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Gonçalo Amaral. "No caso Maddie, só não chegamos à verdade por uma questão meramente política"

Gonçalo Amaral. "No caso Maddie, só não chegamos à verdade por uma questão meramente política"

Maria Moreira Rato 20/10/2021 15:44

“Não se aprende nada falando com ingleses e alemães”, garante o ex-inspetor da PJ e autor do livro Maddie: Basta de Mentiras!, lançado pela Contraponto.

Na noite de 3 de maio de 2007, depois das 22h, desapareceu na Praia da Luz, no Algarve, uma criança de três anos. “Rapto planeado? Rapto motivado por gratificação sexual? Desaparecimento voluntário? Responsabilidades dos pais ou de outros com o dever de guarda da criança? Morte acidental? Morte nas horas ou nos dias anteriores ao alerta de desaparecimento?” são as perguntas que constituem o mote do livro Maddie: Basta de Mentiras!, da autoria de Gonçalo Amaral e lançado pela Contraponto. Nesta obra, o ex-inspetor da Polícia Judiciária, que coordenou que as investigações do caso Maddie entre 3 de maio e 2 de outubro de 2007 (data em que foi afastado), sublinha que, volvidos 14 anos, ainda não se sabe a verdade. No entanto, mesmo que aposentado desde 2008, não desiste de pensar acerca do caso e acredita que Madeleine McCann,“a criança misteriosamente desaparecida”, “merece uma investigação objetiva e séria”.

“Este livro surge da necessidade que senti de repor o meu bom nome, que foi enxovalhado na praça pública sem que a instituição a que pertenci há 26 anos, a Polícia Judiciária Portuguesa, tenha permitido que me defendesse ou que o fizesse institucionalmente”, escreveu na nota introdutória de “A Verdade da Mentira”, publicado em 2008. Esperava que o posicionamento da PJ fosse diferente?

Tanto naquela altura como agora pensei que fosse diferente, mas tem sido sempre um posicionamento politicamente correto. Aliás, como diz o doutor Luís Filipe Menezes, há um desígnio político, desde a primeira hora, neste caso, que abrange não só a questão da imagem e os gastos do governo britânico como tem reflexos a nível nacional. Esse posicionamento da PJ é interessante porque, à época, não saíram - e podemos fazer a comparação 14 anos depois - em nossa defesa. Em minha e daqueles que trabalharam comigo, assim como daqueles que eram meus superiores, como o doutor Luís Neves, diretor nacional da PJ. Por aquilo que se sabe, em 2008, estaria indigitado para ocupar esse cargo, mas foi prejudicado por causa do caso. Disseram que estava muito ligado ao mesmo. A ser verdade aquilo que se diz, que terá saído um comunicado da PJ acerca das declarações do procurador alemão, alertando para que não há nenhuma tensão entre Portugal e a Alemanha... Em primeiro lugar, esse procurador nunca se retratou e quem vem, no fundo, defender aquilo que disse ou não disse foi a PJ, coisa que não fez com os seus colaboradores. É tudo muito estranho, mas o facto é que acontece e é assim.

Quando lançou “A Mordaça Inglesa”, em 2009, os pais de Madeleine McCann alegaram que o livro e o vídeo comercializado após um documentário exibido na TVI divulgavam a sua tese, que consideravam insustentável. Isto surpreendeu-o ou esteve sempre à espera de que esta fosse a sucessão dos acontecimentos?

Não tenho tese nenhuma, está tudo em aberto e há um relatório intercalar de setembro de 2007, elaborado pelo senhor inspetor-chefe Tavares de Almeida, provisório com conclusões provisórias que devia ter tido um seguimento. Nesse relatório, aborda-se a eventual responsabilidade dos pais no desaparecimento da criança. Aquilo que ali está não é a minha tese: são as conclusões da PJ que ainda hoje estão válidas. Há uma forte possibilidade de que tenha havido o envolvimento dos pais no desaparecimento de Maddie. E ficamos por aí. Quanto a esse livro, é uma resposta ao pedido de indemnização e ao processo cível que me colocaram em que se ganhou em tribunal, até no Supremo Tribunal de Justiça e no Tribunal Constitucional ao fim de 10 anos. Mas, neste momento, e nada acontece por acaso, está ainda a decorrer uma ação contra o Estado português no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH). Como já ando nisto há algum tempo, pelo menos há 14 anos, não tenho dúvidas nenhumas de que há um total interesse da parte dos pais da criança de que isto esteja tudo a acontecer: que a polícia alemã ou qualquer outra venha dizer que há investigações em aberto, que tem um suspeito... Porque tudo isso, na cabeça desses senhores, pode influenciar o TEDH. Vamos aguardar o resulto, mas há esse pensar.

Nesse ano, o casal pediu ao tribunal a retirada do mercado, embora com carácter provisório, do livro e do vídeo, que acabou por ser decretada a 9 de setembro. Ao mesmo tempo, acusaram-no de declarações consideradas difamatórias, pedindo uma indemnização de, pelo menos, 1,2 milhões de euros. Houve uma motivação económica que se sobrepôs à da vontade de encontrar a criança?

