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Uma liderança em xeque nas autárquicas

Uma liderança em xeque nas autárquicas

Bruno Gonçalves Cristina Rita 21/02/2021 09:50

Rui Rio está a frente do PSD há três anos. Afirmação do partido e da sua liderança jogam-se nas eleições de outubro. Exclusão de Nuno Freitas em Coimbra pode ocorrer noutros concelhos. Oposição está vigilante e de olhos postos em 2022. 

Rui Rio completou três anos à frente dos destinos do PSD, mas a gestão de processos eleitorais e escolha de candidatos nas autárquicas podem ditar-lhe o fim do consulado no partido. Tudo depende dos resultados autárquicos, depois das derrotas nas europeias e nas legislativas. 

A fasquia eleitoral não está definida pela direção do partido, «não há números mágicos», como disse numa entrevista ao Observador o presidente social-democrata. Mas a ordem é crescer, minimizar a distância face ao PS (que tem 158 autarquias), e tentar um bom resultado nas emblemáticas câmaras de Lisboa e Porto. No final, se tudo correr mal, já há nomes que podem contar na linha de partida para a sucessão, desde Paulo Rangel a Miguel Pinto Luz. No limite, poderá haver pressões para que Passos Coelho regresse. E aí quem estiver no terreno pode sair de cena para dar lugar ao antigo primeiro-ministro. Em janeiro de 2022 haverá eleições diretas, três meses após as autárquicas.

O discurso autárquico de Rio até parece consensual no PSD, mas a estratégia já ganhou dimensão de polémica. O caso do candidato do PSD em Coimbra pode ser um exemplo, entre vários, em que os sociais-democratas fizeram estudos de opinião e concluíram por outro nome diferente do proposto pela concelhia e distrital. Mais, há quem nas distritais esteja a fazer o seu trabalho, acreditando que não será ouvido (a audição será um mero pró-forma). Dito isto, surgiram ontem duras críticas à direção do PSD e à coordenação autárquica. Nuno Freitas, antigo deputado do PSD, era o nome proposto pela concelhia do PSD de Coimbra e pela distrital. Reuniram com a coordenação (onde se inclui o vice-presidente do PSD Salvador Malheiro e o secretário-geral, José Silvano) na passada quinta-feira à noite. A equipa de coordenação nacional apontou que tinha um estudo de opinião que apontava para um bom resultado do ex-bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, como candidato autárquico. O ex-bastonário é um independente e poderia concorrer enquanto tal contra o PSD. Resultado? A coordenação autárquica vai propor à comissão política o nome de José Manuel Silva para concorrer contra Manuel Machado (do PS) em Coimbra. Nuno Freitas fica arredado do processo. Apesar dos protestos, vai respeitar a decisão. 

Contudo, há um parecer do Conselho de Jurisdição Nacional em que o tribunal do partido advoga que Rio não pode escolher os candidatos às capitais de distrito à revelia das distritais e concelhias. «Sem que haja uma alteração estatutária, não podem os órgãos do partido (CPN, CJN, Conselho Nacional, Congresso Nacional) criar discriminações negativas ou perdas de direitos que os Estatutos não consagraram», respondia a equipa liderada por Paulo Colaço  a 8 de outubro do ano passado, exatamente perante uma questão de um militante sobre o tema. Mais, as comissões políticas concelhias tinham «reserva absoluta de competência na propositura de candidaturas». Assim, a polémica pode, rapidamente, tornar-se não só política como jurídica. Ao que Nascer do Sol apurou, casos como o de Coimbra poderão repetir-se noutros concelhos, dependendo da avaliação, mérito e notoriedade locais dos candidatos – que serão testados em estudos de opinião. E podem surgir mais nomes independentes como candidatos a autarquias, arredando militantes no terreno das candidaturas. Nesta lógica, Rui Rio seria coerente com a estratégia usada nas legislativas. Escolheu figuras ‘fora da caixa’ e nalguns casos independentes como cabeças de lista. 

Mão de ferro nas contas

Nas estruturas concelhias ( e nas distritais) a ordem é esperar. Em alguns casos desesperar, até porque a sede nacional, por instruções expressas do secretário-geral adjunto Hugo Carneiro, emitiu um despacho onde impõe regras muito apertadas para gastos e o máximo de controlo nas despesas. Nas autárquicas tudo terá de ser validado pela sede em Lisboa, desde sondagens, cartazes e até brindes. As contas terão de contemplar a regra da contratação pública de três propostas e quem gastar a mais ou não tiver cabimentação orçamental ( e sem faturas) assume a responsabilidade pela derrapagem orçamental e gastos não previstos. Ou seja, mão de ferro nas contas. Nas estruturas distritais há quem nem se vá dar ao trabalho de submeter orçamentos de sondagens ou estudos de opinião para candidatos, deixando esse ónus e gastos para a sede do partido, em Lisboa. 

