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Heróis improváveis

Heróis improváveis

Ricardo António Alves 02/08/2021 19:59

“O talento de Bushmiller em criar uma situação cómica nas escassas vinhetas de uma tira, fazendo-o com economia de meios, mas grande legibilidade”

A BD sucede, com alguma frequência, uma personagem secundária impõe-se ao autor ou ser adotada pelo público, disputando com o protagonista o interesse dos leitores: Spirou ou Astérix são bons exemplos: é impossível imaginar este sem Obélix, e primeiro caso, Fantásio subiu mesmo ao cabeçalho, passando a série a apresentar-se como relatando as peripécias de ambos – as aventuras de Spirou e Fantásio. Astérix e Spirou são demasiado corretos e idealizados nas suas qualidades, enquanto Obélix e Fantásio estão cheio de defeitos e isso diverte, até porque vemo-nos ao espelho. O mesmo poderia dizer-se de Tintin e Haddock, Mickey e Donald e outros mais. Uns representam muito do que desejaríamos ser, os outros algo do que realmente somos. Há ainda outros casos curiosos em que personagens vindas do nada tomam conta das séries, relegando os prévios protagonistas por vezes a meros coadjuvantes: Popeye aparece em 1929 em Thimble Theatre, criado uma década antes, tendo Olívia Palito como personagem principal; a figura do livrinho de hoje, Nancy, talvez a criança mais feia dos comics, que destronou e relegou para a insignificância a tia, uma brasa com pinta de pin-up.

Em 1922, Larry Whittington (1903-1942) criou a personagem Fritzi Ritz, uma pura mundana desse período socialmente agitado do pós-Grande Guerra; mas apenas três anos depois, em virtude de disputas de copyright – eram os proprietários dos jornais em que se publicavam estas comic strips quem detinha os direitos de autor, e não os artistas que as criavam –, Whittington foi afastado dando lugar a outro jovem, Ernie Bushmiller (1905-1982). Em 1933, este introduz Nancy na série e pouco depois Sluggo, o amiguinho leal e paciente, inspirando-se Ernie na sua própria infância não muito abonada de filho de imigrantes vivendo no Bronx. Cinco anos mais tarde, em 1938, Nancy passa a protagonista, a tia Fritzi (a tia Glorinha, em português), continua lindíssima, mas remetida ao papel de educadora , nem sempre bem sucedida. 

Nancy não é mignonne como a sua contemporânea Luluzinha, nem uma líder como Mônica, ou inteligentemente contestatária tal a Mafalda. Não, Nancy é uma criança caprichosa, comilona e por vezes desagradável e também esperta – talvez a razão do seu sucesso junto do público norte-americano. Entre nós, os miúdos ficaram conhecidos por Tico e Teca, assim chamados pelos brasileiros, nas revistas que aqui chegavam. 

O talento de Bushmiller em criar uma situação cómica nas escassas vinhetas de uma tira, fazendo-o com economia de meios, mas grande legibilidade foi sublinhado pelos estudiosos e pelos colegas de profissão. Autores como Wally Wood e Art Spiegelman expressaram a admiração pelo trabalho deste veterano, e no ensaio How to Read Nancy? (1988), os autores, Paul Karasik e Mark Newgarden, evocam o minimalismo de Mies van der Rohe a propósito da composição das tiras diárias de Nancy, acrescentando que elas são o modelo mais perfeito das características que deve apresentar uma tira de quadradinhos: equilíbrio, simetria, economia...

Tico e Teca – Especial
Autor Ernie Bushmiller
Edição Idéia Editorial, São Paulo, 1976

BDTECA

Abecedário: B de Batman (Bob Kane & Bill Finger, 1939).

Ver os pais assassinados por ladrões de rua: mais do que vingança Bruce Wayne, nascido em berço de ouro, quer tirar desforço do maldito acaso. Alfred é o mordomo que funciona quase como um tutor, Gordon é o comissário impoluto mas complacente. O milionário playboy esconde o magnífico Batman, único, inigualável. Homem-morcego, atua de noite e o seu vislumbre inflige o pavor a bandidos semelhantes aos que o deixaram órfão nessa Nova Iorque negra que é Gotham City. Por isso, os inimigos de Batman estão para lá destes assalta becos, pilha-galinhas urbanos; são criaturas hórridas – Joker, o Pinguim... –, inquilinos do asilo Arkham, expressões de terror simétricas dessa permanente cicatriz que deambula no breu dos arranha-céus. 

Citação: “Batman é maior do que a soma dos seus ilustradores”. Jacques Sadoul, 93 Ans de BD (1989) – referindo-se a Kane, Adams, Miller, Wrightson e todos os outros.

Época de fogos.

Sobre Querosene, escreve o editor: “Um país / 8 distritos / 10 concelhos / 11 freguesias, um porradão de santos padroeiros – Quando não há nada para fazer, acende-se um fósforo. – Na terrinha, o aborrecimento combate-se com fogo e só há uma forma eficaz de matar o tempo: de uma vez por todas.” Autores: Ana Margarida Matos, André Pereira, Cláudia Sofia, Dois Vês, Eva Filipe, Gonçalo Duarte, Joana Tomé, João Carola, Rodolfo Mariano, Rui Moura e Sofia Neto. Edição Chili com Carne, Cascais, 2021.

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