Não falo da motivação do dinheiro, mas sim da imagem. Tem-se falado muito, ao longo dos anos, em limpar e tratar a/da imagem. O principal é isto. Mesmo esta ação no TEDH tem a ver com a imagem dos pais de Madeleine. Precisam quase de ter um resultado positivo "como pão para a boca" e, então, aí, saíram por cima. Desde o lançamento do documentário da Netflix - estranhamente, nem sabia que estava a ser entrevistado no âmbito dessa produção -, percebi logo que as coisas não eram bem independentes. A senhora andava com um livro meu, traduzido na Internet, uma tradução horrorosa e eu disse-lhe "Se quiser o original, trago-lho e estão aí portugueses que podem traduzi-lo facilmente". E depois introduziram um novo dado, acerca da violação do segredo de justiça, que é a conversa da mãe da criança desaparecida, e eu perguntei "Não entrevistam os pais?" e responderam "Não, não querem". E entendi que havia um movimento em que os pais se deixam estar na retaguarda, os outros todos a falar e a polícia alemã, neste caso, disse que está morta. Depois disseram "Não, não, talvez esteja viva", mas nada disto acontece sem a anuência dos pais. A polícia britânica não avançou para este suspeito sem a anuência dos pais, disso não tenhamos dúvidas.

Na decisão do tribunal, era possível ler que o autor e as editoras ficavam ainda proibidos de “procederem à reprodução ou comentário, opinião ou entrevista, onde tal tese seja defendida ou de onde possa inferir-se”. Mesmo assim, seguiu em frente com o lançamento do segundo livro. Como é que foi ter a sua liberdade de expressão ameaçada?

Nessa altura, houve censura, um ataque cerrado à liberdade de expressão e, principalmente, à minha independência económica. Atacaram a minha pensão de reforma, ficou um terço penhorado, como se assim encontrassem a criança.

“Estou plenamente convicto de que a minha aposentação antecipada da PJ foi um exercício do meu livre-arbítrio, mas em consequência de um ou mais atos da responsabilidade de terceiros”, escreve no primeiro capítulo do seu mais recente livro.

Exato, vai ao encontro daquilo que acabámos de falar. Um dos objetivos principais dos pais era também levar-me à ruína e calar-me dessa forma. Técnicas que talvez utilizem muito no Reino Unido mas que aqui não resultam.

Logo na página 20, escreve que “a desculpa da queimadura solar não colhe, já que a marca era no pulso, como se alguém a tivesse agarrado e puxado com força excessiva”. A mesma era visível numa fotografia tirada no Ocean Club, no entanto, salienta que, até hoje, não houve qualquer referência à mesma nos órgãos de informação. Porquê? Foram manipulados?

Ao longo dos anos, não teve interesse jornalístico. São factos que estão no processo: foi entregue um CD a todos os jornalistas quando o processo foi arquivado, mas dá a ideia de que, na altura, não o leram. Isso está lá nas declarações da mãe. 

No seu primeiro livro, escreve que “aquilo que os investigadores viram era o paradigma do sagrado e do profano”. Por exemplo, a mãe tinha fotografias da menina na mesa de cabeceira e a Bíblia, enquanto o pai tinha três manuais policiais de acesso restrito a entidades policiais e governamentais. O que é que estes detalhes dizem de cada um deles?

Os pais de crianças desaparecidas a longo prazo têm de ser apoiadas e é-lhes aconselhado que falem e escrevam sobre o assunto e que tenham cuidado sobre uma série de questões. Mas, aqui, por exemplo, quando se cria o fundo monetário de apoio para a busca, que não deviam os próprios pais a gerir o mesmo, pois serão publicamente escrutinados, aquilo que aconteceu foi um pouco ao contrário. Eles seguem esse tal guia de sobrevivência para famílias mas com determinadas nuances: gerem os milhões, aceitam tudo o que é informação quase vinda do além e a cooperação com a polícia não funciona corretamente. Querem mais saber do que ajudar. A passagem que estava assinalada na Bíblia era sobre a morte de uma criança e, do lado do pai, os tais manuais e um livro de autoajuda. Há ali uma preparação para aquilo que virá: um quase assumir de que a criança está morta. 

“E nunca se pode afirmar que ‘a criança já lá vai’. O que se faz depois de uma afirmação destas?”. Os pais de Maddie agiram sempre como se soubessem que a mesma tinha morrido? Até porque menciona que “a primeira vez que se levantou a hipótese de a menina estar morta foi, efetivamente, sugerida pelos pais”.

Essa informação foi proferida por um ilustre advogado português na televisão. E a hipótese foi levantada por eles: não era que não estivesse tudo em aberto, mas as primeiras buscas foram feitas com o objetivo de procurar uma criança viva. Mas era como se tivesse saído de casa sozinha e não ao colo de ninguém. Já não me lembro se foi a mãe ou o pai que entregou e-mails de videntes que tinham escrito que a criança estaria morta num coletor de esgotos e alguém disse que viu um programa, com um coronel das Forças Armadas da África do Sul, que tinha uma máquina especial que, com cabelos, conseguiria localizar o corpo da criança. Portanto, quem pede, de início, para localizar o corpo, são os pais e não a PJ. Essa estratégia foi alterada quando foram constituídos arguidos, pois começaram a dizer que estava viva. Só que, se leram os manuais e falaram com especialistas, deviam saber que crianças do sexo feminino, com esta idade, não há memória de terem sido recuperadas vivas anos mais tarde. Aquelas que o são, quando aparecem, estão perto da puberdade, quase a ter a menstruação. Aí, sim, passam a ser escravas sexuais como dizem alguns teóricos da questão. 

Ficou surpreendido com a publicação do livro assinado pela mãe, Madeleine – O Desaparecimento da Nossa Filha e a Busca Para a Encontrar? Acredita que o dinheiro arrecadado serviu mesmo para financiar a busca pela criança?

