26/09/2022
 
 
Falta de trabalhadores. Empresários à beira de um ataque de nervos

Falta de trabalhadores. Empresários à beira de um ataque de nervos

Portugal não escapa à tendência mundial e são vários os setores que se queixam de falta de mão-de-obra. Uma das soluções apontadas passa por investir numa política de imigração controlada. 

Por Sónia Peres Pinto e Daniela Soares Ferreira

A falta de mão-de-obra é um problema transversal a todos os setores. A opinião é unânime  de acordo com vários empresários e economistas contactados pelo i. Há falta de pessoas para trabalhar e muitos apontam a imigração como solução para resolver o problema.

De acordo com as últimas contas feitas pela Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) faltam 40 mil trabalhadores no setor. “Antes da pandemia fizemos um debate de um dia inteiro sobre o mercado de trabalho, sobre as dificuldades que estávamos a sentir e, na altura, chegámos à conclusão que se tivéssemos 40 mil pessoas teríamos dado emprego a essas 40 mil. Já estávamos a falar, nessa altura, de uma grande carência de mão-de-obra no setor, até porque estava a crescer. A situação não só não se resolveu como até se agravou. A partir do momento em que as atividades começaram a abrir e isso notou-se muito nos meses de verão – principalmente no final de julho e agosto – muitas não conseguiram abrir porque não tinham trabalhadores”, disse ao i Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP.

Uma opinião que tem vindo a ser partilhada por Daniel Serra. O presidente da Pro.Var confirma que há escassez de mão-de-obra no setor da restauração. “O Governo deve rever urgentemente as políticas relacionadas com o incentivo ao emprego, do ponto de vista da procura e da oferta”, apela o responsável. Daniel Serra diz que “é preciso implementar novas regras de incentivo ao emprego”, acrescentando que o “setor precisa de contratar mais e é necessário rever as políticas relacionadas com o incentivo ao emprego”. 

O cenário repete-se na construção. De acordo com o presidente do Sindicato da Construção de Portugal, Albano Ribeiro, só este setor precisa de 80 mil trabalhadores. Uma escassez que poderá pôr em causa vários projetos que estão em cima da mesa – nomeadamente as obras no metro em Lisboa, obrigando “muitas obras públicas e privadas a não avançarem” e originando “situações de trabalho precário, clandestino e à criação de redes de angariadores”. 

Os dados também não são animadores na distribuição. Ao i, Gonçalo Lobo Xavier, secretário-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), chegou a admitir que há dificuldade em recrutar pessoas. “Tem sido uma matéria que pode causar surpresa a muita gente mas é transversal a todos os setores”.

No setor dos vinhos a realidade ganha maiores contornos na altura da vindima. “Temos um problema estrutural da falta de mão-de-obra que se está a agravar em algumas regiões, um bocadinho mais do interior. Têm que ser encontradas soluções e, claramente, ir buscar mão de obra fora. Trazer mão de obra de fora nestas épocas torna-se cada vez mais essencial. Mas é um problema que nós temos, estrutural, e que vai continuar a agravar-se”, referiu ao i.

Apontar o dedo Também o presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP) reconhece que esta está a ser uma verdadeira dor de cabeça junto dos empresários. No entanto, o patrão dos patrões garante que a crise pandémica veio despertar “a perceção de todos em relação à maneira de estar e depois houve o abandono de muita gente que trabalhava, até porque alguns se reformaram mais cedo”, acrescentando que “há uma postura diferente na forma de estar do trabalho que sociologicamente deve ter alguma leitura e deve ser avaliado. Mas não é só um problema nosso, os trabalhadores americanos estão-se a despedir em massa desde a pandemia”, chegou a dizer em entrevista ao i.

Na sua opinião, “Portugal deveria ter uma política de captação de imigração que estivesse bem definida para captar imigrantes com vista a colmatar as necessidades de mão-de-obra do nosso país”, seguindo o exemplo de outros países.

“Há países que já tem essa política, Portugal está atrasado nessa definição e de lançar medidas concretas de captação de mão-de-obra exterior. Mas tem de ter uma política de captação de imigrantes bem feita, articulada desde logo com as nossas antigas colónias, em que algumas delas, pelo seu estado de desenvolvimento, têm necessidade de exportar mão-de-obra. E, nesse caso, os aspetos linguísticos até facilitariam a integração e acredito que eventuais entraves seriam rapidamente ultrapassados”, referiu. 

Uma opinião partilhada pelo presidente do Fórum da Competitividade, com Pedro Ferraz da Costa a revelar que há atualmente uma grande dificuldade em encontrar mão-de-obra em variadíssimos setores. Mas questiona: “Como é que possível sermos tão mal governados que temos pessoas mais qualificadas e a produtividade não sobe?”.

Soluções à vista O economista João César das Neves não hesita: “O problema tem solução fácil, se ele realmente ocupar as autoridades. Mas esse é mais um dos problemas esquecidos numa governação demasiado centrada na gestão de curto prazo e a satisfação de interesses instalados, esquecendo os grandes problemas de fundo do país”. 

Já Mira Amaral nota que o problema existia antes da covid. “Sou consultor e as empresas já me falavam desse problema: ‘Temos produto, preço, mercado, tecnologia, só não temos é mão-de-obra’”. A carência que se está a verificar, acrescenta, diz respeito não só à falta de mão-de-obra qualificada, mas também à não qualificada. “É um problema dramático que condiciona o nosso crescimento económico e que tem de ser resolvido com alguma imigração qualificada e seletiva”. O antigo ministro defende que muitos portugueses têm pouca vontade de trabalhar porque contam com os apoios governamentais. 

Nuno Teles, economista, admite, no entanto, que esta é uma situação que está longe de se manifestar de forma transversal na economia. “Estamos ainda muito longe do pleno emprego. O que existe, devido aos ritmos de recuperação assimétricos e mudanças de hábitos de consumo nacionais e internacionais, são certas empresas e em certos setores, normalmente aqueles com salários mais baixos e piores condições de trabalho, a sentir eventuais dificuldades, mas isso será certamente passageiro”. Refere que se trata de um fenómeno conjuntural e limitado a alguns setores, mas garante “que não será certamente um estrangulamento relevante ao crescimento”.

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