12/08/2022
 
 
Três irmãs para Lucky Luke

Três irmãs para Lucky Luke

Ricardo António Alves 01/08/2022 22:16

De Calamity Jane à Mamã Dalton, passando pelas coristas de saloon, as mulheres de Morris nas histórias de Lucky Luke eram uns estafermos, caricaturas, no que não veio mal nenhum ao mundo 

Narrativa de espaço e travessia, Procura-se Lucky Luke, o segundo trabalho de Mathieu Bonhomme (Paris, 1973) sobre a personagem de Morris, remete-nos para as áreas agrestes das Rocky Mountains, um perímetro clássico do western. Três jovens e belas irmãs, recentemente órfãs, viram os seus bens reduzidos a umas quantas cabeças de gado, que tentarão vender na cidade de Liberty, do outro lado do deserto, em território apache. São, no entanto, beldades que vestem calças, experientes na sela e no manejo de armas, não recusando, porém, o auxílio oferecido por Lucky Luke, após uma intervenção decisiva deste, livrando-as de um cerco índio. Para mais, as três irmãs sentem-se atraídas pela circunspeção viril deste cowboy solitário, apesar de, para surpresa dos leitores, por esse Oeste além correrem cartazes oferecendo a recompensa de 50 mil dólares pela captura do nosso herói, deixando-o menos à vontade do que o costume, num mundo em que existem caçadores de prémios. Particularmente embaraçoso é a circunstância de, no retrato que o identifica, Luke surgir com uma florinha na boca, em vez da tradicional palhinha, que faz as vezes do cigarro, banido já há uns bons anos. Embora Lucky Luke não ligue muito às manifestações do que hoje parece ser designado por masculinidade tóxica, o cigarro, ou a falta dele, será uma das provas por que terá de passar – o fustigar dessa tentação perniciosa para a saúde, sendo a outra a da fidelidade ao ethos do cowboy solitário casado com a liberdade e a aventura, quando três mulheraços tentam ainda mais e queimam mais velozmente que um cilindro de nicotina entre dentes.

De Calamity Jane à Mamã Dalton, passando pelas coristas de saloon, as mulheres de Morris nas histórias de Lucky Luke eram uns estafermos, ou quando muito caricaturas, no que não veio mal nenhum ao mundo, uma vez que a própria série era uma paródia ao Oeste selvagem. Houve, porém, um período relativamente breve, entre as primícias do cowboy que disparava mais rápido que a própria sombra, a partir de 1946, ainda muito disneyesco e o seu apogeu, com os argumentos de Goscinny – esses sim, completamente paródicos –, em que pelo meio do humor se infiltrava um Lucky Luke mais sério, semi-realista, com um tom mais negro, em que por vezes a morte violenta surgia. É esse o Lucky Luke recriado por Mathieu Bonhomme, o de Fora da Lei (1952) ou Lucky Luke e Phil Defer (1954). Com a aparição de outras personagens da série Patronimo, o chefe apache, em homenagem ao grande Geronimo, o inesquecível coronel do 20.º de Cavalaria, o filho de Phil Defer e Joss Jamon, chefe de bando, em que um dos sicários – particularmente mal tratado nesta história – é a caricatura de Goscinny... Resta dizer que as mulheres de Mathieu ganham aos pontos às de Morris.

Não sendo já a surpresa que foi O Homem que Matou Lucky Luke, o primeiro livro de Bonhomme, Procura-se Lucky Luke é muito recomendável, e não apenas aos incondicionais da série. Jolly Jumper continua remetido à condição de montada, como o foi na origem. 

BDTECA

ABCEDÁRIO

W, de Wolverine (Leo Wein, Roy Thomas, John Romita e Herb Trimpe, 1974). Rebelde e com vícios q.b., Wolverine é um anti-herói da Marvel, mutante canadiano de origens obscuras, cujos ossos são revestidos de adamantium (metal fictício indestrutível), dotado também de garras retráteis. A sua aspereza permanente combinada com um sarcasmo corrosivo, a estatura baixa compensada pela massa muscular que reveste o esqueleto adamantino, uma aprendizagem do código samurai, no Japão, em que sentido de honra e violência se misturam, fizeram dele um dos mais carismáticos super-heróis dos comics.

LIVROS

La Jeunesse de Thorgal 10. Sidönya, por Yann e Roman Surzhenko. Série paralela às aventuras canónicas de Thorgal, não lhe fica nada a dever. Os mitos e lendas víquingues, conspirações palacianas, golpes sanguinários, a mostrar que algo estava mesmo podre no reino da Dinamarca, depois da morte de Harald Dente Azul, no século X. De ler e aspirar por mais (edição Le Lombard, Bruxelas, 2022).
 
Snaergard, por Vincent Wagner. E por falar em víquingues, Snaergard conta-nos da Noruega do Século XIII, quando o cristianismo se implanta (a Escandinávia foi a última região europeia a resistir à penetração dos missionários, massacrados uns atrás dos outros) e os costumes, crenças ancestrais destes povos guerreiros se faziam ainda sentir. 

 

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