Não gosto de tecer comentários acerca daquilo que fizeram ou deixaram de fazer ao dinheiro: as pessoas que contribuíram é que têm de questionar. É de facto que, logo de início, amortizaram completamente a hipoteca da casa e por aí fora. Os fundos servem para apoiar as famílias para além da busca, no entanto, no tal guia de sobrevivência, que existe nos EUA e muita gente utiliza, realço que se diz que não deve ser a família à frente do fundo. Mas deixo isso para a opinião pública.

A forma como os pais descreveram as alegadas perturbações do sono de Maddie parece ter incongruências. Aparentemente, teria começado a dormir quando foi com os pais a Itália, mas em casa dos mesmos ainda existia um quadro de recompensas que receberia se tivesse dormido. Isto faz sentido?

A testemunha que apoia a teoria de que os problemas do sono desapareceram é a pessoa que se diz que viu pela última vez a criança viva, David P., o médico que organizou toda a viagem. É um pouco estranho. É sempre aquele casal ou aquela pessoa que é utilizado/(a) para dizer que os problemas de sono já lá vão, que estava viva às x horas no dia 3 de maio de 2007... E é denunciada por outro casal de médicos por ter alegadamente praticado gestos e frases obscenos a roçar a pedofilia relativamente à criança desaparecida. Gostava de dar banho aos filhos dos outros e tudo o mais. É estranho que esta amizade se mantenha com este indivíduo, que seja sempre ele a ser puxado para "defendê-los" de alguma forma e... O que posso dizer? Não havia necessidade de ir buscar este casal para justificar os problemas do sono. E mais estranho ainda é que nunca este senhor foi entrevistado pelos jornalistas: nem ele nem os outros. Os jornalistas não podem ou não interessa fazê-lo.

Relativamente ao apartamento em que os McCann estavam, parecia que tinha existido quase uma tentativa de plantar provas ou ocultá-las. A título de exemplo, a situação da manta, que estava dobrada e arrumada.

O que terá havido é uma simulação de rapto. Há fortes indícios disso com a marca da mão da mãe na janela, por exemplo. Quando se diz que ocorreu um rapto verdadeiro, porque é que se simula o mesmo? Não bate certo. O que pode ter acontecido, mas isso cabe a quem o fez, é que se queira ter dado a sensação de que aqueles que são responsáveis pela guarda da criança tinham feito tudo para que tanto ela como os irmãos ficassem em segurança enquanto estiveram ausentes. Mas parece que isso não é bem assim porque a portada que dava acesso às traseiras não estava corretamente fechada nem uma janela do quarto onde dormiam. Poderia haver a hipótese de alguém ter entrado e estes pais terem pensado que, ao não fecharem tudo à chave, tinham sido descuidados e que lhes podia ser atribuída essa responsabilidade. E daí a simulação. Alguém tem de explicar isto: a polícia levanta hipóteses, mas só pode ir mais longe se quem simulou vier assumir a possível simulação do rapto e explicar o porquê. A explicação até pode ser aceitável, apesar de não muito compreensível.

Foi sempre sugerido que a suposta entrada no apartamento terá ocorrido pela janela do quarto, mas não foram encontrados quaisquer indícios desta ter sido forçada. 

Nada. Das duas, uma: a criança, quando saiu dali, foi levada por alguém que tinha a responsabilidade de lá estar dentro com ela ou alguém entrou pelas partes que estavam abertas e levou-a. Na primeira ou na segunda, não sabemos aquilo que terá acontecido. A criança até pode ter saído sozinha, coisa que os pais não admitem: escreveram que esta hipótese coloca em causa a inteligência deles. Isto é de bradar aos céus. Lá vem a tal parte de se concentrarem na ideia de que cuidaram corretamente dos filhos. E talvez isso não seja verdade. E tudo isto faz confusão, levando ao ponto de haver outras hipóteses como a da criança ter desaparecido ou morrido antes de 3 de maio.

“A cena do eventual crime, fosse qual fosse, não está de acordo com o que seria no momento do alerta de desaparecimento. Quando a polícia chegou ao apartamento a cena estava já alterada”, escreveu. A que ponto isto prejudicou a investigação?

Já lá tinha estado muita gente, os cães pisteiros da GNR... Pode ter havido a intenção de que isso acontecesse, desleixo, álcool a mais da parte das pessoas que deviam ter tido algum cuidado... Não nos esqueçamos de que tinham estado a jantar e a beber bem e que isso era habitual todas as noites. 

Se os pais de Maddie a procuravam, porque é que escorraçaram uma funcionária de um organismo britânico de proteção à criança?

Exatamente, e isto leva-nos outra vez ao senhor David P. Temos o nome da funcionária, trabalhou em vários processos, e o dele, e nunca a polícia britânica fez um levantamento dos casos em que a senhora trabalhou ao longo da carreira. Não se sabe se o médico é testemunha ou suspeito. Se calhar, continuamos no politicamente correto.

“O que resultou da interferência do poder político foi uma investigação criminal não finalizada, abrupta ou tacitamente interrompida, dando lugar a especulações e a teorias de conspiração, com as quais não concordo”, escreveu. 

