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4 de Maio de 1964. Ah! Nada como viver e conviver nos Olivais Sul!!!

4 de Maio de 1964. Ah! Nada como viver e conviver nos Olivais Sul!!!

Afonso De Melo 04/05/2021 17:16

Com a construção de uma série de novos edifícios, entre prédios e moradias, o bairro dava mais um passo para se tornar dos mais populosos de Lisboa sem perder a característica única de ser um pólo inquebrável de solidariedade.

Ter vivido nos Olivais Sul é como ter um passaporte diplomático. No mesmo instante em que se profere essa notícia, logo alguém conhece alguém que é alguém que nós conhecemos, e tudo isso nos devolve à liberdade de um bairro sem igual, onde abundavam os espaços de convívio e as diferenças sociais se esbatiam numa fraternidade que irá durar para sempre.

No dia 4 de Maio de 1964, uma peça extensa sobre os Olivais Sul era dada à estampa no estilo gongórico da época e trazendo à superfície características únicas de um bairro único: “O agrupamento de casas económicas de Olivais Sul, foi esta tarde visitado pelo subsecretário de Estado das Obras Públicas e pelo presidente do Município que se fizeram acompanhar de diversos técnicos dos seus departamentos”.

Mais um passo de gigante era dado para que os Olivais Sul se tornassem um ponto de encontro e crescimento comum de milhares de garotos dos mais diversos extratos sociais. Maior democracia era difícil. “Aquele importante núcleo encontra-se encontra-se integrado na extensa malha de urbanização de Olivais Sul, ocupando uma faixa de com a área de cerca de 200 mil metros quadrados que se desenvolve ao longo da 2ª Circular, confinando igualmente com a estrada de Sacavém”, explicava a notícia. “A sua construção é efectuada pela Direcção Geral dos Edifícios dos Edifícios e Monumentos Nacionais do Ministério das Obras Públicas, compreendendo 1012 fogos, sendo 800 habitações em blocos de quatro pisos e 212 em moradias unifamiliares de dois pisos”.

População Era igualmente um passo para tornar a freguesia de Santa Maria dos Olivais num das mais populosas da cidade de Lisboa, tendo atingido no último recenseamento, o número de 51.006 habitantes para uma densidade populacional de 4.177,5 hab/km2.

Há que dizer, com orgulho de velho morador e ainda frequentador do Bairro, que os Olivais Sul diferem por completo de toda a rede habitacional da cidade de Lisboa, sendo o facto ainda mais valorizado por ter uma freguesia datada de 1397. A sua particularidade revelava-se e revela-se na multiplicação das pracetas e dos espaços relvados que serviam de local de convívio para a gente da minha geração, convívio esse se se prolongou pelo resto da vida. Lá está, dizer que se é dos Olivais Sul é apresentar um passaporte diplomático que abre a porta de qualquer olivalense.

Em 1964, a intervenção foi grande e marcou o bairro de uma forma única. A Câmara Municipal de Lisboa, ao oferecer os terrenos para construção pelos custos legalmente estabelecidos, permitiu que a habitação nos Olivais Sul descesse para preços interessantes. A empreitada ascendeu a um total de 83.835 contos, incluindo a construção propriamente dita, o custo do terreno urbanizado e a execução dos ramais de água e eletricidade.

Confirmada pela bula do Papa Bonifácio IX, a freguesia de Santa Maria dos Olivais foi doada à capital por D. João I, em troca de serviços prestado à realeza. O documento definia as suas fronteiras: “Todo o território do reino compreendido entre oceano atlântico, por oeste; o mesmo oceano e rio Tejo, pelo Sul; o mesmo rio por leste; e limitado ao norte, talvez, pelo rio Alcabrichel, do lado do oceano, e pela ribeira da Ota, do lado do Tejo”. E Gomes de Brito, numa crónica plena de futurologia, tratou de adivinhar no local em que os Olivais Sul se iriam transformar: “Repositório de juvenis afectos, de crenças pias, de memórias gratas e salutares; e, ao mesmo tempo, o campo santo em que dormiam, sob as lajes mortuárias, pais, irmãos, filhos e esposas, era um fulcro de atração coletiva, de laços firmes e duradoiros”.

Muitos, muitos anos mais tarde, a distribuição das habitações obrigavam os edis a puxarem pelo bestunto. “A distribuição das casas económicas será feita em regime de propriedade resolúvel – no prazo de 25 anos – aos chefes de família beneficiários das instituições de previdência social, funcionários do Estado (civis ou militares), dos corpos administrativos e dos organismos corporativos. Segundo o rendimento mensal do agregado familiar, serão consideradas diferentes classes de casas económicas, correspondendo a várias delas diferentes tipos de habitação”.

Convenhamos que, apesar de tudo, e para a época, compensava viver nos Olivais Sul, embora o bairro fosse claramente periférico. Reparem nas prestações mensais estabelecidas à época: de 250$00 a 330$00; de 350$00 e 450$00; de 500$00 a 650$00 e as mais altas de 985$00 a 1450$00. Acrescente-se, por não ser displicente, que tais verbas incluíam os encargos de seguros de incêndios, desemprego, invalidez e vida.

Os Olivais Sul davam um passo gigante em direção ao seu futuro de bairro ao mesmo tempo popular e circunspecto. Os ministérios da Justiça, da Educação e do Exército, adquiriram edifícios inteiros para instalar os seus funcionários a rendas extremamente baixas, algumas das quais mesmo inexistentes. A criançada misturava-se sem pudores nos extensos espaços livres que se abriam no meio dos edifícios e se tornavam, rapidamente, em zonas de recreação. Acreditem os que lá nunca viveram: ter sido dos Olivais Sul era um vínculo de camaradagem que a vida nunca será capaz de rasgar.

 

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