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Suzana Garcia. "Se eu conseguir fazer da Amadora o que Alberto João Jardim fez da Madeira posso morrer feliz"

Suzana Garcia. "Se eu conseguir fazer da Amadora o que Alberto João Jardim fez da Madeira posso morrer feliz"

Mafalda Gomes Ana Maria Simões 21/05/2021 14:33

Quer apostar na educação para reduzir as elevadas taxas de criminalidade no concelho. E promete acabar com as barracas.

 

Suzana Garcia é uma das escolhas mais controversas do PSD para as eleições autárquicas, por inúmeras razões: uma delas é porque é candidata à Câmara da Amadora, onde só chegou há três meses; a outra, não menos relevante, é que Suzana Garcia, de forma voluntária ou involuntária, é dada à controvérsia. Da televisão para a política, o mesmo registo, a mesma persona. Tem planos muito concretos para o concelho governado, desde a sua fundação, por partidos de esquerda – PCP e PS –, que, segundo a candidata, fizeram da Amadora uma Venezuela sem petróleo. Se ganhar, promete transformá-la numa Singapura. Nunca disse o nome de Isaltino de Morais, o autarca vizinho, mas os elogios a Oeiras indicam o caminho para o lugar onde quer chegar na Amadora, ao mesmo tempo que diz que se fizer na Amadora o que Alberto João Jardim fez na Madeira, morre feliz. Muito colada ao discurso do Chega, sente-se, no entanto, desconfortável com a possibilidade de uma coligação do PSD com o partido que só tem um deputado no Parlamento. 

A sua candidatura foi alvo de controvérsia no seio do PSD. Sente-se confortável com isso?

A minha candidatura, e se calhar é por causa da projeção mediática que tem tido, tem um aspeto positivo: a Amadora nunca esteve tanto na imprensa nacional, no mapa mediático, como está hoje, e fico muito contente com isso.

A Amadora está no ‘mapa mediático’ por sua causa? 

Tenho a certeza de que sim. 

E isso é bom?

Para mim não sei se será bom ou não – mas isso é irrelevante –, sei que é bom para a Amadora. Quando nos dedicamos à causa pública, as vantagens positivas ou negativas são absolutamente irrelevantes. Mas, sim, é positivo. Por exemplo, eu nunca tinha visto o Polígrafo [SIC] a falar da Amadora, ou o RAP [Ricardo Araújo Pereira] a falar da Amadora.

A falar da Amadora ou a falar da Suzana Garcia?

A falar da Amadora. Porque ao falarem de mim, ao falarem de uma proposta ou de uma acusação que eu estou a fazer, estão a falar da Amadora, também. E nesse momento, o povo da Amadora está a rever-se naquilo que está a ser dito, e está a dar-me razão. Num dos últimos Polígrafos falaram da questão de mais de metade da população da Amadora não ter médico de família – isso é uma tragédia. Estamos a falar do concelho mais central da área metropolitana de Lisboa, a 10 quilómetros da Assembleia da República, com 182 464 almas, das quais mais de metade está sem médico de família. Isto é uma desgraça...

E tem esses números? 

Tenho, mas o Polígrafo entende que os números não são como eu digo. Quando digo que o Hospital Amadora-Sintra serve 600 mil pessoas, o Polígrafo diz que é falso, porque não são 600 mil pessoas, mas... 581 333, e eu fico contente, porque a Amadora sabe que alguém se preocupou em falar destes números, e eu penitencio-me profundamente pela diferença que vai dos 581 333 aos 600 mil...

Está a dizer que não se incomoda que a imprensa coloque na sua boca as chamadas ‘inverdades’ ou ‘factos alternativos’ se isso lhe servir para denunciar alguns males sociais? Está a dizer que a sua reputação, ou eventuais danos reputacionais, lhe parecem irrelevantes face aos benefícios da sua campanha? 

É evidente que a minha reputação foi construída ao longo de muitos anos e que a estimo. Agora, se ao sacrificarem ardilosamente a minha reputação, significar daí alguma vantagem para o povo da Amadora, aí sim, eu sacrifico-me. 

