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Fake News. O outro vírus que a pandemia alastrou nas nossas vidas

Fake News. O outro vírus que a pandemia alastrou nas nossas vidas

João Amaral Santos 15/02/2021 13:47

As notícias falsas não são uma novidade, mas a pandemia permitiu a ascensão do fenómeno em Portugal. Uma “mão cheia” de grupos negacionistas da covid-19 produzem teorias da conspiração que, depois, se espalham pelas redes sociais através de milhares de seguidores. Quem são estas pessoas? Porque o fazem? E que perigos representam? 

A história ao jeito de anedota já passou pela boca e ouvidos de toda a gente: um indivíduo conduz em contramão numa autoestrada e pelo autorrádio escuta uma notícia inquietante: há um carro que segue naquela via em sentido contrário. “Um? São todos!”, grita o condutor. E hoje conduzir em contramão numa autoestrada está ao alcance de um simples clique.

 As fake news (ou notícias falsas) não são uma realidade recente. Em tempos de guerra e outras crises, a propaganda sempre existiu. O contexto da pandemia tornou-se, porém, terreno fértil para pessoas e grupos que se dedicam à produção e disseminação de desinformação. À boleia de uma opinião contracorrente, a mensagem que difundem conquistou, nesta fase, mais e maior visibilidade – principalmente através das redes sociais, mas também dos órgãos de comunicação social convencionais, muitas vezes “reféns” do critério que, por regra, dita em primeiro lugar o interesse jornalístico: a novidade.

Os negacionistas da covid-19 utilizam as redes sociais como caixa de ressonância. É nesse universo digital que se dedicam a divulgar alegadas “verdades inconvenientes” através de textos e vídeos publicados diária e sucessivamente (e ininterruptamente). Uma torrente de dados, muitas vezes sem ligação, outras descontextualizados, alguns contraditórios, quase sempre dúbios.

As  “fontes” utilizadas são as mais variadas: estudos científicos marginais, testemunhos pessoais de insatisfação, vídeos que exaltam a contestação social e a revolta ou até mesmo opiniões de um número reduzido de personalidades públicas alinhadas com estas posições. Muito poucos destes protagonistas (quase nenhuns) têm, todavia, formação académica ou profissional ligada à área da Medicina. Ainda assim, assumem-se detentores de uma “verdade” que a esmagadora maioria opta por ignorar. E anunciam teorias da conspiração que utilizam para justificar o que se passa no mundo, garantindo que a covid-19 e as medidas dos governos à escala global para combatê-la têm, na verdade, origem e finalidade obscuras.

É assim, usando este registo e discurso, que estas pessoas e grupos arrastam milhares de seguidores, que, por sua vez, assumem a função (sempre voluntária, mas nem sempre consciente) de espalhar os conteúdos através de milhões de partilhas ou visualizações.

A ideia não é exclusiva do nosso país. Na Europa, o fenómeno faz-se sentir, sobretudo, em Espanha e Itália. Mas, na realidade, este problema está espalhado pelos quatro cantos do mundo. Um relatório recente da revista médica britânica The Lancet conclui que, nesta fase, 31 milhões de pessoas em todo o mundo seguem grupos antivacina no Facebook e há 17 milhões de pessoas que subscrevem canais no Youtube semelhantes.

Quem são as pessoas que dedicam grande parte do seu dia-a-dia (senão todo) a produzir fake news? Quem sãos as pessoas, fiéis seguidoras, que se dedicam a partilhar notícias falsas? E, por fim, como funciona o fenómeno por dentro?

Quem são? E porque o fazem? As conclusões são sobejamente conhecidas. No “interior” dos grupos negacionistas, o número de pessoas que produzem notícias falsas e teorias da conspiração relacionadas com a pandemia é de apenas 1%. Ou pouco mais que isso. Por sua vez, o número de pessoas que partilha essa desinformação está estimado nos restantes 99%. Ou seja, as notícias falsas têm origem num conjunto de pessoas muito reduzido, incomparavelmente mais pequeno do que aquelas que vai alcançar, naquilo que é um fenómeno de rastilho. A desinformação dispara e, normalmente, só é travada pelas próprias redes sociais, mas apenas quando são identificadas as consequências reais e graves da publicação – materialmente identificadas, como aconteceu aquando da invasão do Capitólio, nos Estados Unidos.

