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Viver na Rua. "Acho que metem compridos na comida, prefiro ser eu a comprar a minha"

Viver na Rua. "Acho que metem compridos na comida, prefiro ser eu a comprar a minha"

Mafalda Gomes Joana Faustino 16/08/2021 14:52

Existem centenas de pessoas na cidade de Lisboa que vivem em condição de sem-abrigo. Seja em tendas, em casas improvisadas com material encontrado ou debaixo de uma arcada, a capital vê frequentemente novas pessoas sem um sítio digno para dormir. 

Passa pouco das oito da noite e Lucinda e José estão à porta da discoteca Lux, em Santa Apolónia, à espera das carrinhas que distribuem comida. “A ver se eles trazem o frango”, comenta Lucinda. “O frango? Hoje é quinta feira, não é dia de frango”, corrige David, que chega pouco depois.

Lucinda mora num pequeno quarto em Alfama, “não são só turistas que vivem lá”, conta ao i. José também tem a sorte de ter um teto sob o qual dormir, mas todas as noites se juntam, no mesmo sítio, para receber ajuda alimentar.

O homem de 64 anos explica que foram muitos aqueles que deixaram de viver nas tendas que se dispõem em fila por baixo das arcadas que cercam o espaço de diversão noturna: “A Santa Casa não quer ninguém na rua”.

David tem o seu próprio quarto mas não é lá que passa as noites: “Não me deixam levar para lá a minha menina e por causa dela eu durmo aqui”, esclarece, referindo-se à cadela bem cuidada que traz pela trela. Lady tem um ano e meio e é a sua melhor amiga. “Era de um amigo que foi preso, mas nem com ele esteve tão bem tratada”.

Rui (nome fictício) é uma das centenas de pessoas que vivem em situação de sem-abrigo na cidade de Lisboa. Há mais de dois anos que vive com a incerteza de não saber onde vai dormir na próxima noite, sendo o refúgio mais habitual as arcadas de lojas e monumentos que se espalham pela capital.

Encontramo-lo no Rossio e conta-nos a sua história. Tem 34 anos e era “vendedor comercial no estrangeiro”. Perdeu o emprego há dois anos e, com isso, perdeu também a casa e os amigos: “Todos disseram que não me podiam ajudar”, lembra. Acrescenta que quando os vê passar na rua, “viram a cara e fingem que não conhecem”.

“Andámos juntos na escola, crescemos juntos e ignoram-me. Mesmo que não me possam ajudar podiam perguntar: ‘Olá, amigo, estás bem?’”, lamenta Rui.

Contrariamente ao que acontece com Lucinda, José e David, Rui não usufrui da ajuda alimentar disponibilizada quer pela autarquia, quer por diversas associações. “Acho que eles metem comprimidos lá dentro”, explica, “prefiro ser eu a ir comprar a minha comida”.

Conta que todas as noites, “por volta das duas da manhã”, se dirige a restaurantes para poder aproveitar alguma da comida que sobrou do dia e que acaba por ir para o lixo. No entanto, ultimamente as coisas não têm corrido bem: “Às vezes, eles metem lixívia para que nós não possamos comer. Há um restaurante na Alameda que todos os dias deita fora cerca de 30 frangos, chego lá e os 30 frangos estão cheios de lixívia”.

Tal como Rui, dezenas de outras pessoas passam as suas noites por baixo das arcadas da estação de comboios do Rossio. O entusiasmo dos turistas recém-chegados, desejosos de conhecer a capital, contrasta quase de maneira amarga com a sorte dos que ali dormem.

Por toda a cidade, de maneira mais ou menos escondida, aparecem abrigos e tendas a que alguém há-de chamar de casa. Desde a Expo até Alcântara, são muitos aqueles que se cruzam no nosso caminho quando este é percorrido à noite. Nem sempre é por não terem uma casa onde ficar – por vezes as condições oferecidas não contemplam tudo aquilo que lhes traz um pouco de conforto.

De volta a Santa Apolónia, José confessa acreditar que “as pessoas que estão habituadas a dormir na rua já não vão a lado nenhum”. Como exemplo disso dá David, que chegará daqui a pouco.

Mas David tem uma opinião diferente. Explica-nos que, daqueles que dormiam debaixo daquelas arcadas, ele foi dos poucos que ficaram. “Agora têm dado quartinhos às pessoas, só que, como não aceitam animais, eu prefiro dormir aqui com a minha Lady”.