Mas para essas vantagens serem consequentes tem de ganhar a Câmara, e já lá vamos...

E vou ganhar! A dúvida não é minha, é sua.

Deixe-me ser indiscreta, o que vai dizer a Rui Rio? 

Não faço ideia de qual é a abordagem que ele quer fazer. Não sei se vai começar pelos programas ou por alguma conversa de caráter mais pessoal. Não sei se me vai dizer algumas das coisas positivas que tem dito a meu respeito e que outras pessoas me fizeram chegar...

Tais como? 

Seria de uma falsa modéstia. Mais depressa lhe diria as coisas negativas. Não faço ideia como vai correr a conversa. Mas sei que vai correr bem. 

Há pouco tempo disse que se o PSD desistisse de a apoiar, continuaria com a sua candidatura. Ao mesmo tempo, disse que tinha o apoio do CDS e de outros partidos. Estou confusa, parece mais uma candidata independente? 

Sou uma candidata independente apoiada pelo PSD. E essa independência foi sempre respeitada pelo PSD, enquanto partido político, enquanto partido democrático, enquanto partido que respeita a individualidade de todas as partes que fazem o conjunto da sua força, e isso é muito importante. Não creio que existiam candidatos independentes para coisíssima nenhuma tanto no Bloco de Esquerda como no PCP. O convite que eu aceitei foi o do PSD e a partir desse momento muitos outros partidos têm vindo ter connosco, para me apoiarem e apoiarem este movimento de rutura com 42 anos de governos de esquerda.

O concelho não tem sido sempre governado pelo Partido Socialista ou por uma mulher socialista... 

Deixe-me clarificar, disse que era um concelho governado há mais de 40 anos por políticas de esquerda, não disse se era o PS ou o PCP. No momento da fundação foi o PCP que liderou a Câmara, mas há 24 anos que é o PS que governa o concelho da Amadora. 

Pode estabelecer uma diferença entre aquilo que são políticas de esquerda, as que trouxeram o concelho até aqui, e o que vai fazer, e uma vez que não faz políticas de esquerda, nomeadamente na Saúde...

Antes disso, deixe-me dizer-lhe uma outra coisa: há um bocado disse um concelho governado pelo PS e por uma mulher. Isso para mim é irrelevante, não vejo uma mulher a governar, vejo pessoas capazes ou incapazes, e queria que isso ficasse estabelecido, por eu sou uma feminista, e essa é a diferença entre uma feminista e uma oportunista. 
Muitas pessoas questionam-se por que a escolha para a Amadora recaiu sobre si, que critérios presidiram a essa escolha.

Acha que o facto de estar, atualmente, uma mulher à frente da Câmara da Amadora pode ser dissociado dos critérios que levaram à sua escolha? 

Não estive na elaboração desses critérios, mas acho que não. Revejo também aí o PSD, um partido humanista, que acredita no valor das pessoas independentemente do seu género. Não estive presente nas inúmeras reuniões onde a minha escolha foi feita por unanimidade, quer aqui, quer na distrital, quer em cima, mas não penso que o facto de ser mulher tenha pesado. Penso que devem ter olhado para outros critérios. 

Que critérios? 

Acho que as pessoas sabem do meu percurso e sabem das minhas preocupações essenciais: de segurança, e o meu conceito de segurança não é o conceito que muitas pessoas querem propalar por aí, em campanhas mais populistas. É um conceito de segurança que tem três vertentes fundamentais – sabe que a segurança começa no berço –, e ao contrário do que as pessoas pensam, a segurança não é o polícia, o polícia entra quando tudo falha. Tal como o meu pai, que era cientista, me ensinou, a segurança tem de começar na educação. O conhecimento e a cidadania, a boa formação moral e intelectual de um indivíduo afasta-o dos ilícitos. E a educação é a primeira vertente. A segunda é a igualdade de oportunidades. Posso dar conhecimento e formação, mas se ele não tiver igualdade de oportunidades, não pode florescer. Isso é muito evidente na Amadora, onde temos cerca de cinco mil a seis mil barracas...

Em que ano fez a primeira visita à Amadora? 