Mas quem é, afinal, este 1%? Gustavo Cardoso, professor catedrático no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa – Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), diretor do Observatório da Comunicação (OberCom) e coordenador do MediaLab do ISCTE, garante ao i que “estas pessoas [que produzem fake news] têm sempre um determinado objetivo”. “E acreditam verdadeiramente naquilo que estão a fazer. Ou porque julgam estar a ser úteis aos outros ou porque, simplesmente, acreditam que, fazendo o que fazem, estão mais perto de alcançar o seu objetivo – seja profissional, financeiro ou político”, acrescenta.

Além das motivações práticas, o académico não esquece igualmente a própria dinâmica das redes sociais, onde o fenómeno “nasce”. E, nomeadamente, um pecado capital que determina o início ou a continuidade destas ações: a vaidade. “Estas pessoas procuram essencialmente validação social. E as redes sociais vieram precisamente alterar o conceito de valor social e a noção de celebridade. Desde que surgiram, passou a julgar-se que as pessoas são célebres por serem vistas e não por aquilo que fazem ou são. É essa a dinâmica das redes sociais: o objetivo é sermos vistos e ouvidos pelo maior número de pessoas, ganhando popularidade. Seguindo esta lógica, estas pessoas e grupos não estão preocupados se as informações que produzem são verdadeiras ou falsas. Para elas, o importante é somente chamar a atenção”, diz Gustavo Cardoso.

E quem são, então, os restantes 99%? Porque acreditam e, sobretudo, partilham fake news? Daniela Nogueira, psicóloga clínica e psicoterapeuta, explica ao i aquilo que considera ser “um fenómeno social complexo, que tende a aumentar exponencialmente perante momentos de grande incerteza e imprevisibilidade, como o que estamos a viver”.

Daniela Nogueira esclarece que não é possível definir um padrão para descrever negacionistas e que – ao contrário do que as próprias pessoas pensam – acreditar em notícias falsas tem muito mais a ver com o coração do que com a cabeça. E, na maior parte das vezes, é apenas uma forma de lutar contra o desconhecido, o medo e a tristeza. “Todos os seres humanos têm uma necessidade de encontrar explicações para o que nos acontece, isso permite-nos construir uma narrativa que dá coerência à nossa identidade. Perante um acontecimento desconhecido e imprevisível as emoções que emergem habitualmente são o medo e a tristeza, e a forma como respondemos para diminuir o desconforto suscitado por não conseguir arranjar explicações para o que está a acontecer, será pela aceitação de informação (mesmo que falsa) pois dá-nos uma sensação de segurança e de algum controlo da situação. Está assim aberto o caminho para o desenvolvimento das fake news e teorias da conspiração, que, no contexto da pandemia atual, nunca antes experienciado, torna-nos a todos potenciais alvos e potenciais disseminadores de notícias falsas. Não existem tipos de pessoas que acreditam e outras que não acreditam pois as emoções são universais”, descreve.

Ora, as notícias falsas mostram, assim, “um caminho alternativo (ainda que infundado), onde identificam as alegadas ameaças e as contrariam, permitindo assim aumentar a perceção de controlo que foi abalada”, afirma. Além disto, a psicóloga clínica e psicoterapeuta alerta que, socialmente, “tendemos a atribuir responsabilidade de acontecimentos negativos aos outros, como forma de neutralização da ameaça, o que nos ajuda a manter uma imagem positiva de nós próprios e do seu grupo de pertença, e as culpas são atribuídas aos outros” – e no seio destes grupos a opinião cristaliza-se; mesmo que muito distante da realidade.

Os casos portugueses. Durante semanas, o i passou dezenas de horas a visitar e acompanhar pessoas e grupos que se dedicam a negar a pandemia nas redes sociais. Neste universo, as versões da realidade são alternativas. Os números de infetados e mortos por covid-19 são falsos ou desvalorizados e, muitas vezes, até ridicularizados. A mensagem questiona, sem exceção, a gravidade da doença e as medidas de confinamento aplicadas pelo Governo para travá-la. Os outros problemas (sociais e de saúde) são, por regra, mais valorizados; e a pandemia não tem impacto no incremento de nenhum.

