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Rosario Castellanos. Face a um mundo de homens, à mulher resta o êxodo

Rosario Castellanos. Face a um mundo de homens, à mulher resta o êxodo

Diogo Vaz Pinto 10/08/2020 12:12

Publicou-se há algumas semanas a primeira antologia poética em português de uma das vozes mais influentes da literatura mexicana. Com uma vida trágica, Castellanos é hoje tida como uma das grandes vozes feministas da literatura latino-americana, um rótulo que ela sempre recusou. 

 

Mal sabemos sequer o começo da história, de tudo o que uma mulher possa desejar ser. Que transformações se seguirão num momento em que os caminhos deixem de lhes estar vedados. Acabamos por falar desse universo interrompido, que se faz das coisas escondidas, de objectos e razões inaparentes, povoado por figuras capazes de se apagar contra o papel de parede mas que, se levadas a isso, podem ser predadores fenomenais. Matar é uma coisa, mas tirar a vida é outra. Ninguém sabe tanto da destruição como quem entende do que se serve a vida a um nível íntimo. Há toda uma História oclusa, cujas páginas só se podem intuir, e que nos falam dos feitos de estrategas que se afinam numa ardilosa discrição, habituadas a reconhecer como as palavras nos traem, denunciam. Em todos nós, na trama de sussurros que comporta o ADN, está essa consciência forçada a representações no escuro. Há esta metade que de tanto ouvir o que dela se espera, esplende nos modos como se esquiva – afia a sua intimidade em esquírola, obrigada tantas vezes a fugir para dar uma hipótese à sua solidão. “Uma mulher caminha por um caminho estéril/ rumo ao mais desolado e terrível crepúsculo. Uma mulher permanece jogada como pedra/ no meio de um deserto/ ou se apaga ou arrefece como um longínquo fogo./ Uma mulher afoga-se lentamente/ num pântano de saliva amarga (...) Uma mulher chama-se solidão./ Chamar-se-á loucura.”

Os versos são da imensamente influente, embora pouco conhecida, poeta mexicana Rosario Castellanos. Foi publicada, há algumas semanas, pela Antígona uma excelente antologia da sua obra poética – “Poemas Escolhidos” – com tradução de Jorge Melícias, a qual é precedida de uma apresentação mais do que insatisfatória assinada por José Rui Teixeira. Mas já lá iremos. O importante por agora, é louvar uma iniciativa editorial que, 46 anos após a morte da autora, nos oferece por fim uma perspectiva sobre uma obra que se cumpriu em diversos géneros, além da poesia, no romance, no ensaio, na dramaturgia e que elaborou sobre o drama e as experiências vividas por ela de forma tão imaginativa e dolorosa, que, muito embora recusasse a inscrição como autora feminista, não pôde esquivar-se a esse signo depois de ter escrito versos como este: “Somos a raça estrangulada pela inteligência”. Ou estes: “Parimos com dor e com vergonha,/ cortamos o cordão umbilical depressa/ como quem se desprende de um fardo ou de um castigo.// É assim que amamos e fruímos/ e ainda fazemos desse festim de vermes/ novelas pornográficas/ ou filmes só para adultos./ E regozijamo-nos de ser segredo,/ de piscarmos os olhos nas costas da morte.”

A forma como desde cedo se passou para o lado dos que são espezinhados, nomeadamente reconhecendo o seu privilégio, enquanto filha de latifundiários no Chipas, um estado a sul, junto à fronteira com a Guatemala, tomando consciência da forma como eram explorados os indígenas, e reconhecendo “a decadência física e espiritual” da sua família. “Cresci numa família que tinha chegado ao fim do seu caminho, solitária, isolada, uma família que perdera o interesse na vida.”

No prefácio José Rui Teixeira diz que, não fosse pela morte do seu irmão mais novo, Benjamin, em 1933, com apenas sete anos, e a infância de Rosario naquela propriedade rural em Comitán teria sido edénica. Na verdade, nem ela nem o irmão viram os pais assumir qualquer correspondência afectiva, travando uma longa guerra em que se antagonizavam e deixavam aos filhos o papel de reféns. A mãe, Adriana, era de origens modestas, provavelmente mestiça, e tinha trabalhado como costureira antes de atrair as atenções de César, o pai, bem mais velho, e o descendente de uma oligarquia das plantações de café. Fez os seus estudos nos EUA e estava envolvido na política local. Entre os tantos empregados indígenas que se ocupavam da residência familiar, Rosario recorda-se de ter tido uma criança maia que era escrava dos seus caprichos, como uma boneca de carne para que nunca estivesse sozinha, e, mais tarde, como quem cose o fio da sua infância e dá com uma fábula cheia de aspectos vergonhosos e absurdos, penitenciou-se pela forma como, nos momentos de tédio, terá chegado a ser cruel com a outra miúda. “Às vezes, a criança era um mero objecto no qual a outra podia exercer a sua frustração: a energia interminável, o enfado, a raiva, o ciúme possessivo que tomam conta de uma criança.”

