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A história de Apolo

A história de Apolo

Ricardo António Alves 06/06/2022 22:50

Quão semelhantes eles são nas grandezas e misérias do barro de onde provêm... – gestos de humanidade que tanto são válidos para a beautiful people do Olimpo, que nunca se aborrecia, como para a seráfica figura de Jesus Cristo

Quando não sabe ou compreende, o ser humano inventa, pois, tal como a Natureza, tem horror ao vazio. Assim as cosmogonias, os mitos, os deuses, feitos à sua imagem. E quão semelhantes eles são nas grandezas e misérias do barro de onde provêm... – gestos de humanidade que tanto são válidos para a beautiful people do Olimpo, que nunca se aborrecia, como para a seráfica figura de Jesus Cristo (pois não correu ele à paulada os vendilhões do templo?), divindade trinitária, uns e outros trazidos pelos Romanos, o nazareno, mais que trazido, imposto, uma vez que o império foi tomado por dentro, a partir das catacumbas da Cidade Eterna, cabendo a um imperador hispânico, Teodósio, decretar o cristianismo religião oficial.

Dos deuses do Olimpo, Apolo é um dos mais importantes, não apenas por ser filho de Zeus – sedutor inveterado de deusas & mortais, a prole é vasta –, como pela circunstância de ser a divindade da harmonia, da justa medida, do equilíbrio, opondo-se ao caos, à dissonância, à intemperança, ao desbragamento, à doença, cujas patentes são atributos de Dioníso / Baco –; daí que a lira seja um dos seus atributos, em contraste com a orgíaca flauta de Pã, sendo outro o arco de onde despede elegantemente a certeira flecha, tal como a irmã, Artemísia (a Diana romana); daí também que Apolo gere Asclépio, o deus da medicina. A partir desta oposição Nietzche irá elaborar sobre os conceitos de apolíneo e dionisíaco, harmonia e caos, como, aliás, vem muito bem explicado no final do álbum.

Integrada na colecção “A Sabedoria dos Mitos”, concebida pelo filósofo francês Luc Ferri, destinado a difundir junto dos jovens e do grande público a mitologia, o mundo dos deuses e dos heróis, como lhe chamou Maria Lamas, outra grande divulgadora, tem por argumentista a experiente Clotilde Bruneau, que apresenta uma narrativa fluida, incidindo nas principais características do deus grego, e um desenho competente do italiano Luca Erbatti (Génova, 1979), cujo trabalho se reparte entre fumetti e BD franco-belga, com especial apetência pelas narrativas clássicas da pirataria, e ainda com um salto aos comics norte-americanos,elabotando, desde 2018, diversas capas para o Fantasma – criação de Lee Falk e Ray Moore. E a propósito de capas, a deste Apolo é de Fred Vignaux, de quem aqui falámos a propósito do último Thorgal, pois foi escolhido pelo próprio Rosinski para dar continuidade à série

A finalizar, um texto conciso e muito informativo de Luc Ferri, para quem queira saber um pouco mais, com excelentes reproduções de diversas leituras pictóricas do percurso do deus grego na arte ocidental: com destaque para Parnaso (Apolo e as Nove Musas) (1497), de Andrea Mantegna; Bacanal (1615) de Peter Paul Rubens e Apolo e Mársias, de Bartolomeo Manfredi (1616-1620), consagrando desta forma a feição didáctica da edição.

BDTECA

ABECEDÁRIO

A, de Astérix (Uderzo e Goscinny, 1959). Haverá algo melhor?... Camadas de leitura para todas as idades. Uma ideia do outro mundo: a poção mágica de um druida que permite aos guerreiros da sua aldeia tornarem-na no último reduto da Gália à invasão do rolo compressor que foram as legiões romanas (ainda não conheciam a Lusitânia...). Um herói improvável: feio, baixo, maus dentes, porém provido de carácter a toda a prova; um amigo de infância desmesuradamente forte, por ter caído no caldeirão da poção quando era pequeno; uma comunidade cheia de excêntricos – do bardo de voz insuportável ao vendedor de peixe estragado –; as respetivas mulheres, que por vezes vestem bragas; a humilhação constante dos poderosos; um périplo aventuroso pelo mundo antigo (mas ainda não a Lusitânia...); munições de gags, trocadilhos, piadas à atualidade e sem tempo; gags que se repetem de álbum para álbum, sempre de maneira diferente: os piratas, normalmente metidos a pique; um cão que ama as árvores. Tudo isto e muito mais, o mundo de Astérix o Gaulês, saídos da imaginação, do teclado e do lápis de dois demiurgos, dois génios da BD, criadores de um dos maiores ícones dos quadradinhos à escala global (obrigatório num top ten mundial e o único verdadeiro rival de Tintin, a nível europeu). Haverá algo melhor? Não há.


 

 

 

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