26/09/2022
 
 

Fernando Chalana e Marcel Matz

No meio de toda esta excentricidade que tornou o futebol, num negócio que absorve todas as atenções e vai captando interesses muitas vezes obscuros, onde gente sem nível e sem valores vai-se intrometendo para conseguir o seu quinhão de fama e dinheiro, lá vão surgindo alguns espasmos diferenciados, que nos puxam de volta para a cultura desportiva do antigamente, pelo amor à camisola e pela forma de estar.

Aquilo que é o poder e a força do futebol, nos dia que correm, sobrepõe-se largas vezes àquele que deveria ser o principio de tudo. A prática do desporto, o respeito por todas as modalidades, pelos companheiros, adversários e treinadores. O suor e a luta que representam, a competição e a bravura que nos projeta para além das nossas forças e nos impele a dar um pouco mais quando nunca achámos que conseguiríamos tanto. Essa é a essência, competir para ganhar mas ensinar desde cedo os mais jovens que ganhar e perder fazem parte da vida, umas vezes ganha-se e outras perde-se. Ninguém ganha para sempre e também não existe alguém que se conheça que tenha para sempre perdido. Para isso têm que existir valores em quem ensina, quem treina e quem lidera. Desde cedo, de base como se costuma dizer. É no desporto escolar mas também em casa onde vamos copiando os instintos fanáticos de algum familiar ou amigo mais velho.

No meio de toda esta excentricidade que tornou o futebol, num negócio que absorve todas as atenções e vai captando interesses muitas vezes obscuros, onde gente sem nível e sem valores vai-se intrometendo para conseguir o seu quinhão de fama e dinheiro, lá vão surgindo alguns espasmos diferenciados, que nos puxam de volta para a cultura desportiva do antigamente, pelo amor à camisola e pela forma de estar. Às vezes é de fora que nos chega o exemplo, outras vem mesmo cá de dentro. Esta semana partiu Fernando Chalana, um jogador que pela sua correção, pelo respeito que sempre demonstrou pelo jogo e pelos seus adversários e a humildade que nunca o colocou em bicos de pés coloca-o agora paradoxalmente numa homenagem que não se extinguiu no seu clube mas percorreu o país de norte a sul. Este deve ser um exemplo que devemos cultivar nos mais novos, ao ponto de desenvolver neles visões que passem para lá do querer ganhar a todo o custo e que se possam agarrar mais à alegria e ao quanto é saudável a prática de desporto.

Mas Fernando Chalana não é o único. No Benfica vai emergindo um nome, para espanto de muita gente, que vai galvanizando os mais jovens nas redes sociais e deixando perplexos os que o seguem mais atentamente. Chama-se Marcel Matz e é o treinador de voleibol do clube. Podia ser mais um dos muitos que chegam de fora todos os anos, até podia cingir-se ao seu desporto e no fim do treino arrumar o seu saco e ir para casa, mas não. É vê-lo a puxar na bancada em cada modalidade seja futebol, hóquei ou andebol, a entregar cultura desportiva e ensinamentos para os mais jovens em cada post das redes sociais, a incentivar a equipa sem nunca ter a necessidade nem cair no erro de pisar os outros ou de entrar em polémicas.

Sim é brasileiro e por estranho que pareça veio mostrar a muitos o que pode ser a construção de um amor pelo clube que se representa ao mesmo tempo que se educa para os comportamentos corretos, que nos veio mostrar que competir para ganhar pode e deve andar de braço dado com o respeito pelos adversários e que os mesmos não são inimigos mas tão só alguém como nós que está a defender uma camisola diferente. O técnico de voleibol é cada vez mais uma das figuras de proa da mística benfiquista e a sua imagem é cada vez mais seguida pelos milhões de adeptos do clube. Está a tornar-se, sem querer num símbolo, o que, para quem vem de um desporto que não seja o futebol é sem duvida impactante e bem revelador da personagem em causa. Fica a minha homenagem a ambos, ao pequeno grande Chalana, que nos encantou dentro e fora do campo e a Marcel Matz que nos vai dando aulas do que é saber estar dentro e fora da quadra.

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