29/05/2022
 
 
Maria Ondina Braga. Quantos anos tem um centenário?

Maria Ondina Braga. Quantos anos tem um centenário?

Teresa Carvalho 17/01/2022 14:50

No dia do aniversário da escritora-viajante, a família revelou, em sessão evocativa, a sua verdadeira data de nascimento. Era um segredo há muito (mal) guardado.

Maria Ondina (assim começa por assinar os seus livros) nasce na Cidade dos Arcebispos e das “Nossas Senhoras de todos os nomes” em dia aziago: sexta-feira, 13 de janeiro. Mortos queridos, lamparinas sempre acesas, cera a arder aos santos, fisionomias inflexíveis, dobrar de sinos e missas de sobra, tias católicas até aos ossos haveriam de compor a católica cenografia de uma tristeza de que nunca se conseguirá desprender. Bem ao contrário: a tristeza acaba a servir-lhe de guia e estranha companheira de viagem numa obra de qualidade admirável, repartida pelo conto, a novela, o romance, a crónica, e em boa parte situada no espaço geográfico do Extremo-Oriente. Enquanto narradora, nunca resvala Ondina Braga, que elevou as possibilidades da literatura e da linguagem literária, para a vulgaridade de ser apenas autobiográfica.

Entre os que, na passada quinta-feira, assistiram, no Museu Nogueira da Silva (MNS), da Universidade do Minho, à sessão evocativa do aniversário de nascimento de Maria Ondina Braga, ou a quem chegou notícia dessa sessão, não terá faltado quem recebesse com surpresa ou até alguma perplexidade o anúncio da abertura das comemorações do centenário da autora de “Estátua de Sal”. E com boas razões: Maria Ondina teria nascido há exactos e oficiais 90 anos. Dificuldade em fazer simplicíssimas contas? Desvario? Desejo de larga antecipação, a exemplo do frenesim comemorativo do centenário de José Saramago? Desacerto de calendário?

Se é fácil passar ao largo da pouco fiável Wikipédia e de outros sítios congéneres, que a dão como nascida em 1932, já não assim da página oficial do Arquivo Digital do espólio de Maria Ondina Braga, sediado desde 2013 naquele Museu, e que fixa o mesmo ano de 1932, a exemplo de todos os registos da Biblioteca Nacional. O mesmo acontece nas badanas dos ainda recentes volumes que registam as académicas participações nos dois colóquios que à obra da autora foram dedicados, e bem assim em todas as biografias oficiais. “Viajar com... Maria Ondina Braga”, o excelente livrinho de Isabel Cristina Mateus, publicado em 2018, insiste em 1932, a data que subtrai 10 anos à escritora – dez anos inteiros.

O silêncio parece ter sido outra aposta. Não por acaso, o busto da escritora que, em 2013, foi descerrado na Avenida Central de Braga, bem em frente à casa oitocentista onde nasceu Maria Ondina, no n.º 9, omite datas. Uma visita ao Cemitério dos Arcos, onde a escritora repousa desde 2003, não diz coisa diferente, ou melhor, não diz nada: no que respeita ao assunto, lápide em branco. “Silêncio e escuridão – e nada mais”, como disse Antero num conhecido soneto. E como dizem também, nos seus próprios livros, os lugares onde é de uso aparecerem biográficas datas. Nada. Contra o silêncio, a omissão, a dúvida, a suspeita veio erguer-se, em 2012, a certidão de nascimento da autora, consultada por Filomena Iooss, então a terminar em Paris uma tese de doutoramento sobre a escritora, e que daria como assente a verdadeira data de nascimento: 13 de janeiro de 1922. Acontece que a verdade, até aqui nunca publicamente admitida pela família, que recebeu com desconforto e algum azedume a “descoberta” da certidão (“minudências”, “quinquilharia de circunstância”), não foi suficiente para pôr fim ao que António José Barreiros, que desde 2006 mantém um blog dedicado a Maria Ondina Braga, designou por “mito cronológico”. Nem podia, porque parece haver construções ficcionais, verdades literárias sobre as quais a autora semeia pistas na sua obra, mais consistentes que a verdade documental.

Luís Soares Barbosa, representante da família, disse entretanto que o ano de 1932 “é a data do nascimento que a escritora tomou para si própria. Como outros escolheram um pseudónimo ou esculpiram um rosto onde voltar”. E acrescenta que “este seu desejo sobre a pública notícia do seu nascimento foi honrado em todas as peças sérias, académicas ou jornalísticas, que sobre ela surgiram.”

