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Covid-19. País caminha para 7 mil doentes internados esta semana e mais de 300 mortes por dia

Covid-19. País caminha para 7 mil doentes internados esta semana e mais de 300 mortes por dia

AFP Marta F. Reis 25/01/2021 09:10

Hospital de campanha do Estádio Universitário já começou a dar apoio em Lisboa. “Não me admiraria se chegássemos ao final da semana lotados”, diz ao i coordenador. Este domingo voltou a haver filas nas urgências.

Não há tréguas à vista no combate à pandemia e, durante o fim de semana, a preocupação continuou a ser apenas a somar nos hospitais. Se as imagens das filas espaçadas para votar dominaram o dia, a meio da tarde voltava a observar-se cerca de uma dezena de ambulâncias a aguardar a admissão na urgência dedicada à covid-19 no Hospital de Santa Maria, mas há mais pressão do que a que se torna visível na rua.

Ao final da tarde, os tempos de espera para atendimento de doentes urgentes ultrapassavam em muito o recomendado pela triagem de Manchester, mesmo com uma triagem agora mais fina dos casos que são direcionados para as urgências, com o encaminhamento de doentes sem gravidade para atendimento a doença respiratória fora dos hospitais.

Segundo o portal do Ministério da Saúde que faz o acompanhamento em tempo real, no Santa Maria, o tempo de espera para doentes urgentes aproximava-se das duas horas (deve ser no máximo uma). Nos hospitais da periferia, com urgências mais pequenas a servir uma grande fatia da população dos subúrbios de Lisboa, tempos de espera maiores. No Hospital Beatriz Ângelo, em Loures – assim batizado em nome da primeira mulher, médica, que votou em Portugal, em 1911 –, o mostrador do Ministério da Saúde indicava quatro horas de espera para doentes urgentes pelas 18 horas. No Garcia de Orta, também duas horas.

No Amadora-Sintra, o site chegou a indicar 16 horas e, ao final do dia, eram quatro horas de espera para doentes urgentes. Com a maior área de influência da região, a responder a 600 mil habitantes, é agora o hospital da região com mais doentes internados, com 276 doentes com covid-19 hospitalizados este sábado, confirmou ao i fonte oficial do hospital. “Duplicámos numa semana o número de enfermarias covid. O nível mais grave do nosso plano de contingência previa 120 camas e temos 240. Mesmo assim, sábado tínhamos seis doentes internados na urgência à espera de vagas. De terça a sábado transferimos 48 doentes para todo o país”, informou a mesma fonte. Mas os doentes têm alta, são transferidos e os números voltam a subir. No exterior da urgência viam-se ao final da tarde seis ambulâncias, sem muito aparato mas mais do que o habitual, num fim de dia chuvoso e silencioso como são os domingos na envolvente do hospital junto ao IC19, a contrastar com o retrato do interior. Como já tem acontecido noutros picos, o hospital pediu ao INEM para suspender o encaminhamento de doentes urgentes pelo CODU, mas o pedido não foi aceite, o que fazia antever uma noite difícil. Tinha à hora de fecho desta edição já cerca de 70 pessoas a aguardar na urgência quando, noutros hospitais, a pressão era menor. Em Santa Maria, por exemplo, o portal do ministério mostrava dez doentes à espera.

Doentes internados duplicaram desde o início do mês Os especialistas que fazem a modelação da epidemia não conseguem antever nesta altura o momento de pico de casos e internamentos, e esse é um dos problemas maiores nos próximos tempos: que continuem a subir por muito mais semanas. Este sábado, segundo os dados disponibilizados ontem no boletim da DGS, os hospitais passaram pela primeira vez a barreira dos 6 mil doentes internados com covid-19, chegando aos 6119. São agora quatro vezes mais do que no pico de internamentos da primeira vaga, em abril (1302), que só foi atingido quase um mês depois do início do confinamento – agora de novo com cirurgias programadas suspensas para esticar a capacidade nos hospitais, incluindo operações prioritárias, por despacho do Ministério da Saúde. Desde dia 1 de janeiro são mais 3 mil doentes internados, já o dobro dos 2816 doentes que estavam internados no final do ano.