Quando o embaixador britânico se deslocou, no sábado, dia 5 de maio, ao Algarve, para se reunir com a direção da polícia que estava à frente do caso, quase que diplomaticamente exigiu que fosse emitido um comunicado a dizer que houve um rapto e que não havia envolvimento dos pais. A polícia fez isso e foi o maior erro. O doutor Guilhermino da Encarnação saiu, estava rodeado de jornalistas, e eu e o doutor Luís Neves éramos poucos conhecidos, e ele disse "Isto está tudo mal". Utilizou outro termo que não vale a pena dizer aqui. Os pais estavam à espera daquele momento. Logo de seguida, o embaixador deslocou-se para a Praia da Luz e também os pais saíram com um comunicado. A partir dali, começou a existir um rapto e isso é inconcebível. O doutor Luís Filipe Menezes fala muito disto, por exemplo: o orçamento britânico, todos os anos, dedica milhões de libras à procura ou pseudo-procura de um suspeito e da criança. Mas só para esta criança. Há outras que desapareceram. 

Parece que as restantes não merecem ser procuradas.

Pois. E lembro-me de que houve o apoio de empresários milionários dirigido a este tipo de trabalho. E quando foi do processo cível contra a minha pessoa, a Scotland Yard fazia o obséquio, quando estava para começar uma audiência de julgamento no Palácio da Justiça, lá vinha a notícia de que a criança ainda estava viva e que a procuravam. Ainda está para ser decidido o processo do TEDH. E, depois, não podemos esquecer os reflexos em Portugal: no dia 2 de outubro, fui demitido da minha comissão de serviço à frente do departamento de Portimão e tive de voltar a Faro. Fui demitido depois do senhor Gordon Brown, primeiro-ministro britânico, ter dito, - à saída de uma reunião com o senhor engenheiro José Sócrates, na altura primeiro-ministro, aquando da Cimeira de Lisboa da União Europeia -, que já tinha falado com o primeiro-ministro português sobre o Caso Maddie. De seguida, José Sócrates veio a desmentir que tal tivesse acontecido. No entanto, poucas horas depois, fui demitido. Fiz um desabafo ao Diário de Notícias. Não quero focar-me na questão pessoal destas coisas, mas era um - e ainda sou - dos coordenadores da PJ com melhor currículo. Recordo-me, por exemplo, do doutor Santos Cabral ter ido, antes disto, ao Algarve, e dizia-me ele "Você é que é o Gonçalo Amaral, aquele de quem se fala". E ali estava em causa o trabalho que fazíamos, por exemplo, de combate ao tráfico de droga. Nós, a Secção Regional de Investigação de Tráfico de Estupefacientes de Faro, chegámos a apreender mais haxixe do que a direção nacional em Lisboa. Isto é uma realidade. A Secção estava para ser agraciada quando fosse o momento e depois entendi que seria no aniversário da PJ. O meu nome estava lá como coordenador da secção. Depois, quando foram atribuídos esses louvores, o doutor Alberto Costa ainda era ministro da Justiça, e, no Diário da República, o meu nome não consta. É como se aqueles meus colaboradores tivessem trabalhado sozinhos. Há este "pôr para trás". E há aquilo que se passa atualmente: um escândalo transversal aos partidos políticos da governação. Tanto ao PS como ao PSD. Quando o caso foi reaberto, em 2013, era ministra da Justiça a doutora Paula Teixeira da Cruz. O caso só foi reaberto porque a Scotland Yard já tinha afastado, através da reconstituição, as suspeitas sobre o pai e tinha acabado com o depoimento importante da senhora Jane T. dizendo que, afinal, até havia lá um homem com uma criança ao colo, que era outro médico...

Naquilo que diz respeito ao avistamento de um homem com uma criança ao colo, lembrou que existem 80% de possibilidades de ser o pai da criança e 60% a própria criança.

Isto foi dito pelos irlandeses, mas a Scotland Yard disse "não, não, é apenas uma pessoa parecida com". E só aí houve autorização para a polícia portuguesa reabrir o caso. E conta-se a história de que havia o casamento de um ministro e que a senhora ministra terá chegado atrasada à boda, mas terá confidenciado que estava atrasada porque tinha acabado de resolver o Caso Maddie. A partir daí, Portugal começou a ser subserviente relativamente aos ingleses. E iniciou-se uma estratégia de encontrar um suspeito. Essa solução do caso passava por um funcionário do Ocean Club que, tempos depois, faleceu por ser esmagado por um trator. Portanto, estava resolvido, era aquele suspeito. Não tivesse a mulher do senhor vindo a público insurgir-se contra essa situação, não sei o que teria sido. Começou a tentar-se encontrar um suspeito, ao ponto de chegarmos a um alemão.

Ao Brueckner. 

Sim. Tenho assistido, ao longo destes anos todos, ao tal desígnio político do caso e ao politicamente correto. Os jornalistas também têm alguma responsabilidade nisto. Não sou jornalista, mas ponho-me na posição de um que faz perguntas. Se questiona, tem de questionar a fundo. Por exemplo, se dizem que há a convicção de que existe este determinado indivíduo que foi aquele que fez e aconteceu, que raptou e matou... Como é que não houve nenhum jornalista que perguntasse o porquê? Têm tantos elementos para vir para a opinião pública dizer o nome de uma pessoa... E depois há outra questão que já não tem a ver só com os jornalistas: ninguém questiona o motivo pelo qual um indivíduo é preso para ser investigado um crime. Isto não funciona assim: primeiro, investiga-se o crime e, depois, as pessoas são presas como resultado. Primeiro, prenderam-no, e a seguir investigaram.

Brueckner é o bode expiatório, digamos assim?