Em que ano?! Foi agora, há pouco tempo. A única coisa que conhecia era a Cova da Moura. A primeira vez que fui à Cova da Moura, foi em 2003. Ainda sou do tempo em que se iniciaram as primeiras políticas, feitas pelo António Guterres, de tentativa de trazer à Cova da Moura alguma dignidade...

Mas estamos a falar de governos de esquerda e de políticas de esquerda.

Estamos a falar dessa altura, e, entretanto, de lá para cá o que é que aconteceu? 

Conte-me... As políticas de esquerda, para si, mudaram? 

Não, as políticas de esquerda estagnaram. Quando olhamos para Portugal, e comparando com a União Europeia, evoluímos, não somos o que éramos na década de oitenta, claro que evoluímos, do século XVI até agora evoluímos, mas o critério não tem de ser o de uma evolução mínima. O critério tem de ser qual é a velocidade da nossa evolução, e qual é a velocidade de evolução dos restantes países União Europeia. E é isso que acontece aqui na Amadora. A Amadora fazia parte de Oeiras. Em 1979 há uma cisão, no dia 11 de Setembro, e olhando para o PIB per capita da Amadora dessa altura, era superior ao de Oeiras. Olhamos agora para Oeiras...

Sim, está entre os 10 concelhos mais ricos do país. Mas acha que isso tem a ver com políticas de esquerda? 

Acho. Porque Oeiras investe onde eu vou investir. E vou investir na educação. Como sabe, a taxa de abandono escolar na Amadora é superior à de outros concelhos; 28% das crianças até aos seis anos na Amadora não têm acesso ao pré-escolar. Oeiras, no ano passado, concedeu 800 bolsas de estudo...

Mas, e em termos concretos, o que vai fazer? 

No âmbito da educação, Oeiras concedeu 800 bolsas de estudo, aqui concedemos dez. Nós temos cerca de 102 milhões de euros nas contas bancárias da Amadora – 102 milhões de euros! Eu vou conceder 1500 bolsas de estudo, e essas bolsas não são só para jovens, são também para adultos, as minhas bolsas de estudo não têm limite de idade...

Mergulhou há um par de meses nos problemas da Amadora...

Há três meses. Eu só conhecia a Amadora por estatísticas negativas, tudo o que lia apontava a Amadora como o concelho menos seguro da área metropolitana de Lisboa. A Amadora tem uma taxa mais elevada de violência doméstica do que Loures ou Oeiras. Nos meus planos estão a incrementação do pré-escolar, das bolsas de estudo e da implementação de formação que seja alternativa às faculdades. Temos alguns politécnicos e vou dinamizar a criação de outros. Não quero que os jovens amadorenses tenham necessidade de ir estudar para Lisboa e depois abandonem o concelho. Quero, ainda, fazer um cluster farmacêutico, optei por um cluster farmacêutico e não por um cluster de saúde porque acho que o farmacêutico tem mais oportunidades profissionais.

Mas a Amadora já alberga importantes indústrias nessa área. 

É verdade, temos seis, mas não são suficientes para criar trabalho, tenho de criar o terceiro vértice da questão da segurança: educação, igualdade de oportunidades e emprego.

Passando para a saúde, o que pretende fazer?

Na Amadora temos um investimento feito no tempo de Cavaco Silva, e que diz respeito ao Hospital Amadora-Sintra, que era para servir um determinado número de pessoas. Neste momento serve 600 mil. A gestão da covid-19 na Amadora foi uma desgraça. A OMS recomendava que houvesse um profissional de saúde por cada quatro mil habitantes, na Amadora tivemos um por cada 36 mil para fazer o rastreio. Isso quer dizer que, diariamente, havia 500 pessoas que passavam à margem do rastreio. Quanto aos Centros de Saúde, quero requalificar os que existem e quero construir mais. Um centro de saúde anda à volta de 1,1 milhões de euros, os que tenho preconizados andam à volta de 1,2 milhões, um, e o outro à volta de 1,3 milhões de euros. E vou construí-los. Não vou ficar à espera do governo central.

