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Bordalo, confinado

Bordalo, confinado

Ricardo António Alves 28/09/2020 20:36

Se Stuart Carvalhais (1887-1961) é o pioneiro dos quadradinhos, Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) é o precursor. Um exemplo é este relato em imagens sequenciais, No Lazareto de Lisboa (1881), agora reeditado. Mas já na década anterior publicara uma sátira a propósito de viagem de D. Pedro ii: Apontamentos de Rafael Bordalo Pinheiro sobre a Picaresca Viagem do Imperador de Rasilb pela Europa (1872). Artista de génio, irmão de um outro (Columbano, 1857-1929), como se luz rasante e sombra carregada, tão diferentes foram. A Rafael se deve a criação do retrato arquetípico e pouco lisonjeiro do português, em 1875: o Zé Povinho, de mãos nos bolsos ou manguito disparado e riso alvar.

Nesse ano, Bordalo parte para o Brasil a tentar a sorte, regressando em 1879, sem dinheiro mas com sacos cheios de experiência e histórias para contar; mas a principal viveu-a em Lisboa. À chegada, com uma pandemia de febre amarela a assolar a antiga colónia, o artista é recambiado para o Lazareto, situado em Porto Brandão, cujo edifício se encontra hoje em ruínas: “Ao pousar o pé no torrão natal, no momento de estender os braços à imagem querida da pátria, em vez de ser apertado pelos braços amigos, fui apertado pelos guardas de saúde e metido no lazareto”, recordou no prólogo deste curto álbum.

A narrativa tem três partes: “Recordações”, “A partida” e “No Lazareto”. A aventura brasileira gorou-se, mas o registo é empático, por vezes entusiasmado, outras cáustico. Seria interessante saber se Bordalo trocou algum bate-papo com o grande Machado de Assis, cuja mulher era irmã de Faustino Xavier de Novais, poeta satírico e grande amigo de Camilo, também ele imigrado no Rio... A Rua do Ouvidor esplende no torvelinho de comércio e gente, a capoeira mexe e o assalto já então vicejava. O Primo Basílio passeia-se por lá, amparado por duas coquetes. Já a Lisboa vista do confinamento surge mazorra como o país, “estirado à sombra da fresca laranjeira”, e Rafael a olhá-lo de mãos nos bolsos, à maneira da imortal criatura que engendrou.

Retratos do povo, da burguesia, das elites e da classe dirigente, cá e lá. Umas identificadas (D. Pedro ii, imperador do Brasil, o folhetinista Júlio César Machado), outras por identificar, como o inevitável António Maria Fontes Pereira de Melo, cujo nome de batismo lhe serviu para um dos mais assinaláveis jornais humorísticos da história da imprensa portuguesa, O António Maria (1879-1898).

A edição atual nem sempre apresenta a melhor reprodução de imagem; mas sendo uma raridade bibliográfica e uma obra gráfica de um dos maiores espíritos críticos do Portugal oitocentista, é sempre melhor tê-la do que não. Para os curiosos, está também acessível no sítio da Hemeroteca. Como diria alguém a quem o humor não era estranho, confinamentos há muitos.

NoLazareto de Lisboa

Texto e desenhos: Rafael Bordalo Pinheiro

Co-edição: Museu Bordalo Pinheiro e Pim! Edições, Lisboa, 2020.

 

BDTECA

Que dois... Um casal na casa dos 30, antes amantíssimos, hoje separados e detestando-se, continuam a gerir o restaurante que haviam aberto quando eram felizes. Fumetto italiano, os autores são conhecidos por cá: Tito Faraci, argumentista, entre muitos outros, de Mickey e Dylan Dog; Silvia Ziche nos desenhos, também autora consagrada dos fumetti Disney, e de Lucrezia, uma deliciosa balzaquiana ansiosa. Quei Due, Sergio Bonelli Editore, Milão, 2020.

Passageiras da noite Na Paris ocupada pelos nazis, Arlette sente-se livre, pois acaba de sair da prisão; Anna, ilusionista, acha-se mais protegida no cabaré em que trabalha. As circunstância adversas na agora obscura Cidade-Luz irão aproximá-las. Deux Passantes dans la Nuit, texto de Patrice Leconte e Jérôme Tonnerre, desenhos de Al Coutelis, Grand Angle, 2020.

Sombra e silêncio Nascido durante a ocupação alemã, desta vez na Bélgica, pai de origem alemã e mãe francófona, Didier Comès (aliás Dieter Herman Comes, 1942-2003), considerava-se um bastardo de duas culturas. Autor de um dos grandes livros da BD europeia, Silêncio, narrativa publicada em 1979 na mítica revista (À Suivre) e, entre nós, no semanário Tintin, entre outras obras marcantes, Comès é objeto de uma monografia de Thierry Bellefroid, Comès, d’Ombre et Silence. Edição Casterman, Tournai, 2020.

 

 

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