Os alemães estão muito habituados a determinado tipo de coisas como ações encobertas, utilizar presos que não são presos mas sim polícias para tentar que os outros falem sobre determinados factos... Aqui terá acontecido a mesma coisa. Na altura do Grupo Baader-Meinhof, foram presos os dirigentes do mesmo devido a um excelente trabalho realizado pela polícia alemã, que conseguiu desmantelá-lo, mas ao fim de algumas visitas de psicólogos e outras pessoas suicidaram-se todos na cadeia. Um indivíduo está detido e, ao fim de não sei quantos anos, diz "Ele a mim confessou-me, disse-me que". É o diz que disse. E indicam que é um indivíduo que estava preso, na Grécia, por tráfico de seres humanos mas que mesmo assim não tinha motivação e o depoimento dele era credível apesar de ter mentido e omitido nas próprias declarações. Quando se torna suspeito, em 2016, estava em Portugal. E se estava cá, se o processo e a investigação são portugueses, porque carga de água os ingleses vão puxar os alemães para o caso? Porque é que os ingleses, em 2018, ouvem formalmente as declarações dele por causa de uma pseudo-violação de uma cidadão americana na Praia da Luz?

É o suspeito ideal. Até indicou que "é preciso encontrar o suspeito ideal, o pedófilo que satisfaça os pais".

Exato. E tenho dito, nos últimos dias, e escrevo-o neste livro, que está em causa a soberania nacional. Isto porque não se trata apenas deste caso: são outros processos que não têm relação direta com o Caso Maddie, mas que querem que tenha relação direta com o suspeito para a construção do mesmo. A investigação decorre na Alemanha e nada é feito em Portugal. Não chega a haver nenhum conflito positivo ou negativo de competências. Compete ao Estado português os crimes cometidos em Portugal. Só em casos muito excecionais permite-se que outro país o faça, mas aqui não: neste momento, os alemães terão uns quatro casos contra o indivíduo. Voltando um pouco atrás, isto é transversal aos partidos: está a ser discutido o Orçamento de Estado e ninguém fala. A ministra da Justiça não sabe? Só falam dos processos-crime que dizem respeito à corrupção? Não há mais nenhum problema? Fala-se de que o Eduardo Cabrita é que tinha a responsabilidade da direção do carro no acidente da A6, por exemplo, mas quem é que permite que isto aconteça? É um problema de soberania. Nem os partidos nacionalistas ou de extrema-direita falam, o que é estranho. Recordo-me que, quando foi d'"A Mordaça Inglesa", pedi audiências a todos os partidos e só fui recebido pelo PCP e pelo doutor Pedro Quartin Graça que era então líder do Partido da Terra. E nada mais. O único que me respondeu, para além destes, foi o BE a dizer que não comentava casos concretos da justiça. Mas quando casos querem que lhes digam que já foram comentados? Porque é que toda a gente foge disto? Esse procurador alemão parece que disse, este fim de semana, a um jornal inglês - fazendo fé naquilo, sendo que há muito tempo que não acredito naquilo que dizem - que Portugal quer paz. Acredito nessas palavras, é isso mesmo: "Não nos chateiem. Querem resolver, resolvam". É uma inércia incompatível com o exercício da soberania em termos da justiça. E que devia preocupar todas as forças políticas. Qual é a posição da senhora ministra da Justiça e da senhora procuradora-geral da República? Permitem que a investigação seja prosseguida pelos alemães, deram orientações neste sentido?

Entre outros crimes sexuais, Brueckner teria violado uma mulher com idade compreendida entre os 70 e os 80 anos, mas, no Hospital do Barlamento Algarvio, em Portimão, a médica que observou a vítima submeteu-a a um exame ginecológico e concluiu que não existiam lacerações e que havia “atrofia vaginal intensa”. Este é um dos “pontos de costura de uma investigação mal conduzida, ou melhor, intencionalmente conduzida para a construção de um raptor pedófilo” como explicou?

Exatamente. Este indivíduo tem um perfil quase adequado a, mas é preciso preenchê-lo. No ano passado, vendeu-se o indivíduo: tinham tantas certezas, mas não estava acusado. Depois, foram-se buscar outros processos para dizer que violou uma idosa, uma criança irlandesa, a filha de uma amiga, etc. Mas, nisto tudo, não há um indício do Caso Maddie. Já sabemos que é bandido, mas mostrem nem que seja uma coisinha relacionada com este caso. Há pessoas que são julgadas e condenadas não por aquilo que praticam, mas sim pela sua imagem. Em 2016, ele estava em Portugal e permitiu-se que saísse daqui com a conivência das autoridades portuguesas - seja da PJ ou do Ministério Público - para que os alemães o prendessem por outros factos e começassem a investigar com ele preso. Fui coordenador de investigação criminal, sei aquilo que devia ter sido feito: ele estava aqui, tínhamos de "nos pôr em cima dele" com vigilâncias físicas e eletrónicas. E, se possível, fazer intervenções com um agente encoberto e não colocá-lo numa cadeia na Alemanha, pôr lá um indivíduo que seria um agente encoberto e que tentou saber coisas, mas não se chegou a nada. Prender e investigar ou investigar e prender?

O processo foi invertido. Por este motivo, continua a achar que a polícia alemã age de forma “nitidamente tendenciosa, com a falta de objetividade que deve nortear qualquer investigação criminal”?