Falemos agora da habitação. Temos a educação, em que aposta fortemente, a saúde, em que vai requalificar e construir, pelo menos, mais dois centros de saúde...

Não, mais três.

... e temos a questão da habitação, e vai fazer tudo isto sem o apoio do governo central?

Com o apoio de entidades privadas. Nem poderia ser de outra maneira...

E onde vai buscar dinheiro para isto tudo? 

Já fez as contas? Eu já. E a forte componente da habitação passa pelos privados. Já me sentei com eles e já fizemos acordos, bem como com as farmacêuticas...

É candidata à presidência ou uma angariadora de fundos? 

Enquanto candidata à presidência da Câmara da Amadora sou tudo o que for necessário para atingir os meus objetivos. Quando fui falar com a primeira farmacêutica, foi-me dito: nós investimos, mas temos um problema, não há espaço em Lisboa, queremos fazê-lo perto de Lisboa, mas não o vamos fazer na Amadora enquanto aí existirem barracas. 

Vai erradicar as barracas da Amadora, é uma promessa eleitoral? 

Faz parte do meu programa para a Amadora. Quero requalificar o que é requalificável, construir o que é necessário construir e erradicar o que é erradicável. E tenho de criar emprego, tenho de criar, pelo menos, 34 mil postos de trabalho. Se isto tudo falhar, aí, sim, entra a intervenção das forças e serviços de segurança – os polícias. Quando estou num concelho com índices de criminalidade superiores àqueles que existem noutros concelhos limítrofes...

Qual é o papel destinado no seu programa às forças de segurança? 

Quando estou no concelho em que existem níveis tão elevados de furtos de veículos motorizados – somos o principal na área metropolitana de Lisboa –, de furtos a residências, isto são aspetos que transmitem um grande sentimento de insegurança. Neste concelho, é necessário dotar as forças de segurança de recursos para combater a criminalidade, que é uma coisa que nunca foi feita. As pessoas falam das esquadras da Amadora, mas quantas é que já estiveram numa esquadra da Amadora? A primeira vez que estive numa esquadra da Amadora, foi há cerca de três anos...

Como advogada, presumo?

Como amiga das forças e serviços de segurança. 

Diz isso assim... ‘como amiga’? 

Digo. Eu sou amiga de todas as pessoas que são protetoras da nossa ordem e da paz pública.

E se, um dia, as forças de segurança executarem alguma ação onde haja abuso de autoridade...

Farei o que já fiz, que é censurar. Desculpe, nós amamos os nossos filhos, o que não quer dizer que não tenhamos de os castigar quando se portam mal. 

Acho essa analogia complicada, não ama todos os polícias individualmente...

Não falei na expressão amar para me referir aos polícias. No entanto, se há sítio onde não preciso de angariar votos é nas forças de segurança. Porque sempre me posicionei protegendo-os quando eles eram atacados. Ao longo destes cinco anos de vida pública, se há alguém que se bateu pelas forças e serviços de segurança e pelas suas condições, contra a precariedade em que os mesmos se encontram, esse alguém sou eu. 

E essa defesa, quase emocional, não a deixa numa situação de fragilidade quando um dia tiver de reagir, na qualidade de presidente da Câmara da Amadora, num caso de abuso ou excesso de autoridade policial? 

Não. Não me deixa, até por que já o fiz antes. Tanto que não me deixa, que sou eu, e num processo vergonhoso que decorre no Seixal – nunca, mas nunca, representei um elemento das forças e serviços de segurança num processo de violência doméstica...

Esse é o seu limite? 

Não, o meu limite é a verdade. Eu fui confrontada com factos, com gravações de uma pessoa que se portou de forma absolutamente execrável, e sou eu que o estou a acusar. Estou a ir contra ele. E nenhum dos elementos das forças de defesa e segurança pensou que eu estivesse a fazer mal, porque tenho autoridade moral. Se eu os defendo quando eles fazem bem, tenho de ter autoridade moral para os atacar quando fazem mal.

Considera que a sua linguagem é a mais adequada enquanto candidata, não pondera mudar a sua forma de estar ou de falar...

