19/9/21
 
 
António Galamba 26/04/2021
António Galamba

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Os nomes dos jornalistas avençados do saco azul do GES já prescreveram?

Sempre ouvi que quem não se dá ao respeito dificilmente será respeitado. No caso do saco azul do GES, que alimentava alguns jornalistas, a troco de sabe-se lá o quê, houve e há uma convergência de proteção e de silêncio que impede a separação entre o trigo e o joio.

O triunfo da memória curta é infelizmente uma das grandes tendências do nosso tempo, em Portugal. A falta de coerência, como a falta de vergonha na cara, marca o quotidiano de muitas personagens públicas e mediáticas que, a partir do alegado virtuosismo da volatilidade das convicções pensadas e ditas, assumem posições por tudo e por nada, a coberto de uma superioridade moral, ética e profissional que não supera o patamar de fragilidade dos pés de barro.

Por estes dias de Abril passaram cincos anos, meia década, sobre a publicação da notícia do Expresso que dava conta da existência de um saco azul do GES para pagar avenças a jornalistas. 

Com o dito saco azul eram pagos políticos, jornalistas e afins. O foco foi colocado nos políticos, chamados à primeira página, os jornalistas eram mencionados genericamente no miolo da edição e depois disso as trevas, o silêncio e o arquivamento sumário da mancha.

São cinco anos de opacidade, de silêncio corporativo e de sã convivência com uma dúvida de credibilidade que foi generalizada sobre uma classe profissional que, não por acaso, lida com um dos pilares importantes de qualquer sociedade: o direito à informação. O mesmo direito que alicerça a publicação de notícias assentes na violação do segredo de justiça, que concretiza julgamentos na praça pública de situações suspeitas e que amiúde incorre em modelações em função de interesses particulares, do poder aos negócios, da regulação ao mercado sem regras ou com regras só para alguns.

São cinco anos em que assistimos a participantes nas BES Snow Trips assumirem uma centralidade no discurso público moralista, crítico das promiscuidades e desafiador dos poderes, como é o caso de José Gomes Ferreira, da SIC, uma estação que também é um exemplo de cobertura bancária por parte dos diversos donos disto tudo, pelo nível de endividamento da operação, sempre na órbita do regime e dos instalados do sistema.

Sempre ouvi que quem não se dá ao respeito dificilmente será respeitado, seja pelo que pensa, diz ou faz. No caso do Saco Azul do GES, que alimentava alguns jornalistas, a troco de sabe-se lá o quê, houve e há uma convergência de proteção e de silêncio que impede a separação entre o trigo e o joio, pressuposto essencial de erradicação das dúvidas que se abateram sobre a classe, por iniciativa de alguém da classe, com a frágil ação de quem devia salvaguardar um quadro de referência do exercício profissional, desde logo, o Sindicato.

O drama da opção corporativa pela opacidade é que a coloca ao mesmo nível de tantos outros posicionamentos individuais ou funcionais, nomeadamente dos políticos, que são fustigados nas peças e nos comentários destes guardiões do silêncio.

Colocando-se ao mesmo nível de outras práticas e dos comportamentos desviantes presentes na sociedade portuguesa, perdem qualquer autoridade para o exercício crítico dos outros, por via da profusão de telhados de vidro.
Não compreender ou fingir não relevar que uma dúvida desta dimensão não pode subsistir cinco anos é não ter noção de que, num quadro de proliferação de fake news e de informação pouco comprometida com o rigor, a fiabilidade e a confiança são bens essenciais do exercício da profissão.

No limite é o direito à informação que está em causa. O direito de os cidadãos consumidores de notícias saberem quem eram os jornalistas que recebiam avenças do universo BES, porque, tendo-o feito no passado, podem estar a fazer algo similar no presente, enviesando o que está a ser visto, lido ou ouvido como informação confiável.

Ao longo da vida tive oportunidade de lidar com muito trigo jornalístico e de percecionar algum joio. Os primeiros não merecem a persistência da dúvida, porque, no limite, o que está em causa é o direito a um exercício profissional imaculado, sem neblinas. Mas não, quem publicou a notícia nos idos de 2016 insiste em manter o silêncio, qual gato escondido com rabo de fora, à espera de que a comunidade se esqueça por onde andaram nos Verões e nos Invernos passados. É uma irresponsabilidade e um desastre para um dos impulsos de qualquer Democracia, o direito à informação, e para que o procura exercitar com rigor, transparência e sentido de serviço público. A distorção não é um exclusivo de algum jornalismo, mas é lamentável e a senda de opacidade sobre a identidade dos aforrados do BES/GES diz muito do corporativismo quase cinco décadas depois do Estado Novo das Corporações.

É vergonhoso e a falta de vergonha nunca prescreverá.

NOTAS FINAIS

ABRIL SEM ESTADO DE ALMA. As Comemorações de Abril têm perdido alma, energia e sentido de utilidade para a preservação dos valores e da sua importância para as gerações mais novas. Por mais simbólicos e institucionais que possam ser os tributos na Assembleia e o Desfile na Avenida, transformaram-se em pastelões para os que nasceram nestas quase cinco décadas de Democracia e Liberdade. Dentro de um ano, teremos vivido mais tempo em democracia (47) do que em Ditadura (48), o que para além de transportar riscos de perda da memória, deveria implicar uma capacidade de afirmação permanente da vivência democrática, sem polémicas estéreis como se Abril fosse uma espécie de “Clube do Bolinha”, da BD Luluzinha, onde a “Menina não entra”. Aos Democratas exige-se mais ação proativa da valorização da Democracia e menos oportunidades para os populistas.

ABRIL SEM DITADURAS DE GOSTO. A ocasião faz o ladrão. A circunstância de um determinado peso eleitoral, num quadro de ausência de maioria absoluta e de senso, faz o disparate, radical e irresponsável. Parece que o PAN quer os refeitórios escolares sem salsichas, bacon, fiambre e presunto ou qualquer outro produto de fumeiro. Esta gente da alcatifa dos corredores do poder em Lisboa ou no espaço urbano tem noção do país que temos, da importância do que querem proibir para quem vive no Interior e no Mundo Rural. É mais um radicalismo estúpido ou não há neurónio ativo sobre a realidade do país rural e das economias locais?

ABRIL SEMPRE! Mesmo que só 10% acreditem na Democracia plena, o exercício político dê razões ao descrédito e aos populistas e a sociedade esteja com demasiadas distorções.

Escreve à segunda-feira


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