Muito cedo, Rosario sentiu-se uma criança maldita. Não estando propriamente sozinha, era solitária, e recordava-se do dia em que, quando tinha oito anos, um familiar disse à sua mãe que tinha tido uma visão, e que nela um dos seus filhos morria. Rosario ouviu a mãe, em aflição, deixar escapar: “Que não seja o rapaz!” Algumas semanas depois, Benjamin morreu de uma apendicite, e nos dias que se seguiram, enquanto Adriana chorava, a filha ouviu-a lamentar: “Mas porque me levaste o rapaz e não a miúda?”

Se já era uma criança ansiosa e tímida, deixou-se arrastar pela culpa, e não demorou até que o seu mundo estivesse povoado de sinistros presságios, de um jardim de delicadezas pavorosas, tendo a miúda buscado lugares onde podia chorar sem ninguém a ver, porque se convencera de que os demónios passavam por ela e a possuíam como queriam. Deixou de falar em frente aos adultos, deixava que o seu corpo fosse só o vinco da sua ausência. “Sou filha de mim mesma./ Do meu sonho nasci. O meu sonho sustenta-me.// Não procureis em mim outros filtros senão o meu próprio sangue/ nem subais os rios para alcançar a minha origem.// Na minha genealogia não há mais que uma palavra:/ Solidão.” A isto, a esta impiedosa raiz de onde virá a despontar a sua voz poética, tendo começado a escrever e a publicar os seus primeiros poemas na adolescência, Rosario adianta que o seu passado é uma cicatriz a partir da qual conseguiu discernir os contornos do próprio mundo: “Atrás de mim apenas as memórias apagadas./ Os meus mortos não transcendem os seus túmulos/ e pela primeira vez vejo o mundo.” No mesmo poema, “Muro de Lamentações”, esta poeta que se vê clamando em vão contra o céu, diz-nos: “Porque eu sou daqueles desterrados/ para quem o pão da sua mesa é de outros/ e o seu leito uma imensa planície abandonada/ e toda a voz humana uma língua estrangeira.// Porque eu sou o êxodo.”

A protagonista de um dos seus contos, Águeda, sofre como ela por se considerar feia, pobre material para seduzir um marido, e faz-nos saber como isso é motivo de preocupação numa família com um mirífico legado, e que não tem um herdeiro homem a quem deixar as suas belíssimas plantações, o gado e as tantas propriedades. Águeda acorda à noite com os pais numa guerra de acusações sobre qual dos lados da família é culpado por ter dado origem a esta tão estranha criatura. Talvez por isso, mais tarde, tendo ficado órfã aos 22 anos, Rosario tenha desejado livrar-se simplesmente da maldita herança, doando-a aos índios mexicanos. Mas na adolescência, sujeita àquele cerco aterrador, não pôde fazer mais do que partilhar culpas com as suas personagens, com pequenos crimes espalhados, as formas mais comuns de se chorar quando secam as lágrimas e são precisos outros corpos. Assim, Águeda consolava-se perseguindo pequenos animais, desfazendo lagartixas, tirando ao céu os pássaros. Isto terá confirmado à sua mãe a sensação de que, fosse qual fosse a maldosa compulsão que a criança carregava no sangue teria de ter sido herdada desse lado que adquiriu o gosto por torturar escravos, chicotear índios. A mãe olhava para ela e isentava-se da culpa que impregnava aquela terra e que se respirava no ar como uma maldição, Adriana sentia que a sua linhagem era inocente e dormia melhor recriminando a própria filha.