Não! Não! A minha forma de estar na vida é a da transparência e de verdade. Eu não falo ‘politiquês’. Eu falo português. Mais: aquilo de que me está a acusar...

... a sublinhar.

... a sublinhar, foi o mesmo que me fizeram quando eu defendi os professores. Também disseram: ‘a tipa está ligada aos professores’. Estou, também sou amiga dos professores. ‘A tipa está sempre do lado dos médicos’. Estou, e não é por os ter na minha família, a ‘tipa’ de que estão a falar sabe qual é o contributo e os problemas por que passam os médicos. Eu sou de facto amiga – e se isso é conservador, paciência – das forças e serviços de segurança, professores e profissionais de saúde. 

É amiga dos grandes grupos de eleitores.

Ah, são? Não sabia. Mas mesmo antes de estar na política já os defendia. Vou construir a superesquadra da Amadora, dotada de todos os elementos... e digo-lhe qual é o valor da esquadra, são 3,2 milhões de euros. Está a ver como eu estou preparada. E os polícias municipais? São 182 mil habitantes, com 13 polícias municipais, estamos a brincar!

Parece uma piada, de facto. Falou em unanimidade na sua escolha. No entanto houve já alguma tensão, aqui na concelhia, em concreto, com um elemento do PSD, um afrodescendente, e que, por isso mesmo, se retirou...

Ele era afrodescendente? Não sabia. Podia ser lusodescendente, ‘chino-descendente’...

Mas aqui a questão é mesmo essa, é porque ele é afrodescendente e porque não se revê em posições que tem tomado em algumas matérias...

Quais matérias? 

As que têm a ver com um discurso menos humanista, mais extremado, o seu discurso público que criou pontos de contacto, ou coincidentes, com o discurso do Chega. 

Deixe-me resolver esse assunto. Essa é a opinião desse elemento – que fiquei agora a saber que é afrodescendente, desconhecia, pois é um aspeto que não tem qualquer relevância para mim. Quando tenho algum problema com uma pessoa, sento-me com ela, olho-a nos olhos, e coloco as perguntas que tenho de colocar e faço as considerações que tenho a fazer, e a pessoa explica-se. Nunca tive oportunidade de me cruzar com esse senhor. Eu preocupo-me com as essências e não com as aparências. E remeto-me para quem o conhece bem, que são as pessoas que estão aqui, que publicamente disseram que ele estava a ter um ato de parasitismo mediático. 

A senhora é um produto mediático, e esse seu mediatismo pode voltar-se contra si e contra o PSD nacional, ou seja, se o seu resultado for bom, é uma história; se o seu resultado for mau, pode ser um embaraço monumental para o PSD nacional, pode ser tida como o paradigma de uma péssima escolha. 

Ou posso ser tida como o paradigma da escolha mais adequada, que já deveria ter sido tomada há muito tempo. As pessoas querem-me colar à TVI Entretenimento, mas eu não venho da TVI Entretenimento, venho da TVI Informação. Todas as pessoas que se bateram comigo, em espaços informativos, puderam perceber que eu estava muito bem preparada. Não há nada que não aconteça no meu programa eleitoral que eu não saiba.

Mas ainda não percebi em que é que as suas medidas são diferentes das políticas de esquerda, a tais que trouxeram este concelho até aqui, e tão mal.

Permita-me, eu não estou a filosofar, estou a dizer que temos um concelho com 42 anos de políticas de esquerda e o resultado está à vista, e temos, ao lado, concelhos com outro tipo de políticas, que estão a funcionar...

Continuo confusa. Vai ter políticas de direita? 

Vou ter políticas de direita, de centro-direita e, se necessário for, vou ter políticas de esquerda.

Tem noção de que é uma populista típica, que sacrifica a ideologia ao pragmatismo, para dizer o que as pessoas querem ouvir?

Por vezes fico desconfortável com a palavra populismo. Sabe o que significa populismo? 

Sei... Vamos falar da sua infância na África do Sul. Que memórias tem do tempo em que foi branca na África do Sul no regime de apartheid? 