Aos argumentos já referidos, somam-se ainda exemplos de presumíveis Eldorados. A estratégia usada pela Suécia para combater a pandemia é frequentemente mencionada e exaltada. Embora, normalmente, sem que a informação chegue completa. Por exemplo, na semana passada, no mesmo dia em que o Governo sueco anunciou a redução para metade dos lugares em comboios e autocarros para prevenir a propagação do novo coronavírus antes das férias de Carnaval e da Páscoa, várias destas pessoas e grupos continuaram a publicar vídeos e artigos do suposto “milagre” que se vive naquele país. E nesse mesmo dia, enquanto Anders Tegnell,  epidemiologista-chefe da Agência de Saúde Pública sueca, confirmava que se deve “evitar juntar muitas pessoas”, vários destes grupos insistam no apelo à desobediência civil e ao regresso à normalidade em Portugal.

O i selecionou quatro projetos que atuam no Facebook e Youtube, com dezenas de milhares de seguidores cada; e milhões de visitas semanais (muitas vezes das mesmas pessoas): Médicos pela Verdade – entretanto suspenso no passado dia 8 –, Quero Emigrar, Notícias de Portugal (ex-Jornalistas pela Verdade) e o blogue e canal do ativista João Tilly. 

Contactados pelo nosso jornal, todos foram unânimes em distanciar-se de motivações ideológicas ou ligações político-partidárias, alegando, por outro lado, que o trabalho realizado visa apenas o bem maior de informar e esclarecer a população. Sobre a pandemia de covid-19, mas também sobre a alegada corrupção que grassa no país. A mensagem política e a oposição ao Governo de António Costa são, porém, omnipresentes.

Em 2013, Alfredo Rodrigues criou o projeto “Quero Emigrar” no Facebook com o objetivo de dar a conhecer a sua experiência e a de outros emigrantes portugueses. Mas, pouco depois, a missão alterou-se radicalmente, depois de despertar para “a corrupção endémica vigente no nosso país”. “O projeto passou a abordar esta temática, no sentido de dar aos restantes cidadãos portugueses informações que lhes permitissem chegar às suas próprias conclusões através das suas próprias investigações. Portanto, em jeito de resumo: no fundo este projeto Quero Emigrar pretende despertar consciências através de informações difíceis de obter nos grandes media em horário nobre”.

Alfredo Rodrigues desdobra-se em vídeos e entrevistas para negar a gravidade da pandemia e, em simultâneo, aumentar o volume das críticas ao Governo e às autoridades de saúde. O Quero Emigrar tornou-se espaço para o pensamento contracorrente. Foi precisamente numa destas entrevistas ao médico negacionista Gabriel Branco que surgiu a ideia de se dar um novo passo: criar o movimento Médicos pela Verdade (no qual Alfredo Rodrigues assumiu o papel de coordenador de conteúdos), com o objetivo de partilhar desinformação sobre a covid-19. E, neste caso, o mediatismo foi enorme.

Margarida Gomes de Oliveira, rosto dos Médicos pela Verdade – entretanto alvo de um processo disciplinar e suspensa por seis meses pela Ordem dos Médicos (pena ainda passível de recurso e, por isso, por executar) –, afirma ao i que “o projeto não é, nem nunca foi político e as ideologias dos seus membros são diversas abrangendo todo o espetro desde a esquerda à direita. Se existem ou não filiações partidárias entre nós não é importante, pois esse nunca foi um quesito para a admissão. A nossa motivação é cívica, científica e clínica nunca foi política, embora o desenrolar dos acontecimentos cada vez tenha menos a ver com ciência”.

A responsável rejeita o epítome de negacionista, considerando-o até “ofensivo e injusto”. “Consideramos a designação ofensiva, pois até dia 20 de março de 2020 ‘negacionistas’ eram todos os que negavam o holocausto nos quais jamais nos incluímos. E consideramos esta designação injusta e de má índole, embora pareça ter vindo para ficar no léxico mundial o que nos parece mais um sinal de quão doente está a sociedade quando, na falta de argumentos, adjetiva aqueles que não compreende, não tem grandeza para aceitar ou não tem conhecimento nem sabedoria para refutar”, diz, acrescentando ainda que a forma como a maioria reagiu ao movimento permitiu-lhe refletir que “para além da sociedade, também a democracia está doente”.

