19/08/2022
 
 
Aborto. Republicanos acusados de obrigar mulheres a interromper gravidez

Aborto. Republicanos acusados de obrigar mulheres a interromper gravidez

AFP Maria Moreira Rato 28/06/2022 16:20

Hoje dizem ser pró-vida, mas atualmente e/ou no passado pagaram por abortos de namoradas ou parceiras.
Saiba quem são os republicanos favoráveis à interrupção da gravidez somente quando esta lhes diz respeito.

No dia em que os estados do Alabama, Arkansas, Kentucky, Louisiana, Missouri, Ohio, Oklahoma, Dakota do Sul, Utah e Wisconsin puseram fim ao direito à interrupção da gravidez, alinhando-se com a maioria conservadora do Supremo Tribunal dos Estados Unidos que reverteu este direito constitucional - sendo que o Missouri foi o primeiro, o Louisiana o segundo e os restantes tomaram a mesma decisão nas horas seguintes –, as redes sociais começaram a inundar-se de relatos de mulheres que terão sido obrigadas a abortar ou terão testemunhado a imposição deste ato a outras por membros do partido republicano.

Comecemos por um caso conhecido, o de Donald Trump: em 2003, no Howard Stern Show, Trump aludiu a um incidente com uma namorada que engravidara, talvez Marla Maples, que deu à luz a sua filha Tiffany dois meses antes de Maples e Trump se casarem em 1993. “Eu disse: ‘Bem, o que vamos fazer sobre isso?’”, esclareceu, deixando no ar a hipótese de ter considerado o aborto da companheira.

No início de 2016, em entrevista à jornalista Maureen Dowd, do New York Times, quando foi questionado acerca da eventualidade de se ter “envolvido com alguém que fez um aborto”, o antigo dirigente fintou a questão. “Uma pergunta tão interessante... Então, qual é a sua próxima pergunta?”, atirou, levando a que muitos membros de outros órgãos de informação reagissem ao sucedido.

“Se uma eleitora aceitar as décadas de suposto sexo extraconjugal casual de Trump, ela não deverá surpreender-se com o facto de que ele possa ter, de alguma forma, participado no aborto de uma parceira”, escreveu Christina Cauterucci, da revista Slate, após a publicação da entrevista de Dowd. Curiosamente, este alegado posicionamento de Trump não vai ao encontro das declarações que proferiu na passada sexta-feira.

“Estamos a seguir a Constituição e da dar, de volta, direitos que deviam ter sido dados há muito tempo”, disse, numa reação à decisão do Supremo Tribunal dos EUA, à Fox News, referindo-se ao poder de decisão de cada estado, tendo em conta que a revogação da lei do aborto opõe-se a um acórdão de 1973, decisão do caso “Roe vs Wade” que consagra do direito da mulher ao aborto em todos os estados daquele país. Quando lhe perguntaram se sente que desempenhou um papel de relevo neste processo, pois indicou três juizes conservadores para o Supremo Tribunal durante o seu mandato, Trump destacou que foi “uma decisão de Deus”.

Porém, nas mesmas declarações, deixou claro: “A decisão de hoje, que é a maior vitória desta geração a favor da vida, só foi possível porque fiz tudo como tinha prometido, incluindo nomear três constitucionalistas altamente respeitados no Supremo Tribunal dos EUA”, apontou o 45.º Presidente dos EUA, rematando que “foi uma grande honra tê-lo feito”. Além de Trump, quem está debaixo de fogo é Ivanka, a sua filha de 40 anos, que foi acusada por Lauren Santo Domingo, sua ex-colega e atual empresária, de ter recorrido ao aborto.

“Ivanka Trump, estás visivelmente calada hoje”, publicou no Twitter, no sábado, Santo Domingo. “Os amigos do ensino secundário que te levaram a fazer um aborto não estão”. Ainda que a mensagem tenha sido eliminada daquela rede social, foi lida rapidamente e tem sido partilhada ininterruptamente. Importa recordar que, há dois anos, em entrevista à RealClearPolitics, Ivanka afirmou ser pró-vida “sem remorsos”.

“Respeito todos os lados de uma discussão muito pessoal e sensível”, disse ao canal quando questionada sobre o assunto. “Mas também sou mãe de três filhos, e a maternidade afetou-me profundamente em termos de como penso sobre essas coisas”. Na mesma entrevista, a filha de Donald Trump admitiu identificar-se como “Trump-Republicana”, observando que, embora acredite que muitos rótulos políticos “são realmente limitados em termos de como nos definimos”, não os rejeita.