Tinha seis anos quando cheguei, e saí já adolescente. As memórias que tenho é de estar no aeroporto e ver a minha mãe seguir para uma fila e eu seguir para outra. A memória que eu tenho da África do Sul é de não poder brincar com as minhas amigas que não eram brancas. Não, não tenho boas memórias da África do Sul. 

Sabe que neste momento, e por razões que lhe escapam a si e escapam a muitos de nós, o discurso radicalizou-se...

À esquerda, sim, é verdade. 

O que me diz do desafio lançado, esta semana, por André Ventura a Rui Rio, de encontro para analisarem cenários de uma maioria de direita?

O André Ventura lançou algum desafio a Rui Rio? Deixe-me responder: sinto um certo desconforto em estarmos a dar tanto tempo de antena a um partido que tem um deputado no Parlamento.

Tem noção que as pessoas veem em si uma boa interlocutora para um eventual acordo do PSD com o Chega? 

Esse é um problema das pessoas, não é o meu.

Na sua opinião, e naquilo que puder dizer aos órgãos nacionais do partido, o PSD não se deve coligar com o Chega? 

Eu sou uma candidata a uma autarquia.

Não quer responder?

Qual é a pergunta? 

Acha que o PSD se devia coligar com o Chega, replicando, por exemplo, o que aconteceu nos Açores? 

Replicando aquilo que aconteceu com o Bloco de Esquerda e com o PS, é isso? 

Não estamos a falar do BE ou do PS, mas do PSD e do Chega...

Não gosto de geringonças, é um problema meu. Quando nós fazemos coligações dessas ficamos sempre reféns, basta ver o que acontece com António Costa relativamente aos partidos com quem ele se mancomunou, nomeadamente o Bloco de Esquerda...

Está a dizer-me que, tendo em conta o exemplo do PS com o Bloco, acha que o PSD não deve fazer qualquer tipo de acordo com o Chega, é isso? 

Tendo em conta o exemplo do PS com o Bloco e com o PCP, o PSD tem toda a autoridade para fazer o mesmo. Do ponto de vista teórico, toda!

Mas se é mau? Está a dizer-me que o exemplo é mau, mas que, e ainda assim, o PSD pode replicar esse exemplo? 

Ouviu o que eu disse? Do ponto de vista teórico. E agora deixe-me terminar. Do ponto de vista teórico, ninguém tem autoridade para ratificar uma solução como a geringonça, de esquerda, e desqualificar uma solução como a de uma gerigonça de direita. Acho que do ponto de vista teórico, a legitimidade assiste a ambos. Do ponto de vista prático, pessoalmente, não gostaria de governar com as mãos atadas, tendo de estar a fazer múltiplos esforços como aqueles que o PS fez com os outros partidos satélites da geringonça. Mas como eu não tenho perfil para governar, nem é a minha missão governar, a minha missão é aqui, na Amadora, deixo esse assunto para quem quiser tratar dele. 

Pedi a sua opinião, e o que tenho é uma espécie de nem sim nem sopas, do ponto de vista teórico, sim, do ponto de vista prático, talvez...

Não. Não é talvez. Do ponto de vista prático teria muita dificuldade em gerir esse processo, mas eu.

Tem falado, e vezes sem conta, de políticas de esquerda, e tem dito que fará o que for preciso para ganhar a Câmara da Amadora, agora nas mãos do PS. Passando isto para a escala nacional, acha que o PSD deve fazer o que tem de ser feito para formar um governo que afaste o PS do poder?

Não faço ideia de quais seriam os contornos de um acordo desses. Vou ser franca consigo: estou aqui há três meses e tenho tanta coisa para pensar sobre a Amadora...

Se tiver um bom resultado na Amadora...

É verdade, e o que é que os jornalistas vão dizer a partir daí? 

O que vai fazer? Tem ambições no PSD nacional? 

Quando se tornar público o meu bom trabalho na Amadora, porque eu vou fazer o meu trabalho na Amadora...

O que será um bom resultado para si na Amadora? 

É ganhar, é o único. 

O PSD tem vindo a perder votos em eleições autárquicas a partir de 2000, mais coisa, menos coisa. O que a leva a pensar que em 2021 vai contrariar essa tendência? 