O exemplo que está nesse processo da violação prova isso e é um mau indicador para o resto. Há dois testemunhos: um primeiro que diz x e y, e pára; depois, vem outro, de outra pessoa que terá praticado um furto em casa do Brueckner, e acrescenta mais coisas, pondo em causa também outros detalhes. O que se faz perante isto? Temos de comprovar a veracidade dos testemunhos. É uma questão de bom senso. Por exemplo, Manfred Seyferth diz que Helge B. viu uma cassete de vídeo em que Brueckner tinha relações sexuais com uma pessoa. Penso que era italiana. Pegou naquilo e foi mostrar a um bar de uma pessoa que fazia reiki. É fácil identificar essa pessoa em Santa Clara-a-Velha. Tinham de ir à procura dele e questioná-lo. Pormenores como este, há muitos. A polícia alemã diz "Pronto, já temos aquilo que chegue. Não podemos ir mais longe porque põe-se em causa a motivação".

“Os portugueses têm ido a reboque, vão-se limitando a comunicados de imprensa, onde se diz que investigam em cooperação com autoridades policiais internacionais, não se comprometendo publicamente com eventuais suspeitos”. Porquê?

É a paz que as autoridades querem. Por exemplo, no processo da violação da senhora americana, era necessário saber aquilo que se passou. Quem é que descobriu aquele processo? O tal Helge B. diz que viu a violação de uma senhora com sotaque britânico. Como é que se chegou à violação da senhora idosa? Temos artigos que foram enviados para laboratório depois disto. Como é que se tapou o buraco de ter ocorrido o processamento prévio daqueles objetos num laboratório português? Porque é que não se fala disso? Quando foram enviados para a Alemanha, já tinham, em parte ou em todo, examinados cá. Onde está o relatório desse exame? Aqui há algo que não está correto e é necessário conseguir explicações. A Procuradoria-Geral da República tem de levar a cabo uma investigação porque aqui está também em causa a violação de regras em relação à custódia da prova: veio do laboratório, foi para o tribunal, daí para a polícia, as embalagens foram abertas e fechadas, foi para a PJ durante uns anos - e nem sequer foi guardada num cofre -, ficou na sala da brigada e foi entregue à polícia alemã que a deixou dentro do carro e, após cinco ou seis dias, foi para laboratório. Como é que isto é possível? A cadeia de custódia da prova foi colocada em causa, mas dá-se tudo como certo. 13 anos depois, apareceu um cabelo que até é um que tem raiz porque só com ela se consegue fazer um exame mais correto.

“Tenho muitas dúvidas de que este procurador tenha lido o processo português relativo à investigação do desaparecimento, até porque não precisa de o ler para ‘criar um suspeito pedófilo’”. Assim sendo, as autoridades alemãs colaboram com as inglesas para alimentarem a ideia do tal suspeito perfeito?

Infelizmente, 14 anos depois, todas as hipóteses estão em aberto. É preciso continuar a investigar seja como for, nem que a PJ forme três ou quatro equipas e cada uma se dedique a uma vertente. Gasta-se meios, sim, mas talvez consigamos chegar à verdade. Há pessoas que dizem que o senhor procurador não encontrou nada que relacione os pais com isto. Desculpem, mas qual é a investigação? Só está a investigar o suspeito. Quer chegar a uma teoria de rapto e, se possível, que Brueckner confesse. Mas, conhecer o processo português... Não quer ouvir falar dele. 

Existem alguns mistérios que se têm vindo a adensar acerca de Maddie. Por exemplo, porque é que não se sabe a data de nascimento exata da menina?

A polícia britânica chegou a essa conclusão logo no início e chegaram a suspeitar de que o pai de Maddie não fosse Gerald. Depois, concluíram que é através de testes de ADN. É incompreensível como é que num país como o Reino Unido, alguém nasce num hospital e somente é registado dois meses depois. Estamos a falar de uma filha de um casal de médicos. Não sei o que se passou.

Curiosamente, na noite de 3 de maio de 2007, o telemóvel da mãe de Maddie tem o registo de uma chamada recebida do marido, mas no telemóvel deste não existe o registo da chamada efetuada. Porquê?

Foi apagada. 

Redigiu também que se diz que a probabilidade de Maddie ter saído morta do apartamento é bastante reduzida, mas, desde o primeiro momento, acreditou que ela morreu no mesmo.

Essa hipótese é forte porque são essas indicações que, por exemplo, os cães britânicos dão. Aqueles que detetam odor a cadáver e vestígios biológicos nunca falharam antes e, portanto, não iam falhar em Portugal.

Michael W., “que terá tido treino militar, está ligado à área das novas tecnologias da informação”, sendo que se diz que tem “ligações com a indústria farmacêutica” terá vindo para Portugal apoiar os pais de Maddie. Acredita que este homem interveio de algum modo na ocultação de provas?

Na altura, não investigámos isso corretamente. Na altura, apareceu numa fotografia num jornal português, com o pai da criança desaparecida, na praia, junto às rochas, de manhã cedo, e não devia estar à procura de lapas ou nada parecido. Andavam a fazer alguma coisa ou queriam conversar mais sossegados fora de um espaço mais fechados onde seriam facilmente controlados. Há pessoas no meio disto ligadas a serviços secretos, que sabem controlar com a contra-informação e ter as devidas cautelas. Este indivíduo é interessante porque, a dada altura, no período em que se pensa que o corpo de Maddie possa ter sido transportado no carro, ele aparece como condutor do mesmo. Tem o cuidado de o dizer logo, que está lá como condutor mas nunca conduziu o carro. Há ali um período em que parece que chega a estar cá em Portugal sem os pais da criança estarem. Fala-se de um batizado no Reino Unido, penso que dos filhos dele, e tem de se saber se foi marcado à pressa ou não.

