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Contra a covid, testar, testar

Contra a covid, testar, testar

Ana Paula Serro 10/08/2021 09:48

O programa de testagem implementado pelo Técnico representou um elevado esforço financeiro para a instituição, mas contribuiu de forma inequívoca para garantir uma vivência tão segura quanto possível nos seus campi  em tempos de pandemia...

Em outubro de 2020, no arranque de um novo ano letivo que se previa ir decorrer em plena pandemia, a Universidade de Lisboa (ULisboa) decidiu implementar nas suas escolas diversas medidas para prevenção, contenção e mitigação da covid-19, de forma a garantir o funcionamento das atividades letivas e não letivas dentro da normalidade possível. A par de uma série de medidas genéricas, que foram igualmente adotadas em diversas instituições públicas (e.g. uso obrigatório de máscara, medição da temperatura corporal à entrada dos edifícios), a ULisboa anunciou um programa de testagem em massa da infeção por SARS-CoV-2, dirigido a todos os seus estudantes, professores, investigadores e pessoal técnico e administrativo, que se iria estender durante todo o ano letivo.

O Instituto Superior Técnico (a escola de maior dimensão da ULisboa, com mais de 11500 alunos) foi pioneiro no arranque deste programa. Em menos de três semanas operacionalizou toda a logística necessária à realização dos testes. Alocou os meios humanos (uma equipa com cerca de 50 pessoas), técnicos e materiais para garantir o processo, nomeadamente as inscrições, colheitas, análises, comunicação dos resultados, rastreio e acompanhamento posterior.

Os testes, totalmente gratuitos para todos os membros da comunidade do Técnico, foram realizados a pedido dos próprios (por motivos como sintomas, contacto próximo com positivos ou para realização de viagens/missões), ou por convocatória aleatória, modalidade implementada para ajudar a identificar eventuais casos de infeção entre indivíduos assintomáticos. Foram criados postos de colheita em todos os campi do Técnico (dois na Alameda, um no Taguspark e um no CTN – Campus Tecnológico e Nuclear, em Sacavém), com profissionais de saúde especialmente contratados para o efeito, e montado um sistema de gestão de utentes, o qual viria a ser mais tarde substituído pela plataforma da ULisboa, para centralização dos resultados.

Até março de 2021, realizaram-se exclusivamente testes PCR, em virtude de o Técnico ter um laboratório (IBB-CTN) credenciado e registado no SINAVE, com capacidade para o fazer, que desde o início da pandemia havia colaborado com o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social na testagem em lares e creches, a par de outras universidades e centros de investigação. Além disso, a Escola estava também envolvida na produção de kits de testagem para PCR (no âmbito de um consórcio com a UAlgarve, Hidrofer e Logoplaste, criado alguns meses antes para fazer face à escassez deste tipo de dispositivos médicos no país), e como tal dispunha dos mesmos a preço de custo. Durante seis meses foram realizados cerca de 6000 testes, sendo que o Técnico nunca suspendeu a testagem, mesmo durante o período de confinamento, por forma a apoiar a sua comunidade que continuou a trabalhar nos diferentes campi nessa fase mais crítica (e.g. na investigação, em serviços essenciais como o Laboratório de Análise de Águas do Técnico, ou em serviços mínimos de caráter administrativo).

Em abril último, a fim de garantir a segurança da sua comunidade na reabertura das atividades presenciais (aulas laboratoriais, avaliações e todos os serviços de apoio), a Escola lançou o programa “Técnico Regresso Seguro”, reforçando amplamente a sua capacidade de testagem, graças a um acordo firmado entre a Direção-Geral do Ensino Superior e a Cruz Vermelha Portuguesa, que permitiu às universidades obterem gratuitamente testes rápidos de antigénio. Na primeira semana do programa foram realizados mais de 2400 testes, mas até ao final de julho foram realizados no total cerca de 9000 testes rápidos. Embora numa proporção residual (cerca de 3,6%), mantiveram-se os testes PCR, para confirmar os resultados dos testes rápidos positivos e dar resposta a situações em que esse tipo de testes é mais recomendado ou imprescindível.

Nos mais de 15000 testes realizados ao longo deste ano letivo foram identificados 219 casos positivos. Os contactos de proximidade de cada membro positivo foram de imediato rastreados e informados pelos serviços do Técnico, tomando-se as medidas necessárias (e.g. limpeza e desinfeção de espaços, realização de testes adicionais) para controlar a propagação comunitária do vírus nos campi e evitar surtos. A fim de apoiar os estudantes nacionais deslocados e internacionais que testaram positivo, o Técnico criou um serviço de acompanhamento e monitorização, ao qual os mesmos podem recorrer para obter informações, apoio psicológico ou até mesmo ajuda para tarefas básicas do dia a dia (e.g., compras de supermercado ou farmácia), estas últimas realizadas por um conjunto de voluntários.

O programa de testagem implementado representou um elevado esforço financeiro para a instituição, mas contribuiu de forma inequívoca para garantir uma vivência tão segura quanto possível nos seus campi em tempos de pandemia, permitindo que aí se pudesse continuar a estudar, investigar ou trabalhar nas melhores condições. E porque de uma escola de engenheiros e cientistas se trata, a própria testagem tem fornecido matéria prima para estudo: das amostras biológicas que, com o consentimento informado dos seus dadores, têm sido usadas para o desenvolvimento de novos testes, ao cruzamento de informação com os resultados da análise de águas residuais para se avaliar a possibilidade de usar este meio na identificação de possíveis surtos, muito tem sido feito neste micro cosmos do Técnico para fazer frente a uma pandemia que segue a par com o país (ver gráfico).

 

Professora do Instituto Superior Técnico / Diretora do Programa de Testagem à COVID-19 do Técnico

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