Do total de doentes hospitalizados, 720 estavam no sábado à meia-noite em cuidados intensivos – também o número mais elevado de sempre. No final da semana passada, adiantou ao i o presidente do Colégio de Medicina Intensiva da Ordem dos Médicos, estavam ativadas nos hospitais do SNS 1270 camas de UCI, com ocupação de 90% nas camas reservadas para doentes com covid-19 e 85% a 87% nas camas guardadas para doentes não covid-19, agora reservadas apenas a internamentos de urgência como situações de trauma e cirurgias muito prioritárias – uma folga pequena numa altura em que a capacidade de expansão é já residual.

A manter-se uma trajetória igual à dos últimos sete dias, com ligeiro abrandamento da taxa de crescimento de internamentos face à semana anterior, mesmo assim, ao longo desta semana será preciso arranjar espaço para internar mais 1500 doentes com covid-19, já com o setor privado, social e militares com cerca de 850 camas mobilizadas. Mantendo-se o aumento semanal de 25% que se registou nos últimos sete dias, até ao próximo sábado à noite, o número de doentes internados poderá passar os 7500, podendo chegar-se aos 850 doentes em cuidados intensivos.

Hospital de campanha prepara segundo pavilhão O fim de semana ficou marcado pela entrada em funcionamento do hospital de campanha no Estádio Universitário, em Lisboa. Domingo terminou já com dez doentes transferidos dos hospitais de Lisboa, indicou ao i António Diniz, coordenador da Estrutura Hospitalar de Contingência de Lisboa.

A estrutura hospitalar passa a poder receber doentes estabilizados mas que não tenham ainda critério para ter alta clínica e que poderão concluir o tratamento no pavilhão transformado em enfermaria. António Diniz adianta ao i que para esta segunda-feira há já várias transferências programadas, mesmo tendo ficado os dois primeiros dias aquém do que deram como capacidade máxima (receber os primeiros 20 doentes). “É normal haver um período de adaptação dos hospitais mas, a este ritmo, não me admiraria se chegássemos ao final da semana lotados”, admite o médico, explicando que dos hospitais chegam relatos de grande dificuldade. Para já, o pavilhão tem capacidade para receber 58 doentes, mas António Diniz avançou ao i que já está a ser preparado o segundo pavilhão e que os apoios são bem-vindos. “O equipamento que temos, do oxigénio aos monitores, eletrocardiógrafos, desfibrilhadores, foram conseguidos com donativos feitos por empresas privadas. Nesse aspeto, se mais empresas quiserem colaborar, temos um segundo pavilhão para equipar. É muito bem-vindo”, disse na sexta-feira ao i. Ontem, a preocupação ao final do primeiro fim de semana era que tempo haverá para preparar a segunda estrutura.

Mais de 350 óbitos por dia em fevereiro O número de mortes associado à pandemia atingiu sábado um novo recorde, com 275 óbitos em 24 horas. A mortalidade continua em valores sem precedentes e já houve dois dias com mais de 700 mortes diárias no país, o que nunca tinha acontecido nos últimos 40 anos.

Tal como não se prevê o pico de mortes, também não há previsão para o pico de infeções. Carlos Antunes, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, admite que com algum grau de incerteza, a estimativa aponta para um pic de casos em meados de fevereiro. “O pior é a letalidade, que está já a apontar para um máximo de 360 óbitos diários para o meio de Fevereiro. O que significa, se a incidência tiver o seu pico para a segunda metade de fevereiro, que os óbitos diários poderão continuar a subir para lá desse número, já de si assustador”. Pelas 21 horas já tinham morrido ontem em todo o país mais de 550 pessoas. No ano passado, a 24 de janeiro, houve 380 óbitos no país.

 

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