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Contas do Governo e dos empresários da restauração e da noite não batem certo

Contas do Governo e dos empresários da restauração e da noite não batem certo

Patrícia de Melo Moreira/AFP João Amaral Santos 29/11/2020 10:21

Governo e empresários da restauração e da noite não se entendem quanto aos números da crise nestes setores. As diferenças são o dobro. Ou... 1800 milhões.

As contas do Governo e dos empresários donos de restaurantes, bares e discotecas continuam a não bater certo. O Governo argumenta que, «nos primeiros nove meses do ano [entre janeiro e setembro de 2020], a quebra de faturação do setor de restauração e similares face a 2019 foi de 1860 milhões de euros». Ou seja, uma descida de ‘apenas’ «31% em comparação com o mesmo período do ano passado».

O Ministério da Economia até vai mais longe, e apresenta termos comparativos com outros setores, concluindo que os restaurantes perderam com a crise menos do que o comércio a retalho de calçado (-39%), ourivesarias (-35), comércio a retalho de bebidas (-40%), agências de viagens (- 74%), animação turística (- 60%), hotéis (-64%) e até ginásios (-35%). 

Contas que ficam distantes daquelas que são feitas pelos empresários do setor, que têm vindo a manifestar-se nas ruas através de ações de protesto organizadas pelo movimento A Pão e Água – a última das quais na última quarta-feira frente às escadarias da Assembleia da República –, para apelar por mais apoios a fundo perdido e pela reabertura dos seus negócios. 

Ao SOL, José Gouveia, um dos porta-vozes do movimento (a par do chef Ljubomir Stanisic), garante que «as contas do Governo não correspondem à realidade». «Na restauração, a quebra é na ordem dos 60%. Não nos podemos esquecer que a lotação dos restaurantes foi reduzida para 50%, mas que também há menos clientes. A confiança dos consumidores diminuiu devido à covid-19 e, depois, há ainda a crise económica que já se começa a fazer sentir. E temos espaços completamente desertos, ainda em pior situação do que aqueles que tiveram esta quebra», explica. Segundo as contas dos proprietários, a fatura já ascendia, no final de setembro, a 3600 milhões de euros. 
Como se explica, então, o desencontro de contas? José Gouveia é perentório: «Não se explicam. Simplesmente, o Governo não sabe fazer contas. O que diz não corresponde à realidade. E está a manipular os números para que a situação, perante a opinião pública, não pareça assim tão má, como é na realidade».

O empresário adianta mesmo que «os restaurantes que não faliram, estão atualmente a prazo, com capacidade para aguardarem apenas mais 30 ou 60 dias, na esperança que se verifique um volte-face nas restrições impostas e nos apoios do Estado que poderão surgir». «E a situação dos bares e discotecas é ainda mais complicada. Estão todos em falência técnica, pois todos têm custos e não têm receitas. As quebras, neste caso, são de 100%, porque desde que começou a pandemia, desde que estes espaços encerraram em março, a faturação é ‘zero’. É para esses números que temos de olhar», afirma. 

Soluções não convencem

Face à contestação no setor, o Governo decidiu apresentar os seus argumentos. O Executivo de António Costa fez contas aos apoios , considerando que a restauração «já recebeu 1103 milhões de euros (523 milhões a fundo perdido) até outubro, o equivalente a 60% da faturação perdida». Neste momento, estão abertas as candidaturas aos programas ‘Apoiar.pt’ e ‘Apoiar Restauração’, aos quais os restaurantes, bares e discotecas podem recorrer até ao final de novembro. O programa ‘Apoiar.pt’, direcionado para as micro e pequenas empresas, está dotado de 750 milhões de euros, dos quais 200 milhões são exclusivamente direcionados para a restauração. O ‘Apoiar Restauração’ reserva, neste caso, 25 milhões de euros como «apoio excecional e complementar aos já em vigor equivalente a 20% da quebra média de faturação registada nos dois fins de semana com restrições mais intensas» (em que vigorou o recolher obrigatório a partir das 13h). A solução, porém, não agrada, uma vez que a contabilização desses 20% será feita com base na média de faturação registada nos 44 fins de semana anteriores (entre janeiro a outubro), quando a atividade era já reduzida, quando comparada com anos anteriores. «É uma medida que não faz sentido nenhum, porque durante esse período vivemos uma fase de confinamento, com uma série de restrições que baixaram abruptamente as receitas. Aquilo que tem de ser feito é uma comparação em relação ao mesmo período do ano passado. Só assim será possível perceber quanto faturam, normalmente, os restaurantes de janeiro a outubro, e qual o valor que terão perdido em 2020, devido à pandemia. E aí fazemos a média aos fins de semana e calculamos o apoio aos restaurantes», defende José Gouveia.

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