Tanto celebridades como “cidadãos-comuns” não permitiram que o passado de Trump e da família fosse esquecido. “A vida não é a preto e branco, mas está num sistema bipartidário”, começou por escrever, no Instagram, Jack White, antigo guitarrista e vocalista dos White Stripes. “Isso permite a um dos partidos promover um ‘político’ com zero experiência no governo e que só se preocupa com o seu próprio ego”, redigiu.

Na ótica de White, Trump consolidou a sua carreira política “à custa dos cristãos”, criticando também o Partido Democrata “por não ter uma maioria que impedisse esta pessoa de destruir todos os progressos que alcançámos neste país”. “Fizeste o país recuar 50 anos”, denunciou. “Espero que o teu pai esteja a sorrir-te e a acenar do céu, enquanto na outra mão esconde todos os abortos pelos quais pagaste em segredo”.

 

Uma opinião na juventude, outra na vida adulta?

E quem rodeia esta família parece seguir-lhe as pisadas quase religiosamente. Em agosto de 2018, o site The Cut narrava que Scott Lloyd, então chefe do Office of Refugee Resettlement – que trata do acolhimento de refugiados –, hoje com 42 anos, trabalhava para evitar que várias adolescentes indocumentadas, sob os seus cuidados, fizessem abortos, chegando ao ponto de (sem sucesso) tentar obrigar uma rapariga de 17 anos detida a “reverter” o seu procedimento depois de esta ter tomado a primeira das duas pílulas necessárias para um aborto medicinal. Contudo, naquela época, um documento obtido pela revista Mother Jones provava que, na sua juventude, Lloyd levara uma das ex-namoradas a fazer um aborto e pagara metade do valor do procedimento.

No artigo, um ensaio de seis páginas que Lloyd escreveu durante o seu primeiro ano na faculdade de direito da Universidade Católica da América, em 2004, é possível ler que esta experiência conduziu a que se opusesse ao aborto ainda mais fervorosamente, mesmo em casos de abuso sexual, incesto e quando a vida da progenitora se encontra em risco. Ele descreveu a “semana sem dormir” que passou quando soube que a parceira estava grávida, como orou e leu a Bíblia e conversou com amigos, e como, quando finalmente chegou o dia, foi com a jovem até à clínica, discutindo com esta no decorrer da viagem inteira.

De acordo com a Mother Jones, que recebeu o documento de um dos ex-colegas de Lloyd, ele escreveu que a então namorada pediu que ele pagasse metade do procedimento e que ele concordou com relutância: “No caminho, dei-lhe o dinheiro, principalmente, por dois motivos: 1) se não desse, seria o inimigo e ela deixaria de me ouvir e 2) porque se ela avançasse, eu não queria sair a pensar que não era culpa minha. Ambas eram razões estúpidas. No estacionamento discutimos uma última vez”. “A verdade sobre o aborto é que o meu primeiro filho está morto e nenhuma mulher, homem, Supremo Tribunal ou governo – NINGUÉM – tem o direito de me dizer que ele não pertence aqui”, clarificou o agora advogado que comparou o aborto com o Holocausto e garantiu que as mulheres não devem ter relações sexuais se não quiserem engravidar.

Quem segue a mesma linha de pensamento é Scott DesJarlais, político do Tennesse que, nos anos de 2013 e 2014, especialmente, enfrentou duras críticas por se terem conhecido os meandros do seu passado. “Os Tennesseeanos sabem que podem contar comigo para nunca comprometer os princípios independentes e conservadores e que sempre lutarei por um governo menor, menos gastos e mais empregos”, disse DesJarlais num comunicado à imprensa. Mas a reeleição do congressista não viria a ser fácil porque pouco antes da sua eleição bem-sucedida em novembro de 2012, foi noticiado que DesJarlais teve um caso com uma das suas doentes – quando exercia enquanto médico de clínica geral – e, posteriormente, disse à mulher que devia abortar.

“Disseste-me que farias um aborto e agora estamos a ir demasiado longe sem um”, declarou DesJarlais à doente, numa conversa telefónica gravada, de acordo com uma transcrição publicada em outubro de 2012 pela Associated Press. “Se precisarmos de ir para Atlanta, ou qualquer outra coisa, para resolver isso e acabar com isso para que possamos continuar com as nossas vidas, então vamos fazê-lo”. A uma rádio local, DesJarlais alegou que a doente não teria ficado realmente grávida.