“Sedenta como o mar e como o mar afogada/ de água salobre e profunda/ venho desde o abismo até aos meus lábios”, escreve Rosario Castellanos. Os seus versos estão obrigados a uma limpeza constante da sua genealogia, e neles o desespero transforma-se neste magistral acto de quem tem de expurgar continuamente a sua consciência dos fantasmas e da culpa misturada nas suas origens, alguém que se vê obrigada a nascer de si própria, e que soube que o lado trágico da existência faria sempre dela a sua boneca, e é isso o que transcende nesta obra, as sucessivas fugas, uma magra razão de esperança doseada por alguém que vai muito para lá desse arrasto pessimista que não deixa nos poemas mais do que a sensação de que o poeta escreve com uma espinha na garganta, partindo a vida aos pedaços como pão, engolindo-a, tentando livrar-se desse pequeno sufoco. Rosario trabalha com o que resta, remexe brasas, soma imagens como terríveis evidências. O seu drama tem outra desenvoltura. Mordaz e cheia de ironia, dessa ironia em que a amargura se dissolve, em que a lucidez se torna um pacto deslumbrante com a vida que resta, “deixando sempre de lado o horizonte,/ procurando riscar a manhã remota,/ arrasar com o sal das nossas lágrimas/ o campo em que se elevava o Paraíso”. Mais abaixo, acrescenta: “Cantamos porque sim, porque temos medo,/ um medo atroz, bestial, incorruptível/ e embebedamo-nos de palavras/ ou de riso ou de angústia.”

Mas foi enquanto romancista que Rosario Castellanos alcançou verdadeira projecção, tendo-se servido da sua consciência e culpa no que toca à bárbara subordinação da população indígena para esquivar-se do panfletarismo, descrevendo a sua condição, e a das mulheres, particularmente, mas indo além, servindo-se da sua experiência, de um olhar fundo, de quem conviveu e foi servido por esses seres emboscados, que eram igualmente capazes do bem e do mal, e que revelavam muitas vezes “astúcias de besta acossada”. “Balún-Canán” (1957) e “Oficio de Tinieblas” (1962) não deitam miradas ingénuas dessas que, desejando praticar o bem, corrigir injustiças, condenam os explorados a representar uma bondosa farsa, para ilustrar a moral e enternecer o coração dos colonizadores. No segundo romance, Rosario lança-se numa elaborada ficção histórica em que traça uma complexa leitura panorâmica das insurreições maias nos séculos XVIII e XIX, e rompe vigorosamente com o quadro mental, mostrando o confronto entre o catolicismo, o secularismo e a ancestral tradição indígena, misturando magia e superstição, e se representa com a propriedade de quem descodificou essas tensões sociais e até linguísticas, vai mais longe, mais fundo, remexe nas trevas, nessas formas de abuso, como o estupro e sacrifício de crianças.

Depois das reformas agrárias e da emancipação indígena promovidas pelo presidente Lázaro Cárdenas a família Castellanos como tantas outras virão os seus privilégios e a sua riqueza seriamente atingidos, e, em 1941, trocaram o ostensivo luxo da vida rural por um residência num bairro de classe média na Cidade do México. Por essa altura, resgatada à encenação da superioridade racial, social e económica da sua família, uma leitora voraz, Rosario tinha já morada num outro território, havia ja feito a descoberta da sua verdadeira “linhagem”: “Há uma certa raça de homens/ (agora já conheço os meus irmãos)/ que trazem no peito uma espécie de água pura/ que estremece./ Que têm mãos desajeitadas/ e tudo se lhes quebra entre as mãos;/ que não querem olhar para não ferir/ e erigem os seus actos/ como uma estátua de um anjo meigo/ e repentinamente degolado.// Raça da ternura funesta, de Abel/ ressuscitado.”

Escrevia todos os dias. Não supunha que pudesse fazer disso a sua profissão, pois essa opção estava vedada às mulheres. Escrevia para si mesma, e isso bastava-lhe. Mas o destino fixou-se num dos momentos da sua ficção, em que a protagonista chega a desejar a morte dos pais, e, em 1948, a mãe, que estava ainda na casa dos 40, morreu de cancro, e, logo depois, o pai morreu de ataque cardíaco. Rosario tinha 22 anos, e viu-se subitamente livre do juízo e da pressão daqueles dois, tendo reconhecido mais tarde que era o resultado mais natural que podia esperar alguém que se viu na adolescência abandonada aos seus próprios recursos e imaginação, o ver-se um dia uma órfã absoluta. Foi, então, que a literatura deixou de parecer-lhe uma opção tão descabida. Já não tinha a quem decepcionar senão a si própria. Nesse mesmo ano, publicou os dois livros de poesia, “Trayectoria del polvo” e “Apuntes para uma declaración de fe”.