Tudo parece ter começado no final da década de 70, quando a Enciclopédia Verbo comete um engano na sua data de nascimento e no verbete respectivo lhe surripia dez anos de vida. De Maria Ondina Braga, que não se apressou a desfazer o equívoco, nunca chegou desmentido. Ao contrário: nascia assim uma afirmação a que emprestou consistência literária e que acabou por contaminar toda a sua vida pública. Ela própria, com o auxílio cúmplice dos círculos mais próximos, alimentou cuidadosamente esse mito, que por sua vez também bebeu na figura da escritora, enxuta, esguia, “diáfana”.

A família, abrindo as portas a iniciativas destinadas a assinalar o centenário, vem agora desvendar aquele que é há alguns anos um segredo mal guardado, acrescentando que o passaporte, “esse, sim, foi o único papel da República que ela prezava como guardião da sua liberdade”. Compreende-se: Ondina Braga viveu a responder ao apelo do longe, fez da viagem a única matriz possível de habitar o lugar e de o dizer. Foi uma escritora de muitas declinações – Europas, Áfricas, Chinas; palmilhou capitais: Londres, Paris, Angola, Goa, Hong-Kong, Pequim …, cruzou culturas. Dela se poderia dizer que foi um Fernão Mendes Pinto dos tempos modernos, salvaguardando, entre muitos outros aspectos, a fé que podemos fazer no relato dos seus périplos cosmopolitas, sensível aos signos do enigmático, o programa de “fazer fortuna” (sempre soube viver com muito pouco-quase nada) e a tutela de valores que lhe desenham o perfil de mulher reservada, quase secreta, e solitária. “A escrita é a única coisa que tenho na vida. Sozinha com a escrita. Digamos que é uma fatalidade...”, afirmou numa entrevista ao Diário de Notícias.

À semelhança da Peregrinação, a obra que construiu, dispensando embora o fio romanesco, trocado por uma discreta estrutura aglutinadora, possui a marca de uma intensa aventura humana que, ao penetrar no existir colectivo, recusa uma perspectivação de limitado cunho pessoal. Com livros como “A China Fica ao Lado” ou “Nocturno em Macau”, Maria Ondina Braga põe fim à longa viagem de descoberta da China começada por Mendes Pinto. Também nela se cruzam de forma reflectida, vivencial e durativa, liberta de preconceitos e juízos precipitados, os modos civilizacionais, as heranças culturais, os hábitos discursivos e as experiências concretas do quotidiano do Ocidente e do Oriente.

Depois de tantas errâncias, Maria Ondina Braga viverá, a partir de 1964, a sua vida de modéstia em Lisboa, onde se dedica à tradução e ao trabalho da sua obra, que então começa a publicar. Em 1970, surge Amor e Morte, uma colectânea de contos, refundidos e aumentados no volume O Homem da Ilha e Outros Contos (1982), que lhe valeu o Prémio Ricardo Malheiros. Prossegue com Os Rostos de Jano (novelas, 1973), A Revolta das Palavras (contos, 1975), A Personagem (romance, 1978), obra de verdadeira aliança entre ficção e diário intimo que se reúnem para se (con)fundirem. Surgido em 1991, o romance Nocturno em Macau, distinguido com o Prémio Eça de Queirós, recolhe ainda as experiências orientais.

O silêncio que após a morte, em Março de 2003, caiu sobre a sua obra tem sido quebrado, a espaços, por iniciativas que resgatam Maria Ondina ao esquecimento. A Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva (BLCS) repõe, de 13 a 28 de janeiro, a exposição “Maria Ondina Braga: olhares e caminhos”. Trata-se de uma mostra que cruza excertos das obras da autora com testemunhos de escritores e amigos – Álvaro Oliveira, Fernando Pinheiro, Henrique Barreto Nunes, Isabel Cristina Mateus, José Manuel Mendes, Cândido Oliveira Martins, José Miguel Braga, José Moreira Silva, Lídia Borges, Adelina Vieira, Céu Nogueira e Isabel Fidalgo.

E alegrem-se os leitores devotos da escritora que dá nome ao Grande Prémio de Literatura de Viagens da APE / Município de Braga: o empenho de Isabel Cristina Mateus, professora da Universidade do Minho, e Cândido Oliveira Martins, da Universidade Católica, possibilitará a reedição da obra completa da autora pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, há muito esgotada. A publicação do primeiro volume está prevista para o próximo mês de maio.

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