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Leitor de BD: Um homem faz o que tem de ser

Leitor de BD: Um homem faz o que tem de ser

Ricardo António Alves 04/01/2021 18:05

Não há como os europeus, em especial da escola franco-belga, para os grandes westerns em BD, O género continua vivo e recomendável.

Ambrosius Morgan é um velho cowboy retirado nas neves do Dacota do Norte, fronteira com o Canadá, levando os dias à lareira ou no saloon local, entre biscates no rancho da patroa, Meredith, uma viúva de quem é também amante. Essa vida retirada sem grande história é perturbada quando Ambrosius recebe uma carta do sul, remetida por um amor distante de mais de duas décadas, enviada na incerteza de o destinatário se encontrar ainda entre os viventes. Anna Sant James, “a rapariga mais bonita de San António”, agora também viúva, pede socorro ao antigo amante, dizendo-lhe que este tem uma filha cuja caravana em que partira recém-casada para Oeste, afim de iniciar nova vida, fora atacada e Liza Jane levada para perto da fronteira com o México.
O nosso herói, apesar de retirado e de acabar de saber-se pai em idade quase provecta, decide-se a encontrar o rasto da filha, dando início a uma longa viagem. Montado num belíssimo appaloosa – raça de cavalo com as suas manchas características, oriunda da China mas aprimorada pelos índios Nez-Percés – e uma mula atrás, empreende a travessia do país, de Norte para Sul, até ao Arizona. Pelo caminho, Ambrosius despacha a tiro sete criaturas, escacha um mexicano que maltratava a montada (só o poupa por causa da infeliz e dos famélicos que tem em casa...), são-lhe roubadas as montadas durante uma noite por índios insurrectos. Na manhã seguinte dá por si na companhia de um enigmático papoose, que não tuge nem muge, porém suficientemente útil para ajudar Ambrosius a vencer o deserto canicular, enquanto não encontram um bando de cavalos selvagens que lhes proporcione caminhada mais folgada – episódio que nos dá quatro pranchas primorosas. “Mosquito” ou rapaz-fantasma (ghost kid), como tal fica cunhado, não vá ser o miúdo uma mera alucinação naquela aridez quase sem vida, tanto mais que a poeira do deserto deu-lhe cabo da pouca visão que ainda tinha. À chegada a Nogales soube que a filha fora comprada por dois proxenetas associados dum saloon (têm os dias contados...), e que fugira com um jovem mexicano por quem se apaixonara. A fronteira é atravessada, o México em pé-de-guerra com os indios, acossados pelo presidente Porfirio Díaz, até que finalmente Ambrosius vê terminada essa longa jornada.
Em Ghost Kid, o francês Tiburce Oger (La Garenne-Colombes, 1967) faz um exercício sobre as relações humanas: as amorosas, os vínculos do sangue, a entreajuda, os inimigos. As pranchas são esplêndidas, dinâmicas, com recurso a múltiplos planos, contra-picados em abundância, e há um gosto pelos splashes (vinhetas de página inteira), seis, em 78 pranchas. Outro factor a realçar é a aplicação directa da cor, com recurso ao guache, o que produz um efeito que o computador não permite.
Não há como os europeus, em especial da escola franco-belga, para os grandes westerns em BD, O género continua vivo e recomendável.

Ghost Kid


Texto Tiburce Oger

Desenho Tiburce Oger
Editora Grand Angle, 2020

 

BDTeca

O regresso de Thorgal. Substituir Rosinski e Van Hamme não é fácil, mas Yann também não é um argumentista qualquer e Fred Vignaux, além de poder contar com a supervisão do mestre polaco, já pertence à equipa da séria paralela “Les Mondes de Thorgal”. Neste 38.º tomo da série, Louve, filha do viking extraterrestre e de Aaricia, que tem o dom de comunicar com os animais, é raptada e levada para a ilha de Kalsoy, no arquipélago das Faroés, cujos habitantes vivem subjugados pelo medo das Sélquias, monstros marinhos de formas humanóides femininas, e pelos tributos autoimpostos pelo terror que sofrem. Thorgal – La Sélkie, Le Lombard, Bruxelas, 2020. Um álbum a que voltaremos.


 

Uísque e BD.  Num jantar bem regado, Fix, um comerciante deprimido, conhece um italiano cego, autoridade mundial em uísques, que lhe conta o desafio proposto por um milionário do seu país de encontrar cinco marcas lendárias à volta do globo. Origina-se assim um duo peculiar e viagens que prometem, das Terras Altas escocesas aos mosteiros irlandeses, dos ranchos americanos no Kentucky ao sopé do Monte Fuji, no Japão, Le Tour du Monde des Whiskies en BD, por Stéphane Carrié, Arnaud Delalande e Stéphane Douay, edição Les Arènes, Paris, 2020.

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