Na Amadora, se tiver 20%, já é ter ganho, mas eu não quero isso. A mim escolheram porque eu não me resigno com 20% do eleitorado.

Se a Amadora tiver um bom resultado, mas se o PSD a nível nacional tiver um mau resultado e a liderança de Rui Rio for posta em causa, o que vai fazer? 

Eu fui eleita pelo povo da Amadora, tenho de governar a Amadora.

Rui Rio deve ou não deve fazer uma leitura nacional do resultado das eleições autárquicas? 

Acho que sim, que deve, mas eu também sei que as pessoas que estão atualmente à frente do PSD o vão fazer. 

Quem a trouxe para o PSD? 

Porque é que eu vou responder a essa pergunta? A pessoa que me trouxe é que devia responder. Mas, e por acaso, não foi só uma pessoa, foram três. 

A memória dos guetos sul-africanos influenciaram a escolha da Amadora? 

[Longa pausa... emociona-se visivelmente] Acho que tudo aquilo que sou é uma influência de tudo aquilo que vivi. 

Esta semana, Alberto João Jardim, à sua maneira, lançou uma espécie de desafio a Rui Rio, e falamos de alguém que nunca teve papas na língua, quase sem filtros. Ficava magoada se eu lhe dissesse que me faz lembrar um bocado Alberto João Jardim? 

Nada. Nem um pouco. E se eu conseguir fazer da Amadora o que ele fez da Madeira, posso morrer feliz. 

Odeia estereótipos, como afrodescendente ou mulher loura, já me disse, mas não teme que a sua emotividade a transforme num estereótipo?

O meu pai, que era cientista, sempre me disse que eu não devia ter receio de mostrar as minhas emoções. 

Há uns dias, no programa de humor Extremamente Desagradável, a Joana Marques deu uma explicação para a sua vinda para a Amadora. Sabe qual foi?

Não.

Foi, justamente... amadora. Acha que a Amadora vai fazer de si uma política profissional?

Acho que vou fazer com que a política na Amadora seja muito mais profissional do que tem sido. A Amadora é o resultado das políticas de esquerda. É uma Venezuela, e nós não queremos uma Venezuela, queremos uma Singapura. 

Para a Amadora ser a Venezuela falta-lhe o petróleo, e Singapura é uma cidade-Estado e não é exatamente uma democracia. Essas suas analogias...

Desculpa, mas Singapura é uma democracia, ó senhora jornalista, nem lhe fica bem. É uma democracia!

Se vamos por aí... a Rússia é uma democracia.

E é! Posso não concordar com aquilo que se passa na Rússia, mas tenho de reconhecer que é uma democracia. 

Está a dizer-me que a Rússia é uma democracia? 

Ó senhora jornalista! Quem é que colocou o Putin no poder? 

Sorte a sua que não vive na Rússia, porque senão o PS era mesmo o partido dominante e o PSD nunca seria poder.

Sorte a sua, e sorte a minha, porque também não somos a Venezuela, que tem petróleo e que está como está, porque foram lá aplicadas políticas de esquerda. Os países mais pobres da América Latina são de esquerda e os países mais pobres da União Europeia também são de esquerda. 

Gostaria que o discurso do PSD fosse mais próximo do seu, mais emocional, menos formal...

Não acho que o meu discurso seja um discurso emocional, eu falo português, eu não falo ‘politiquês’, como já lhe disse, as artes e as habilidades do discurso político não são para mim, eu falo para o povo, como pessoa do povo que sou. E o povo entende-me bem. E vamos ver se o povo me quer a mim, também, e aquilo que é o meu projeto para a Amadora. O resto é ruído.

E quanto a resultados, se tiver um resultado entre os 22% a 25%...

Nas últimas eleições tivemos menos de 20%. Acima disso, e para muitos jornalistas, já seria uma vitória, mas para mim não é, porque quero ser presidente da Câmara da Amadora, diria que é uma vitória matemática e uma derrota espiritual, pessoal, pela qual assumirei as consequências.

 

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