13/6/21
 
 
António Galamba 10/05/2021
António Galamba

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Variações em mete dó do problema da manta curta

O país está a transformar-se numa soma de agendas parciais, pessoais, com débil sentido comum, de coesão e de futuro.

As ondas de choque da pandemia vão sublinhar o problema crónico da manta curta dos recursos para as necessidades das pessoas e dos territórios, num quadro de crescente pulverização das referências, dos critérios, dos valores, dos equilíbrios básicos e da diversidade. Por mais bazucas que existam, nunca serão suficientes para superar a mediocridade da ação de alguns decisores alheados da realidade do país, comprometidos com agendas particulares de necessidade política ou de gosto pessoal, incapazes de suscitar impulsos sustentáveis de desenvolvimento com princípio, meio e fim. Por mais urbanos e cosmopolitas que queiram transparecer nunca deixarão de evidenciar a cavernosa insuficiência de ir além da gestão de turno, parcial e sem visão integrada.

O país está a transformar-se numa soma de agendas parciais, pessoais, com débil sentido comum, de coesão e de futuro. É um perigoso deslaçar do mais básico contrato social, alavancado pela vertigem do desprendimento e superficialidade das redes sociais, em que o arbítrio e a indiferença, só geram mais achas para a fogueira. Amiúde não se trata do essencial, mas prosseguem-se agendas e opções parciais a galáxias de distância do interesse geral e da atenção devida a todas as realidades que perfazem o todo nacional.

Portugal precisa de todas as Odemiras, precisa dos imigrantes e precisa de um Mundo Rural onde se consiga viver, que não esteja sujeito a permanentes ofensivas demagógicas e de nicho de grupos de interesses com eco mediático, que fustigam sem apresentar alternativas exequíveis.

Quando o problema não é a vontade de decidir e mobilizar recursos, a questão coloca-se no plano da execução. É assim em Portugal como na União Europeia, com ritmos de resposta à realidade completamente desfasados das necessidades e das dinâmicas das comunidades. Daí que qualquer anúncio de medidas positivas seja esmorecido pela dilação da sua concretização, sendo geradora de desencantos e frustrações que só não são maiores por vida da memória curta dos media e das pessoas. Ou ainda pela estirpe da irresponsabilidade perante as consequências das decisões pouco ponderadas, porque assumidas como resposta a agendas parcelares. Há anos que a situação dos imigrantes é uma realidade em Odemira como noutras partes do nosso território onde a mão-de-obra para os trabalhos mais duros é escassa, por inexistência ou ausência de vontade. Por muito que custe à solução governativa que sustentou o anterior governo (PS, BE e PCP), o que ampliou o oportunismo das redes de mão-de-obra barata e a exploração desregulada foi o facilitismo de uma lei aprovada no parlamento por esse universo. Depois afagaram a consciência com a resolução dos alojamentos em contentores e facilitaram de novo em sucessivas indiferenças com a falta de recursos das autarquias e dos órgãos de polícia criminal, no qual se incluía o SEF para responder ao caldo de irresponsabilidade que tinha sido gerado.

A manta é curta, mas o problema essencial é que a sua gestão é feita sem critério, por incompetentes e intolerantes.

Por responsabilidade de quem decide, de está no espaço público e mediático e do perfil de ligeireza da participação cívica e do exercício da liberdade de expressão, Portugal está a transformar-se num país intolerante.

Intolerante perante a crítica, com crescente agressividade perante a diferença e construção de narrativas inacreditáveis para responder às realidades e desculpar os protagonistas políticos pelas suas decisões, inabilidades e incompetências.

Intolerante perante a diversidade, numa deriva bipolar que consagra direitos de nichos populacionais ou temáticos enquanto pretende proibir realidades que são parte das vivências das comunidades e pilares das economias locais, também com projeções na economia nacional e na coesão territorial. Ninguém é obrigado a gostar de touradas, a compreender a importância que têm para algumas comunidades e os impactos nas dinâmicas económicas de alguns territórios. Ninguém deveria gerir a coisa pública com base em gostos pessoais, preconceitos e tiques de arrogância urbana pseudo-modernista. Infelizmente é o que temos na proposta de contrato de concessão do serviço público de rádio e televisão em que se exclui, proibi e segrega a possibilidade de transmissão televisiva de touradas. A manta foi curta para responder às gentes da cultura, mas para exercitar o preconceito não faltou tecido. Como ser um serviço público universal pudesse ser parcial, sectário e eivado de preconceito contra o mundo rural.

Hoje vive-se a toque de expectativas, da bazuca, da vacinação, do 5G e por essas narrativas efabuladas, mas a cada hora do dia há vida a acontecer, necessidades que precisam de resposta, mas isso é pedir demais a quem, para fugir ao concreto do quotidiano, aponta ao futuro para entreter. O drama é que cada vez que somos chamados a focar no horizonte das grandes proclamações e transições para o futuro, damos oportunidades aos esquemas do presente e podemos espezinhar mais a realidade do quotidiano. A manta é curta, mas é só para alguns. Acordai!

NOTAS FINAIS

NÃO ESTÁ FÁCIL. O General foi-se embora. O Domingos Ferreira deixou-nos. Sem a glória que merecia, perdemos o maior e mais completo organizador de eventos políticos e partidários, com um histórico de concretizações, de impossibilidades logísticas e de soluções criativas sem igual. Além de tudo isso, que já o fazia único, era um ser humano excecional. No sábado, depois de me despedir dele, em Matosinhos, ainda passei pela Figueira da Foz em jeito de memória de quando, num evento da JS, o vento obrigou a que alguns fizessem de contrabalanço atrás do palco, montado junto ao Tubarão, para que tudo prosseguisse. Era a solução que o movia, a falta que isso nos faz. Até sempre General!

NÃO ESTÁ FÁCIL II. A malha fina da realidade dá-nos as razões que a nossa perceção não apreende. Partilhei com o Carlos Bernardes intensos momentos de resposta à emergência e à concretização de soluções depois do fenómeno meteorológico extremo que fustigou Torres Vedras e o Oeste, em dezembro de 2009. Era um incansável defensor da sua terra, sempre com o foco na eficácia e sustentabilidade das soluções, em todos os momentos, mais sérios ou distendidos. Há primeira distração, lá vinha a defesa de Torres Vedras. Incrédulo, percebi tarde a tempestade que lhe tinham montado. Precisamos de estar mais atentos aos sinais e ao que é feito nos partidos e nas comunidades.

Escreve à segunda-feira

 


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