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Henrique M. Oliveira 27/07/2021
Henrique M. Oliveira


A matriz e o indicador

Uma pandemia não é estática, não obedece a ordens burocráticas nem a discursos políticos, uma pandemia combate-se com medidas reais e efetivas, com informação e comunicação clara, não se combate com atraso e medidas que ninguém compreende, avulsas e que não funcionam...

A 11 de março deste ano fomos surpreendidos com um documento com origem no conselho de ministros. Esse documento balizava o desconfinamento após os acontecimentos catastróficos de janeiro e fevereiro que ocasionaram mais de 9400 mortos por covid-19 e um número indeterminado de outros óbitos por falta de assistência com outras causas.

Um confinamento é sempre a última solução perante um problema como uma epidemia que se espalha de forma descontrolada. O confinamento de 15 de janeiro, depois reforçado a 22 de janeiro com o real confinamento do fecho das escolas, não foi determinado por simples vontade de especialistas, políticos ou do público, o confinamento não é, nem foi, uma decisão entre muitas. Naquela situação de colapso total do sistema o confinamento era a única tábua de salvação do sistema, a última válvula de escape. As opções eram duas, ou o confinamento ou dezenas de milhares de mortes, como Nova Iorque provou.

Antes do confinamento haveria muitas medidas a tomar, medidas que poderiam ter evitado os efeitos altamente negativos sobre a saúde, a educação e a economia, que um descontrolo do número de casos sempre provoca. A primeira medida era um efetivo mobilizar dos recursos do país, incluindo as universidades, para melhorar os sistemas de informação e monitorização pelas autoridades de saúde. No mundo atual a informação é a chave do combate à pandemia, já há um século assim o era. Ricardo Jorge recebia informações por telégrafo de todo o país, os médicos municipais e militares faziam os seus relatórios sobre a pandemia que passou à história com o nome de gripe espanhola.

Pretendia-se com o documento de 11 de março, emanado do conselho de ministros, sair do confinamento causado pelas ausência de medidas de mitigação e monitorização da pandemia. Foi nesse documento introduzida aquilo a que se chamou, erradamente, uma matriz de risco, mas que é um diagrama de fase, que seria uma panaceia para perceber e comunicar a pandemia. Um esquema bidimensional que inclui incidência acumulada a 14 dias por cem mil habitantes, um indicador lento, na linha a que os decisores nos habituaram na “gestão da pandemia” e o Rt, também invariavelmente calculado com um atraso muito significativo e que nos dá, grosso modo, a taxa de variação da incidência, com grande atraso, também, no tempo. A ideia da “matriz”, que começou por ser interessante, cristalizou no tempo, pois a mera incidência e o Rt não dão a medida total do risco de uma pandemia, são funções que não encerram a componente dinâmica. Basta comparar a mesma “matriz” aplicada a febres hemorrágicas, como ébola, ou a constipações, para se perceber que não mede efetivamente o “risco” real, não mede a entrada de variantes com maiores taxas de letalidade nem a evolução da vacina que transforma a doença covid-19 numa patologia com menor gravidade, por clara redução da letalidade.

Para um especialista em sistemas dinâmicos, querer seguir esta matriz como “semáforo” da pandemia nunca fez grande sentido. Uma pandemia não é estática, não obedece a ordens burocráticas nem a discursos políticos, uma pandemia combate-se com medidas reais e efetivas, com informação e comunicação clara, não se combate com atraso e medidas que ninguém compreende, avulsas e que não funcionam, como o encerramento espúrio aos fins de semana da área metropolitana de Lisboa, tomada sem quaisquer estudos científicos de base e sem transparência. As medidas ao nível concelhio fazem sentido se forem aplicadas cedo, seriam assim corretivas mas aplicar medidas com grande atraso deixa de ser corretivo e passa a ser punitivo, muitas vezes quando as incidências reais já tinham baixado.

Para suprir uma clara lacuna na interpretação da realidade e na resposta, a Ordem dos Médicos, através do seu bastonário e gabinete de crise, e o Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, reuniram uma equipa multidisciplinar e puseram-se em campo para criar um indicador feito de forma profissional e científica que pesasse os diferentes pilares da pandemia em Portugal. Foi assim desenvolvido o Indicador de Avaliação da Pandemia, IAP, que combina as já mencionadas dimensões da incidência, transmissibilidade, presentes na “matriz de risco” e que são importantes, e ainda a letalidade, a ocupação de camas em enfermaria geral e em UCI, que nos dão medidas da gravidade real da pandemia. O indicador está construído de forma a dar uma resposta dinâmica em tempo real do que se passa em Portugal em termos da pandemia de covid-19, de tal forma que este indicador já ultrapassou o seu pico, na semana passada com cerca de 93 pontos, em que 100 é um valor crítico que importa não ultrapassar, e está hoje a 86.3. Um valor que ainda poderá oscilar nos próximos dias, mas cuja trajetória descendente se vai manter, mercê do avanço da vacinação. Sem esta estaríamos agora, apenas considerando as percentagens de gravidade face à incidência atual, quase a 140 pontos, o que significaria mais de uma centena de mortos por dia e obrigatoriedade de confinamento.

Seria, no mínimo, inteligente a adoção de um indicador deste tipo pelas autoridades, o nosso indicador está aberto a contributos e melhoramentos, pois temos a humildade de reconhecer que nestes assuntos não há verdade absolutas.

Mais informações http://groups.tecnico.ulisboa.pt/indicadorcovid19/

 

Matemático, especialista em sistemas dinâmicos, Instituto Superior Técnico,
Lisboa – Escreve utilizando a ortografia pré-acordo de 90


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