“Não me importo de dizer às pessoas que não houve gravidez nem aborto”, adiantou, segundo o The Commercial Appeal. Quase uma semana depois de DesJarlais ter sido reeleito com 56% dos votos, em 2012, o Chattanooga Times Free Press informou que este também apoiara a decisão da sua ex-esposa de abortar duas vezes antes de se casarem em 1995, citando o seu próprio testemunho de divórcio.

“[Ela] estava a tomar uma droga experimental chamada Lupron e não deveria ter engravidado. Havia riscos potenciais. Foi um [aborto] terapêutico”, apontou sobre o primeiro aborto. Quanto ao segundo aborto, este terá acontecido num momento complexo do relacionamento e terá constituído “uma decisão mútua”. O Times Free Press informou que a amante com medo da gravidez tinha 24 anos à época, citando os documentos do divórcio, que também revelaram que DesJarlais admitiu outro caso com mais uma doente. Por estes motivos, o congressista foi multado pelo Conselho de Examinadores Médicos do Tennessee: somente em 500 dólares (o equivalente a 472 euros) e 1000 dólares em custos processuais (que correspondem a 944 euros).

Ainda que a acusação, supostamente, ainda não esteja tão bem fundamentada, e seja distinta das anteriores, um dos filhos do governador do Arizona está a ser acusado de ter pago o aborto a uma jovem. No Twitter, uma utilizadora veiculou:_“O seu filho fez-me tomar o plano B depois de termos estado juntos, mas continue”, sublinhou @neenaab3, referindo-se à pílula do dia seguinte. Importa mencionar que Ducey tem três filhos maiores de idade e a rapariga não identificou com qual deles manteve relações sexuais.

 

Caso extraconjugal é sinónimo de aborto?

No início de 2017, a National Public Radio dava conta de que o deputado republicano Tim Murphy, da Pennsylvania, renunciaria ao Congresso depois de ter sido acusado de pedir a uma mulher com quem teve um caso extraconjugal que fizesse um aborto. Dias antes, Murphy havia dito que não desejava a reeleição em 2018, mas no dia seguinte, o presidente da Câmara, Paul Ryan, anunciou que Murphy havia enviado a sua carta de demissão, com efeito a partir de 21 de outubro. “Foi decisão do Dr. Murphy passar para o próximo capítulo da sua vida, e eu apoio isso”, elucidou Ryan em comunicado. “Agradecemos-lhe pelos anos de trabalho incansável em questões de saúde mental aqui no Congresso e o seu serviço ao país como oficial da reserva naval”.

Murphy é membro do House Pro-Life Caucus e votou para impor mais restrições ao acesso ao aborto, sendo que naquela mesma semana votara a favor da Lei de Proteção à Criança Não Nascida com Dor, que “proibiria abortos após 20 semanas de gravidez”, de acordo com o GovTrack. Naquele mês, o Pittsburgh Post-Gazette avançou que obtivera um registo de uma mensagem de texto enviada por Shannon Edwards, uma psicóloga forense de Pittsburgh, a Murphy em janeiro.

“Não tens nenhum problema em publicar a tua posição pró-vida em todo o lugar quando não tiveste nenhum problema em pedir-me para abortar o nosso filho ainda não nascido na semana passada, quando pensámos que essa era uma das opções”, citou o jornal. Respondendo, Murphy terá enviado: “Eu entendo aquilo que dizes sobre as minhas mensagens da Marcha pela Vida. Eu nunca as escrevi, a minha equipa é que as escreve. Li-as e estremeci”.

Aparentemente, Edwards não estava grávida, mas Murphy não teve outra opção senão admitir que se envolvera com ela. “No ano passado tive um affair com uma amiga. Isso não é culpa de ninguém além de mim”, clarificou Murphy em comunicado por meio do seu advogado ao Post-Gazette. “Na medida em que deve haver alguma culpa neste assunto, ela recai exclusivamente sobre mim”.

Anos antes, em 2010, Murphy já se tinha oposto ao uso de financiamento federal para cobrir abortos. Falou na Convenção do Direito à Vida em Pittsburgh e Katie Blackley, da WESA, relatou à National Public Radio: “Todas as crianças merecem uma chance de ter uma escolha na vida. Todos os bebés merecem uma chance de ter uma escolha na vida. E todos os pais devem ser apoiados na sua responsabilidade e no compromisso de criar aquela criança”, destacou sete anos antes o político que, em 2017, estava no seu oitavo mandato no Congresso representando o 18º Distrito da Pennsylvania, fortemente republicano. Como psicólogo, trabalhou na legislação para reformular os programas de saúde mental do estado.

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