Sempre defendeu que Kate e Gerry McCann são culpados da morte da criança e de ocultação de cadáver. Defende também que a menina morreu acidentalmente no apartamento e que, depois, os pais esconderam o corpo numa arca frigorífica, sendo que os cães-polícia britânicos encontraram odor a cadáver e a sangue no apartamento e num carro usado pelo casal. A seguir, terão cremado Maddie escondida no caixão de outra mulher britânica. 

Não morrem pessoas anglicanas no Algarve todos os dias. Nem que sejam cremadas. Ou que vão para aquela igreja. É possível que tenha havido ali um acelerar de qualquer coisa quando se soube que estava um corpo na igreja e era uma boa oportunidade para. Não estou a acusar ninguém de nada, mas sim que a polícia, em termos da investigação, tem de pensar de forma lógica. Que esse indivíduo aparece como um estratega de, não tenho dúvidas. A ligação à indústria farmacêutica leva-me para outro campo: qual foi o papel do medicamento Calpol no meio disto tudo? 

Até porque não foi possível, por exemplo, ouvir o avô da criança quanto ao uso regular deste fármaco.

Não sabemos o histórico de saúde desta criança, pois podia ter problemas cardíacos, imaginemos. O que está em causa? Laboratórios farmacêuticos ou os pais de Maddie? Eu não sou de teorias da conspiração, mas há aqui coisas estranhas que têm de ser bem investigadas. Com o tempo que já passou, a PJ devia ter reunido todos os investigadores que trabalharam no caso, com uma assinatura de um termo de confidencialidade, e discutir o caso. 

Os pais foram vistos a rezar e tinham a chave da igreja. Elucidou que estes indícios, assim como aqueles de que falámos há pouco, “continuam válidos, e assim estarão até que a investigação consiga concluir o contrário”. Isto foi suficientemente averiguado? 

Não. A polícia só teve conhecimento da situação do funeral da tal senhora anglicana depois de setembro de 2007. Lembro-me de que em 2008 ou 2009 falei com uma jornalista italiana, que estagiava cá, que tinha apontado no caderno dela a data correta em que alguém chegou ao pé dela e disse "Isto aconteceu. Estava ali o cadáver de uma senhora, houve o funeral e viram-se dois ou três vultos com um saco pesado a entrar pela lateral da igreja à noite". Ela apontou tudo, falou com os colegas mais velhos e eles disseram "Ah, esquece isso, és muito nova para estas coisas". Já falei com agências funerárias e, pelo tamanho da criança, e pelo da senhora que faleceu, era possível ser colocada debaixo do corpo, nomeadamente, das pernas da senhora sem que fosse detetado. Esse corpo foi para Ferreira do Alentejo ser cremado.

As cinzas foram entregues à família?

Sim, mas não se encontra nada nas mesmas em termos de ADN. 

Alguém falou com os familiares?

Ninguém. E é fácil saber quem é: está confirmado que houve esse funeral e terá sido em meados de junho.

E ainda acha que o corpo de Maddie esteve numa arca frigorífica?

Eu não acho, a lógica e o raciocínio fazem-nos pensar dessa forma. Admito todas as outras hipóteses, mas esta não é descurada. Mas não se pode avançar para uma enquanto a outra está em aberto.

Terá estado quanto tempo na arca?

Tendo em conta o sangue encontrado na bagageira do carro, esteve, pelo menos, quinze dias congelada. Se a forma de ocultação do cadáver teve a ver com este funeral, a morte ocorreu muito mais cedo e a única hipótese é ter sido conservado. 

Então porque é que o rapto terá sido encenado tantos dias depois?

Estar morta há mais tempo é uma hipótese. O tal senhor Michael, de que falámos há pouco, é casado com uma prima da mãe da criança. Na altura, existia um padre anglicano na igreja, mas que só lá esteve dois ou três dias. De imediato, veio um padre dos EUA e tanto ele como a mulher são vizinhos da sogra de Michael. Pode ter vindo dar apenas e só o apoio espiritual. Relativamente ao dia: o alerta do desaparecimento teria sempre de ser dado antes da ida para Inglaterra. E tinha de ser dado atempadamente. O último tempo foi mesmo a quinta-feira porque na sexta era a véspera da viagem. Mas até pode ter ocorrido que a menina desapareceu mesmo no dia 3 de maio à noite. Era mais uma das noites em que estava sozinha com os irmãos.

A certo momento, questiona-se, no livro, acerca da hipótese de terem continuado a jantar e beber alegremente sabendo que a filha estava morta. Isto seria possível?

É tudo possível, mas deram-nos uma janela de oportunidade curta, venderam-nos um quadro: disseram que foi assim e assado. Ainda há pouco falámos de que a última pessoa que viu a criança viva, o senhor David, diz que tal aconteceu ao fim da tarde. Há suspeitas relativamente a ele. Quem mostra este quadro à polícia são os responsáveis pela guarda da criança e, portanto, há sempre que desconfiar daquilo que nos dizem. Nada é certo. Quanto ao à-vontade das pessoas sei que, pelo menos, o pai da criança, cardiologista, tem um grande autocontrolo. Qualquer um deles está habituado a relacionar-se com a morte. Ninguém pode assumir que a criança estava viva ou morta quando saíram para jantar.

“Os pais não insistiram, nem parecem ter incentivado, para que os membros da família, e outros próximos da criança, colaborassem no processo de investigação. E nada fizeram para que os amigos participassem na reconstituição dos factos”. Quão bizarro isto é?

A Scotland Yard fez uma reconstituição com atores, sendo que um deles era ator pornográfico. Temos de ir buscar as pessoas e verificar as reações das mesmas.

