmente em relação com os movimentos dos astros mais importantes para a vida na Terra (mo- vimentos da Terra e da Lua em relação ao Sol, e da Lua em relação à Terra). Chama-se-lhe cronobiologia (crono refere-se a tempo) porque os movimentos referidos da Terra e da Lua constituem marcos para a contagem que fazemos do tempo – dias, meses, anos», começa por explicar a investigadora, deixando claro que, «para além deste tempo volvente, dos ritmos, que significam repetição de atividade ao fim de um determinado período de tempo, há uma relação muito direta dos seres vivos com o tempo linear: sabemos o ano em que nascemos, sabemos que há um limite de tempo para a nossa duração. Na realidade, os nossos próprios organismos são marcadores de tempo». «Praticamente todos os aspetos da nossa vida apresentam ritmos circadianos (ritmos com períodos de cerca de 24 horas), governados pelos relógios endógenos, por agentes ambientais (flutuações na luminosidade, na temperatura, na alimentação), e pelas interações entre eles», avança a profissional de saúde. «Toda a gente conhece alguns deles, por exemplo os comportamentais: as pessoas levantam-se da cama, em geral, uma vez por dia, aproximadamente à mesma hora; deitam-se, também, uma vez por dia, aproximadamente à mesma hora; tomam a primeira refeição do dia aproximadamente à mesma hora; etc., toda a gente pode aumentar esta lista de atos que repete diariamente», esclareceu na obra e lembra ao Nascer do SOL juntamente com Conceição Calhau. «Tudo o que se passa no nosso organismo de forma menos visível, como a temperatura, a síntese e a libertação de hormonas, a concentração de metabolitos, a síntese de proteínas, e a ativação de genes, entre outros aspetos, apresenta, igualmente, ritmos circadianos, com um momento de ativação/concentração máximas e outro momento de ativação/concentração mínimas ao longo das 24 horas».

«A expressão de muitos genes apresenta a ocorrência de ritmos ultradianos (períodos inferiores a 24 horas), observando-se, para muitos desses, períodos de cerca de 12 horas, na maior parte dos casos com o máximo de atividade concentrado nas horas do nascer e do pôr do Sol», elucidam, acrescentando que, «como em relação a qualquer outra característica, as pessoas diferem entre si quanto à forma como se comportam em função do tempo (cronotipo)», sendo que «essa diferença quanto ao cronotipo, inicialmente estudada e habitualmente referida às horas em que as pessoas dormem – notívagos (os que se deitam tarde) e madrugadores (os que se levantam cedo) – pode, segundo a investigação mais recente, existir também para diferentes funções na mesma pessoa».

«Isto é, tal como há um cronotipo quanto à preferência de horas para deitar e levantar, podemos identificar outros cronotipos, independentes daquele, para as horas metabólicas (o que tam- bém influenciará as horas em que as pessoas gostam de comer), horas de maior apetência para a atividade física, etc.», adiantam, avançando que «podem coexistir diferentes cronotipos na mesma pessoa, o que indica a conveniência de não se generalizar indicações pormenorizadas quanto a comportamentos mais saudáveis em função do tempo». Tal significa que «cada pessoa poderá encontrar o calendário mais adequado ao seu cronotipo para cada tipo de atividade (hora de deitar, levantar, comer, praticar exercício físico, etc.)» e «haverá, para todos os casos, vantagem em praticar cada atividade ou comporta- mento aproximadamente às mesmas horas, dia a dia, o que reforçará o acerto dos relógios biológicos nos órgãos ou tecidos envolvidos nessas funções, por um lado, e permitirá melhor prestação decorrente das condições ótimas dessas horas para o exercício dessas mesmas funções, por outro».

Concluindo, «comportamentos que desrespeitem os ritmos circadianos, principalmente no que respeita ao sono e à ingestão alimentar, causam sobrecarga e stress ao organismo» e «da sua repetição frequente poderão resultar danos sérios à saúde», como frisam os investigadores.