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Miguel Torga. Mais uma polémica no país das homenagens à bruta

Miguel Torga. Mais uma polémica no país das homenagens à bruta

Diogo Vaz Pinto 18/08/2020 19:10

A junta de freguesia de São Martinho de Anta, vila natal de Miguel Torga, gerou polémica ao “profanar” a raiz centenária de um negrilho que foi como um amigo de infância do poeta, e que este imortalizou nos seus versos.

A praga de filoxera tem condenado os olmos negros – ou negrilhos, como são conhecidos popularmente –, que estão hoje praticamente extintos na nossa paisagem, mas que deixaram marcas, pela imponência frondosa, com aquelas flores pequenas, frutos secos e alados, atraindo aldeias de pássaros, gestações rituais. Um mestre da inquietação, chamou-lhe Miguel Torga, porque teve convivência com um na sua vila natal, São Martinho de Anta (Sabrosa), e lembrando-se dele de sempre, tomava-o como imortal, capaz de adormecer o imenso. Isto até que a árvore centenária foi atacada, acabou definhando quando também o poeta se abeirava do fim dos seus dias. Esperou ainda ver plantado naquele mesmo largo um outro negrilho, e tentou fazê-lo, para que as gerações futuras pudessem conhecer esse modo de ver descer a noite do céu, ou ver erguer-se a madrugada, com o sol a acender-se. Mas o novo negrilho não vingou. Torga manteve com a árvore o diálogo de uma admiração amadurecida, e imortalizou-a ao seu jeito, falando num “redil de estrelas ao luar maninho”, de um “gigante a sonhar, bosque suspenso/ onde os pássaros e o tempo fazem ninho”.

O que ficou foi a raiz, em si mesma uma obra de arte da natureza, diz ao i a filha do poeta, Clara Crabbé Rocha. E esta semana, sob pretexto de uma homenagem no dia em que faria 113 anos, na quinta-feira, a junta de freguesia de São Martinho de Anta, lembrou-se de usar a raiz como base para uma escultura do rosto do escritor transmontano, uma intervenção feita por Óscar Rodrigues. De acordo com o presidente da junta, José Gonçalves, a raiz estava a entrar em podridão, e houve, assim, uma súbita urgência de fazer alguma coisa. Para a filha, trata-se de uma profanação que envergonharia o pai, se fosse vivo, tendo sugerido a tempo que, a ser feita uma homenagem, a raiz devia ter sido preservada, protegida das intempéries por um vidro, e, o poema do pai seria gravado sobre esse vidro, respeitando-se a sobriedade daquela convivência, ao invés de desfigurar a raiz e também o rosto do poeta. E este gesto da junta de freguesia – do qual logo se demarcaram a Câmara Municipal de Sabrosa e o Espaço Miguel Torga – não deixa de ser bastante revelador dessa forma de guerra que, feita sempre em nome de uma ideia de salvação e louvor, atropela tudo com a sua necessidade de pompa, satisfazendo sempre uma volúpia que está na origem dessa infinda e anedótica galeria de aberrações kitsch. E há, no nosso país, uma série de antecedentes em que o poder local resvala de uma posição de prepotência para uma postura de vitimização, tendo o presidente da junta procurando esquivar-se às críticas que a sua decisão produziu, com centenas de pessoas a manifestarem-se nas redes sociais, dizendo que não queria alimentar polémicas. Acontece que, como confirmou a este jornal Clara Crabbé Rocha, quatro dias antes de avançar com a intervenção, o autarca consultou algumas pessoas, não contando provavelmente que a sua iniciativa pudesse ser acolhida senão com entusiasmo e aclamações. A filha do poeta manifestou desde logo o seu repúdio pela ideia, e não tem poupado nas críticas que dirige a José Gonçalves, afirmando que “esta triste forma” de homenagear Torga revela apenas que não lhe leu a obra, Crabbé Rocha lembra que o seu pai deu a São Martinho de Anta a dimensão mítica de um centro do mundo, e que a vila não merecia agora ser puxada para os cabeçalhos dos jornais por causa de uma iniciativa que a expõe ao ridículo. E no que toca a homenagens, a filha de Torga insiste no óbvio: “Todos sabemos que a melhor maneira de homenagear um escritor é lê-lo e dá-lo a ler.” Quanto a esta, acha natural que agora o autarca se dê por contente, uma vez que “teve já o seu momento de glória nas notícias dos jornais”, marimbando-se no resto. E, assim, este incidente fica como mais um na longa lista de homenagens que por cá se vão fazendo à revelia e mesmo à bruta, num sinal de desapreço pelas obras do espírito, cujo prestígio simbólico fica a saque, sujeito ao voluntarismo fetichista de quem acaba ilibado por não saber o que faz.

No poema que Torga dedica “A um Negrilho”, confunde-se com ele, tributando aos seus ramos esses versos que lhe surgem como folhas. Num outro poema, recolhido em “Orfeu Rebelde” (1958), fala nos seus versos como frutos de um sonho, esse que tinha em comum com aquele gigante verde, e apesar da rebeldia, da persistência quase louca de quem se entrega ao seu ofício com uma paixão tantas vezes ignorada, apoucada, sem ceder, no entanto, a essas ânsias de alvoroço, notando que “É quase à queima-roupa que os atiro (os frutos)/ Contra a serenidade de quem passa”. E também a este propósito, da posteridade e das ansiosas homenagens características dos filisteus, vale a pena citar também uma estrofe do poema “Miserere Nobis”, daquele mesmo livro: “E resta-nos a força/ Que empurra os cegos contra a claridade./ Ter confiança é deslaçar metade/ Do nó do tempo que o destino aperta./ Suprema descoberta/Doutros que no passado não desesperaram,/ E foram premiados, e cantaram.”

Miguel Torga é o pseudónimo literário de Adolfo Correia da Rocha: Miguel, em homenagem ao poeta espanhol Miguel de Unamuno e Torga como elo de ligação à sua terra natal, dado ser este o nome de um arbusto abundante em Trás-os-Montes. Poeta, ficcionista, dramaturgo, diarista, distingue-se sobretudo como um dos grandes contistas da nossa literatura. No domínio da ficção, e a par de numerosos e notáveis contos reunidos nas colectâneas “Bichos” (1940), “Contos da Montanha” (1941 e “Novos Contos da Montanha” (1944), preocupados em retractar todo um universo rural carregado de simbolismo e profundo significado moral, é ainda autor de um “Diário” que, de 1941 a 1993, atingiu 16 volumes. Foi o primeiro autor a ser distinguido com o Prémio Camões, em 1989. Teresa Carvalho, colaboradora deste jornal, refere que, em face desta obra, “para onde quer que o leitor se volte, depara com uma escrita viva, viril, muito marcada pelo desejo de uma integridade moral e de uma justiça universal, apegada à terra (sem nunca de fechar em regionalismos estéreis), expressando uma firme ligação do autor de “Poemas Ibéricos” a Portugal, a sua paixão maior”.

 

 

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