A Lady aproxima-se, como que a tentar perceber se representamos uma ameaça. Apesar de reagir bem à nossa presença vê-se que é em David que está o seu ponto de conforto. Quando chegamos mais perto, encosta-se às pernas do dono. O sentimento é claramente recíproco: “Ela está sempre comigo, é a melhor coisa que eu tenho”, diz David, com um sorriso carinhoso. 

A zona de Santa Apolónia é uma das mais escolhidas por aqueles que se encontram em situação de sem-abrigo para pernoitar. Mas não é a única. No Oriente, as janelas do Pavilhão de Portugal ganham durante a noite uma nova vida. Cada uma delas é sinónimo de casa para alguém e, como tal, ninguém mais pode ali entrar.

Esta parece ser uma das “regras” que aprendemos ao conversar com quem mora nas ruas capital: apesar de poderem estar acessíveis a todos, os pertences de cada um não deixam de ser propriedade individual. Durante o dia, é provável que vejamos sacos de cama ou malas com roupa ou comida sozinhos nalgum canto de Lisboa. Na sua maioria dos casos, têm um dono que, simplesmente, não está por ali e confiou que, quando voltasse, os pertences ainda estariam no lugar.
Quem percorrer o trajeto entre o Cais doSodré e as Docas de Belém fica na dúvidas se as diversas tendas que se encontram pelo caminho estarão ou não habitadas. A discoteca Lust in Rio, em Santos – que em tempos de pandemia foi convertida no restaurante e bar Lá no Rio –, tem do seu lado direito uma tenda há já vários anos.

Dela entram e saem gatos, mas o mesmo não se pode dizer de pessoas. Pelo que o i sabe, quem lá vive sai de manhã para ganhar algum dinheiro e passa o dia fora. 

Apesar da sua aparência descuidada, a “casa” parece ter sido construída com cuidado. Todas as peças foram escolhidas por terem algum motivo especial para estar ali. Desde um caixote do lixo de rua a fazer de porta, até aos lençóis que o cobrem de uma ponta à outra, o abrigo assemelha-se a um forte construído por uma criança. E, tal como qualquer outra casa, também esta está decorada para que o sentimento de pertença a um lugar esteja mais presente.

Mais de 7000 De acordo com Henrique Joaquim, coordenador da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-abrigo (ENIPSSA), existiam em 2019 cerca de 7100 pessoas em situação de sem-abrigo a nível nacional. Os dados foram recolhidos em 2020, com referência ao ano anterior e fazem a distinção entre duas condições associadas à situação de sem-abrigo: sem teto e sem casa. A segunda é a mais comum: na prática, trata-se de pessoas que se encontram “numa resposta de alojamento temporário ou de transição ou de caráter mais definitivo, mas ainda com apoio institucional”, explicou à agência Lusa Henrique Joaquim no início deste ano. Já uma pessoa “sem-teto” é aquela que vive na rua, num edifício abandonado ou num alojamento de emergência, por exemplo.

O coordenador da ENIPSSA explica, no entanto, que ainda não existem dados suficientemente claros que permitam perceber se a pandemia levou mais pessoas à situação de sem-abrigo. Aquilo que afirma é que “uma das coisas que esta pandemia veio trazer e pôs a nu foi um conjunto de pessoas que estava em condições de significativa vulnerabilidade, com contratos de trabalho não muito consistentes ou com condições de trabalho também muitas vezes vulneráveis”.

Henrique Joaquim adiantou ainda que sabe de situações concretas “de pessoas que efetivamente caíram nesta condição por via da crise que foi gerada em resultado da pandemia, à semelhança do que aconteceu com outras crises no passado”.

Relativamente ao perfil das pessoas nesta condição, o responsável afirma que a maioria se mantém nos cidadãos do sexo masculino, na faixa etária dos 40 aos 45 anos e de nacionalidade portuguesa, “mas também um número com algum significado de cidadãos estrangeiros ou há pouco tempo no país”.

Em termos de distribuição geográfica a nível nacional, Henrique Joaquim adiantou que mas de metade das pessoas em situação de sem-abrigo se encontram em Lisboa e no Porto e quase dois terços nas áreas metropolitanas destas duas cidades, havendo ainda “um número significativo no Algarve”. Contudo, é ainda necessário referir que existe “um número significativo de concelhos que não registam qualquer caso ou menos de cinco casos”.

 

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