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Desafio do mel congelado. "O que aconteceu a ‘comer comida como deveria ser comida?’"

Desafio do mel congelado. "O que aconteceu a ‘comer comida como deveria ser comida?’"

DR Maria Moreira Rato 12/08/2021 19:53

Encher uma garrafa com mel, colocá-la no congelador, esperar que o alimente solidifique e consumi-lo é a base do novo desafio que surgiu no TikTok. No entanto, as professoras universitárias de Nutrição norte-americanas Dana Hunnes e Lisa Young explicam, em declarações ao i, que “o próximo desafio alimentar pode ser ainda mais perigoso”.

Depois de ter contribuído para a popularidade de desafios como o da Baleia Azul e do Homem Pateta – de cariz suicida – ou o “blackout challenge”, em que era proposto que as crianças e os jovens sustivessem a respiração até desmaiarem, o TikTok é agora palco do Desafio do Mel Congelado (em inglês, Frozen Honey Challenge). A mais recente tendência baseia-se na imitação de Dave Ramirez, um utilizador da plataforma que decidiu comer mel congelado.

No vídeo que originou este desafio, veiculado a 9 de julho, é possível ver o jovem a apertar um frasco com as duas mãos e a comer um grande pedaço mais ‘sólido’ que o mel regular. No entanto, já há até variações: mel congelado decorado com rebuçados, com molho sriracha ou com chá. Há até influencers que receberam patrocínios para levarem a cabo a “façanha” com determinados produtos.

Para Dana Hunnes, professora assistente na Jonathan and Karin Fielding School of Public Health da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, “os alimentos são facilmente acessíveis, estão prontamente disponíveis e são relativamente baratos” e não é de estranhar que “o distanciamento social e as interrupções na cadeia de abastecimento dos supermercados e mercearias também possam dificultar a obtenção de outros itens” e levem a que os utilizadores recorram a alimentos para criarem desafios como este.

Em declarações ao i, a também dietista esclareceu que “os problemas de saúde mental podem manifestar-se de várias maneiras, como por meio do uso excessivo de álcool, drogas ou alimentos” e “certamente, as mudanças na nossa vida quotidiana podem afetar o nosso relacionamento com qualquer coisa que ingerimos”, adianta, referindo-se às alterações provocadas pela pandemia.

Apesar de o consumo do mel ser associado a efeitos secundários como hiperglicemia, dores de barriga e até diarreia, a autora de Recipe for Survival. What You Can Do to Live a Healthier and More Environmentally Friendly Life (em português, Receita para Sobreviver. Aquilo que Podes Fazer para Viver uma Vida Mais Saudável e Amiga do Ambiente), que será lançado em janeiro do próximo ano, lembra que o mesmo “também tem uma aura de saúde, por isso as pessoas podem acreditar que não há mal nenhum em consumi-lo em excesso. Mas mesmo muito de algo ‘natural’ pode ser prejudicial para a saúde”, alerta.

Já naquilo que diz respeito ao facto de ser consumido congelado e não à temperatura ambiente, a profissional de saúde formada em Nutrição, mas também em Biologia Humana, Saúde e Sociedade, pela Universidade Cornell, esclarece que o maior impacto negativo em que pode pensar “é a facilidade com que pode ser ingerido ou consumido quando está congelado”, na medida em que não tem de se despender mais tempo a tirá-lo do frasco. “É possível comer grandes blocos de mel. Também pode representar um risco de asfixia se não se tomar o devido cuidado”.

Questionada acerca do facto de Ramirez ter dito aos órgãos de informação norte-americanos que já viu muitas pessoas comerem “doces cilíndricos” em vídeos de YouTube dedicados ao ASMR (na tradução literal, Resposta Sensorial Autónoma do Meridiano), em que práticas como o toque suave em objetos ou os sussurros são utilizados para promover a redução da ansiedade e o sono saudável dos espetadores, Hunnes menciona que o desafio da canela, que consistia em engolir uma colher cheia de canela em pó e aguentar um minuto sem beber água, veiculado nos anos de 2013 e 2014, “representou muitos problemas de saúde devido à inalação de grandes partículas” e adianta que “o próximo desafio alimentar pode ser ainda mais perigoso”. “O que aconteceu a ‘comer a comida como deveria ser comida’”, questiona a docente universitária.

À sua vez, Lisa Young, professora-adjunta de Nutrição na Universidade de Nova Iorque, declara ao i que “muitos jovens são obcecados pela sua aparência, incluindo o seu peso e tamanho corporal” e, portanto, “faz sentido que se virem para a comida”. À semelhança de Hunnes, corrobora que “ficar mais em casa teve consequências positivas e negativas sobre os hábitos alimentares e a relação com a comida”, salientando que o consumo de mel congelado “seria prejudicial para uma pessoa adulta quando consumido em excesso”, sendo que este é “muito prejudicial para os dentes também”.

Na ótica da autora das obras Finally Full, Finally Slim (numa tradução literal para português, Finalmente Cheio, Finalmente Elegante) e The Portion Teller Plan: Eating, Cheating, and Losing Weight Permanently (Comer, Fazer ‘Asneiras’ e Perder Peso Permanentemente), o mel “é uma forma natural de açúcar, mas quando comido em excesso pode ser problemático. Muitas pessoas pensam que está tudo bem porque é natural, mas infelizmente isso não é verdade”, assevera a nutricionista que já esteve envolvida em variados estudos, na Escola de Medicina da Universidade da Pensilvânia, sobre a obesidade. “É importante que façamos um esforço ao nível dos media para parar estes desafios que envolvem alimentos”.

Até à data de fecho desta edição, o vídeo de Ramirez, em que questiona “quem foi o primeiro a fazê-lo”, isto é, a colocar uma garrafa com mel dentro do congelador e esperar que solidifique, já tinha sido visto mais de 900 milhões de vezes.

 

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