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Modelar o Ensino da Engenharia para o século XXI

Modelar o Ensino da Engenharia para o século XXI

Raquel Aires Barros 13/07/2021 09:25

O CISPEE2021 contou com 115 participantes de 12 países, Brasil, Alemanha, Espanha, Itália, EUA, Moçambique, Irlanda, Reino Unido, Chile, Holanda e Austrália, incluindo Portugal, e de 39 instituições de Ensino Superior e Politécnico.

A 4.ª Conferência Internacional da Sociedade Portuguesa de Ensino em Engenharia CISPEE2021 – decorreu de forma virtual de 21 a 23 de junho de 2021, e foi uma organização conjunta entre o Instituto Superior Técnico e a Sociedade Portuguesa de Ensino em Engenharia. Debate, troca de ideias e experiências foram as palavras-chave desta conferência de três dias focada em “Modelar o Ensino da Engenharia para o Século XXI”.

O papel do Ensino Superior e dos professores nas sociedades atuais e futuras, é extremamente desafiante e o programa científico do CISPEE2021 refletiu temas atuais como: a digitalização em engenharia; questões de equidade e ética na avaliação remota; igualdade de género e diversidade em engenharia; estratégias de aprendizagem, liderança e competências em engenharia para um mundo VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo), o desafio ético para a engenharia no século XXI; e espaços de aprendizagem e o futuro dos Campi Universitários.

O CISPEE2021 contou com 115 participantes de 12 países, Brasil, Alemanha, Espanha, Itália, EUA, Moçambique, Irlanda, Reino Unido, Chile, Holanda e Austrália, incluindo Portugal, e de 39 instituições de Ensino Superior e Politécnico. O programa incluiu quatro conferências plenárias focadas, nos desafios atuais do Ensino da Engenharia, 79 comunicações orais distribuídas por 23 sessões paralelas, duas mesas redondas sobre o impacto das TICs na Educação em Engenharia e no envolvimento dos estudantes no ensino e nas oportunidades pós-pandemia, respetivamente, além de vários workshops temáticos com foco nas novas metodologias de ensino, competências transversais e de comunicação.

De destacar a plenária de Amitava “Babi” Mitra, Diretor Executivo do programa “New Engineering Education Transformation” (NEET) e professor do MIT, com o tema provocador, “A Educação em Engenharia está Obsoleta?”. A resposta à pergunta é naturalmente não, mas é essencial Reimaginar e Transformar o Ensino da Engenharia – o que os estudantes aprendem e como aprendem – através de uma abordagem pedagógica moderna, com a integração de competências de liderança e experiências profissionais, incluindo o pensamento crítico e empreendedor. Com foco em novas tecnologias (incluindo construções mecânicas, moleculares, biológicas, informáticas e energéticas) e sistemas que ultrapassem as fronteiras departamentais existentes, e com uma ênfase reforçada na síntese (design e engenharia) dessas novas tecnologias e sistemas. A visão do NEET é baseada em 4 princípios: a educação em engenharia deve focar-se nas novas tecnologias e sistemas que os estudantes construirão no século XXI; os estudantes devem estar preparados para atuar como criadores e descobridores, tendo os fundamentos como base para escolherem uma carreira de investigação ou mais aplicada; devem ser envolvidos ativamente na sua aprendizagem, encontrando o melhor equilíbrio entre a sala de aula, a aprendizagem por projetos e a aprendizagem digital; assim como aprenderem autonomamente e de forma eficaz, de forma a prosperarem no ambiente atual de rápido desenvolvimento científico e tecnológico.

Como Envolver e Motivar os professores para a melhoria contínua do currículo em engenharia, é um aspeto essencial quando se pretende Reimaginar e Transformar o Ensino da Engenharia e formar profissionais para um mundo VUCA. Isabel Hilliger, Diretora Associada para a avaliação da Escola de Engenharia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Chile, apresentou os resultados de um caso de estudo desenvolvido na PUC, focado nos mecanismos para envolver o corpo docente na melhoria contínua do currículo em engenharia. O envolvimento do corpo docente é conseguido, quando o processo contínuo de melhoria e o esforço despendido é visto como uma boa oportunidade para melhorar a forma de ensinar quando apoiado e valorizado pela instituição. Quando a melhoria pretendida se destina apenas a cumprir exigências externas, nomeadamente requerimentos de acreditação e de avaliação, é mais difícil esse envolvimento.

Paralelamente, a igualdade de género é um desafio do século XXI, e é um dos objetivos de Desenvolvimento Sustentável fixados pela Organização das Nações Unidas (ONU). Existe ainda um longo caminho a percorrer para a igualdade de mulheres e homens no século XXI, e a pandemia veio agravar as diferenças. Segundo o relatório de 2021 “Global Gender Gap” do Fórum Económico Mundial, a meta da igualdade de género aumentou de uma geração de 99,5 anos para 135,6 anos, referiu Zita Martins, astrobióloga e professora do Técnico, na palestra dedicada à igualdade de género e diversidade. E especificamente para o caso das STEM, como preencher esta lacuna? Como atrair mais mulheres para as STEM? As respostas a estas questões não são simples e são um desafio de toda a sociedade. O debate tem que ser global, e não só a nível da Universidade, envolvendo a participação ativa de todos, mulheres e homens, e acompanhado de políticas globais e procedimentos eficazes que permitam diminuir estas diferenças.

A Engenharia tem evoluído desde o século XIX, e o foco deixou de ser exclusivamente na gestão e nas questões do mundo físico (edifícios, pontes) para se focar e preocupar mais com o mundo microscópico (genes, bits) e o mundo da informação. Os projetos em engenharia são cada vez mais interdisciplinares, quase tudo o que usamos é dependente de software, e o papel da Inteligência Artificial é cada vez mais relevante no mundo atual, criando no entanto novos desafios éticos com a partilha de dados e informação. Estes foram alguns dos pontos abordados por Arlindo Oliveira, professor do Técnico, na palestra sobre os desafios éticos da Engenharia no século XXI.

Os recentes desenvolvimentos tecnológicos e as rápidas mudanças sociais trouxeram novos desafios para o Ensino da Engenharia, sendo por isso essencial partilhar e disseminar novas práticas pedagógicas e metodologias inovadoras, que estimulem outros professores a experimentarem novas ideias, e que possam contribuir para melhor preparar jovens engenheiros e engenheiras capazes de antecipar, participar e responder aos futuros desafios da nossa sociedade. O CISPEE2021, contribuiu para essa partilha e reflexão para repensar o Ensino da Engenharia e os modelos pedagógicos para a nova Era da Educação em Engenharia.

 

Professora catedrática no Instituto Superior Técnico

 

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