Como no caso da Joana Cipriano, em que o tio mostrou a arca frigorífica e até objetos cortantes como um serrote.

Sim. O tio disse "Nós matámo-la". Para chegarmos a estas conclusões, temos de ter as pessoas. E, no Caso Maddie, fizeram desaparecer o testemunho de Jane T. Ela era aquela que fumava, vestia-se de púrpura e estava à porta do apartamento porque uma das filhas estava doente. De onde estava, não via, como diz, o homem a descer a rua com a criança ao colo. Só vê se essa pessoa vier no sentido contrário e passar por ela. É possível que tenha visto e pensado que reconhecia a pessoa. Chegou a dizer, a uma funcionária do Ocean Club, que não via nada porque tinha árvores à frente dela. Ela, ao longo dos anos, ia sempre acrescentando algum ponto, mentia muito.

A determinado momento, esclarece que podemos pensar “que Jane T. sabe mais do que disse, porventura, suspeita ou sabe” quem era o homem que avistou. Teve medo de admitir que era Gerald?

Ela sabe mais. Acerca dessa pergunta, acredito que esteja como a família irlandesa: pensa que viu alguém parecido com o pai de Maddie. E a própria polícia inglesa confirma isto. Eu pergunto se Brueckner é parecido com Gerald. Tanto que compararam fotografias antigas e nunca nenhumas de 2007. Se ele tinha sido preso em Portimão, em 2006, haveria pelo menos a fotografia tirada à entrada da cadeia.

Como seriam tão díspares, não interessariam.

E, por isso, quando os ingleses e os alemães publicaram a fotografia de Brueckner, a mesma estava a preto e branco. 

No capítulo 19, recorda que “em Portugal, no caso de investigações criminais, a atividade de detetives privados é proibida”, no entanto, os mesmos estiveram sempre presentes na investigação. Frisa que “estavam contratualmente arregimentados para investigarem um rapto, apenas e só rapto”.

Não tenho dúvidas nenhumas quanto a isso. O que é necessário desses detetives privados é conhecer os contratos, aquilo que lhes foi pedido e os relatórios que elaboraram para que a polícia conheça tudo. Imaginemos que, ao lerem o processo, manobraram a polícia relativamente a Brueckner. Qual o interesse?

“Um grupo de investigadores elaborou um documento pormenorizado com as suas dúvidas e remeteu as conclusões à PGR, a 28 de fevereiro de 2019”. Concluíram que Maddie morreu entre 29 e 30 de abril. Porque é que esta análise nunca foi valorizada?

Acho que nunca fizeram nada relativamente a isso, mas tal leva-nos a outro ponto: posso não concordar com as datas, mas é um trabalho muito bem feito. Foram enviadas à polícia e aos jornais fotografias, nomeadamente, a da piscina que não bate certo com o tempo que fazia na altura. Como se quisessem que Gerald aparecesse como um bom pai que até acompanhava os filhos na piscina. Pegam na fotografia e, como aquele não era o estado do tempo no dia 29 ou 30 de abril, recorrendo aos satélites, dão a entender que ainda estaria viva nesses dias. Mas deixam em aberto a grande questão: será que não aconteceu nada antes de?

Foi mantendo conversas com colegas seus que também não concordam com “o fim abrupto das investigações”. Estes permaneceram em silêncio por temerem represálias?

Não é isso. Parece-me que só querem mesmo paz no sentido de "Não nos chateiem muito, queremos estar sossegados". São pessoas que desejam o tal encontro dos investigadores do caso. 

No final do livro, oferece um leque variado de sugestões às autoridades portuguesas, britânicas e alemãs. Pensa que serão seguidas? Ou tal não acontecerá porque poderiam chegar a uma verdade inconveniente?

Não sei se chegariam à verdade mas, pelo menos, ficariam próximos da mesma. Porque é que eu falo sobre estas diligências no livro? Porque ninguém me ouviu, ninguém me perguntou nada. Nem a mim nem a outros colegas. Não querem que as coisas avancem. Lembro-me de um caso, nos Açores, quando o doutor Fernando Negrão era o diretor nacional da PJ, o homicídio de um sapateiro. Numa das visitas, falou disto e o caso foi reaberto. Quando cheguei lá, na primeira ou na segunda comissão, estava nas Velas de São Jorge, tínhamos uma linha de investigação diferente da dos outros colegas. Peguei no telefone, liguei ao Francisco Moita Flores, que tinha trabalhado no caso, e perguntei-lhe qual era a opinião dele. Afirmou sempre e continua a afirmar que, para eles, o suspeito era fulano tal. Mas nem conseguimos provar o contrário e o caso teve de ser arquivado e ainda hoje está por ser resolvido. É importante falar com quem esteve envolvido na investigação. Não se aprende nada, no desaparecimento de Maddie, falando com ingleses e alemães. 

“A criança misteriosamente desaparecida merece uma investigação objetiva e séria e não um monstro costurado a esmo, ou seja, mal costurado”. Tal alguma vez será obtido?

Começo a ter dúvidas. Isto vai depender da decisão do TEDH. Se for contra o Estado português, vai como que parar. Se for favorável, arranjarão outras histórias e confusões e nunca mais teremos essa tal investigação objetiva e série. Não tenho dúvidas de que aquilo que tem vindo a acontecer está relacionado com aquilo que acontecerá neste âmbito: no Caso Maddie, só não chegamos à verdade por uma questão meramente política. Parece que, na política, ninguém se preocupa com aquilo que está a acontecer. 

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