Embora não o admitam abertamente, as pessoas e grupos de fake news que pululam pelas redes sociais têm normalmente ligações mais próximas do que aquilo que revelam. Outro exemplo é o projeto de João Tilly, professor, ativista político, líder da distrital de Viseu do Chega de André Ventura, e profícuo produtor de vídeos de propaganda no Youtube. Neste caso, o registo é de combate e denúncia totais “contra o regime socialista”, que designa de “social-corrupto”. Acusado de ser uma voz da extrema-direita portuguesa, Tilly rejeita: “Não leio críticas nenhumas a meu respeito. Aqui não há extrema-direita nenhuma. Há uma convicção profunda de que Portugal tem sido destruído e delapidado pela autodenominada  ‘esquerda’ dos compadrios, nepotismo e negócios de milhões, que de esquerda nada tem”. “Portugal tem sido empobrecido pela esquerda, apoiada pela extrema-esquerda igualmente anacrónica e sem sentido numa Europa desenvolvida no século XXI. Não existe extrema-esquerda em lado nenhum na Europa exceto em Portugal e Espanha. Qual delas a pior e mais degradante? A esquerda náufraga da história necessita agarrar-se a bandeiras por ela própria fabricadas, como o ‘racismo’ e a ‘confusão de sexos’ para não ser exterminada pela inteligência do século XXI”, afirma. O diálogo adota este registo exclusivamente. A pandemia e a gestão da mesma é, apenas, mais um argumento para “atacar”.

A “culpa” das redes sociais. “Aquilo que é falso, mentira, inverdade, o que não é autêntico, também alimenta o funcionamento do sistema. As próprias empresas lucram com estes fenómenos”, explica ao i Gustavo Cardoso. De acordo com a revista The Lancet, os conteúdo das pessoas e dos grupos de notícias falsas valem algo como mil milhões de dólares de receita anual para as empresas que detêm as principais redes sociais. Perante os lucros, Facebook e outras têm sido brandas.

“O que se tem visto é que só quando há ações reais é que, efetivamente, há uma reação e uma ação por parte destas empresas. Apenas após a invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, depois de morrerem pessoas, é que as redes sociais como o Twitter, o Facebook ou o Youtube decidiram reagir, bloqueando as contas de Donald Trump e de um conjunto de pessoas e grupos que difundiam mensagens e teorias conspirativas. Isto é autenticamente viver no fio da navalha, deixando que as coisas avancem até este ponto”, diz o professor.

Gustavo Cardoso acredita que o futuro imediato representa um desafio para as redes sociais. E o seu compromisso com a sociedade terá de ser, inevitavelmente, assumido de forma diferente do que foi até aqui – a responsabilidade pelos conteúdos que as plataformas albergam tem de ser assumido. “Temos de encontrar um mecanismo para adaptar este sistema dos media. Hoje, as redes sociais são demasiado grandes e, por isso, vai ser necessários os Estados ajudarem neste controlo. É claro que temos de salvaguardar as liberdades e garantias, mas, ao mesmo tempo, temos de encontrar, a médio prazo, ferramentas que nos permitam travar alguns fenómenos que prejudicam o grupo. Temos de impedir a divulgação de desinformação que pode provocar que aconteçam coisas muitas negativas, como já se tem vindo a assistir. Já aprendemos a fazer isso com a televisão, com a rádio e com os jornais e vamos, certamente,  aprender a fazer isso com as redes sociais”, afirma. Mas até onde pode ir a ação das redes sociais para travar estas pessoas e grupos? “O princípio base é a lei. Tudo o que é proibido por lei na vida real é, igualmente, proibido por lei nas redes sociais. A questão que se tem colocado é se nas redes sociais existem pessoas para identificar e, depois, punir quem infringe a lei”, diz o professor do ISCTE-IUL.

 A fechar o diálogo, Gustavo Cardoso deixa, todavia, uma mensagem de confiança, pois embora o fenómeno tenha alastrado com a pandemia continua ainda a merecer o estatuto de marginal: “É verdade que há pessoas que produzem fake news, mas trata-se de um grupo ainda muito reduzido no quadro da população. E isto também vale para as pessoas que partilham esses conteúdos. Ao contrário da democracia, em que a validação é quantitativa, nas redes sociais ela é qualitativa. Quem faz mais ruído parece que se encontra em maior número, mas, na realidade, as coisas não são bem assim. E enquanto não percebermos isto vamos continuar muito preocupados. O problema aparenta ser grande, mas, na realidade, não é assim tanto. As centenas de milhares de ‘likes’ ou de visualizações não correspondem exatamente ao número real de pessoas”, conclui.

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