Não votar no PSD

Mas a opção por José Manuel Silva em Coimbra criou ondas de choque no PSD. E não foi só em Coimbra. José Eduardo Martins, antigo deputado, antigo secretário de Estado e ex-candidato autárquico em Lisboa, não poderia ser mais duro na resposta a duas perguntas: a avaliação da liderança de três anos de Rio e a exclusão de Nuno Freitas.  «A liderança do Dr. Rui Rio é uma contradição nos termos», declarou ao Nascer do Sol José Eduardo Martins. Por seu turno, o antigo presidente da concelhia do PSD/Lisboa, Mauro Xavier, foi mais longe: «Coimbra não é a minha cidade, mas o Nuno é meu amigo. Dos melhores que o PSD tem. Não volto a votar no PSD enquanto o Rui Rio for líder», desabafou na rede social Facebook. 

Guerra a Moreira

No Porto, Hugo Neto, ex-líder concelhio, pediu, numa carta enviada a  Rui Rio, que afaste os coordenadores autárquicos da equipa, depois dos problemas em Coimbra e do processo no Porto, com um jantar dos coordenadores Salvador Malheiro e José Silvano com Rui Moreira. Que correu mal. Para Hugo Neto, o seu partido foi «achincalhado na praça pública com diferentes versões sobre um namoro com Rui Moreira». E, de facto, este jantar, na semana passada, transformou-se numa novela polémica. Primeiro, surgiu a notícia de repasto, em jeito de troika, para decidir se Moreira iria com o apoio do PSD a novo mandato autárquico. Na versão do PSD, a ideia era a de que o autarca em funções deveria desistir e dar o seu aval e apoio a quem o PSD escolhesse. Na versão dos apoiantes de Rui Moreira, o PSD tentou que houvesse um entendimento para que Moreira surgisse como independente, mas com o símbolo do PSD. O autarca disse não. E ficou claro que será recandidato, mesmo que nunca o tenha dito (ainda). Rio decidiu qualificar o autarca e considerou-o pouco «confiável» depois de surgirem noticias nos jornais do referido namoro do PSD a Moreira. 

A conversa deve continuar, depois do autarca ter dito na TVI24  que Rio «devia ter outra forma de fazer política». Ontem à noite, no Porto Canal, Rio somou e seguiu nas críticas ao acusar Moreira de fazer «das pessoas burras», por insistir na versão de que o PSD o abordou para ser cabeça de lista pelo partido no Porto. Na prática, o PSD ainda não tem candidato e a menção ao antigo vice-presidente da Câmara de Rio, Vladimiro Feliz, numa entrevista ao Observador, pode ser mesmo a opção do PSD. Tal como em Lisboa, a solução pode recair sobre Ricardo Baptista Leite.

Os nomes vão surgindo, mas as reações não. Por agora, a ordem é esperar para ver o que Rio pretende fazer. Até porque o seu destino no partido está ligado ao resultado autárquico. E o líder do PSD tem responsabilidades acrescidas por ter colocado as autárquicas como decisivas para o partido e por ter sido também ele um autarca durante vários mandatos no Porto. A avaliação far-se-á no fim e a oposição interna está praticamente em silêncio, vigilante, para fazer um eventual acerto de contas no fim.  Exceções feitas, por exemplo, a Carlos Carreiras, autarca de Cascais, que considerou a estratégia para as autárquicas como uma «inexistência» num artigo de opinião no jornal i esta semana. O que lhe valeu, na resposta, o epíteto de «incompetente» por parte de Rio ao colar-lhe os resultados eleitorais das autárquicas de 2017, as piores de sempre.  

Na avaliação da liderança de três anos é difícil encontrar quem a queira a fazer em on. Por sua vez, o antigo vice-presidente do Parlamento e antigo deputado do PSD, Guilherme Silva, diz ao Nascer do Sol que Rio tem uma postura « muito própria, na vida pública e na vida política, muito distanciada e diferenciada do padrão comum dos políticos». Essa atitude «constitui uma mais-valia para o PSD, no sentido da seriedade, de colocar sempre o interesse nacional perante o interesse partidário e interesses de outra ordem, e de não ceder, ziguezagueando a momentos propícios para uma intervenção mais fácil, mais crítica, aparentemente mais popular e mais benéfica para o partido, nesta ou naquela ocasião». Ou seja, «não se desvia do seu rumo».

Agora, fazer oposição em tempos de pandemia não tem sido tarefa fácil, sobretudo nos termos tradicionais. Porém, Guilherme Silva reconhece que «a última avaliação é a sempre a popular. Em Democracia é assim. Obviamente que as eleições autárquicas vão ser um teste decisivo à afirmação do PSD». E se as opções de Rui Rio vão ter, ou não, resultados, «vamos avaliar nas autárquicas, que obviamente vão ser decisivas para o futuro do  PSD e da liderança do Dr. Rui Rio», vaticina Guilherme Silva. 

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