E aqui, e para os nossos adoradores domésticos de Górgonas e Golgonas, vale a pena fazer um parêntesis para lhes chamar a atenção para o quão longe da fonte o ímpeto desta poeta foi depois traficado, servido com outro rótulo por destilarias a jusante, e é curioso até como basta ler o longo poema que abre esta antologia, “Anotações para uma profissão de fé”, para se verem ali reunidas as peças que outros espalham como fragmentos, destroços, para dar a impressão de vagas, superfícies de restos de um naufrágio que só depois vimos a saber em que mares se deu. No fundo, no leito, damos por fim com essas “bilingues entranhas dessangradas”, e logo nos acomete o entusiasmo sentido em tempos ao descobrir uma voz que nos parecia cheia de novidade e força encantatória, para depois, mais tarde, percebermos esse regime pouco claro das traduções parciais... Como damos por cursos de rios manchados de sangue e que causam um certo estrondo ao chegar a uma terra ávida, correndo ali, “vivificando as mais altas orquídeas,/ as mais luminosas papoilas”.

Não devemos, contudo, zangar-nos muito pelo modo como estes limos fecundos se vão despositando, nem perder demasiado tempo a registrar nalgum caderno que bicos nos trouxeram esses “pólenes dos jardins mais remotos”. Essa circulação tumultuosa é algo de esperar de uma ocupação como a poesia, que vive da admiração ou da inveja, sendo o mais importante que um impulso não veja o seu caminho barrado, acabando por reger o nosso pulso. Então, pouco interessa de onde vem, desde que atinja este litoral que já foi mais bravo nas suas mestiçagens, e implora hoje que as suas terras sejam batidas de novo por ciclones e tormentas que o livrem deste frouxa agonia, plantando nela alguma esperança. “Tudo o que a terra dá a voar em pássaros” há-de ganhar diferentes sentidos nos sucessivos despertares, alçando os céus até que essas revoadas acabem por nos pousar no sangue.

Rosario viria a formar-se em Filosofia, integrando nesses anos o grupo de intelectuais latino-americanos que ficou conhecido como Geração de 50, os quais se reuniam todos os sábados para conviver e ler uns aos outros os textos que mais lhes faziam tremer as gavetas. Entre os membros encontravam-se nomes como Jaime Sabines, Ernesto Cardenal, Augusto Monterroso e Dolores Castro, que viria a tornar-se a grande confidente de Rosario e na companhia de quem, após licenciar-se, viajou pela Europa, passando por Espanha, França, Alemanha, Holanda e Itália. Quem conhecera também nesse período foi o filósofo Ricardo Guerra Tejada, com quem troucou uma longa correspondência antes de se casarem, em 1957. A poeta tinha, então, 32 anos, e trabalhava para o Istituto Nacional Indigenista, que tinha sido criado pelo governo para dar serviços de apoio, fossem jurídicos, fossem órgãos de informação nas línguas indígenas, às comunidades nativas. Foi então que Rosario decidiu doar as suas terras aos trabalhadores, e dedicou-se ainda a traduzir a constituição mexicana para Tzotzil. Esse terá sido um dos períodos mais produtivos e felizes na vida de Rosario, tendo ganho uma bolsa da Fundação Rockefeller que lhe permitiu escrever o seu primeiro romance, o qual ganhou vários prémios e a aclamação crítica, tendo sido traduzido em vários idiomas.

Se por essa altura se tinha já habituado a viver sozinha, a depender apenas de si mesma, o casamento de 13 anos com Ricardo Guerra levou-a de volta para o território tumultuoso da sua infância. Além de ter tido dois abortos que despertaram de novo nela o terror da velha maldição, confessaria que a relação foi vivida de forma estrictamente monógama da sua parte e absolutamente polígama da parte do seu marido. Contudo, mesmo quando deu por si divorciada e órfã, ganhou o grande amor da sua vida – o filho, Gabriel. Por outro lado, continuou a publicar e a ter bastante sucesso, mantendo-se ocupada com a vida académica, e foi nessa altura, quando estava a meio dos quarenta, que lhe surgiu o convite para ocupar a posição de embaixadora do México em Israel. Em Tel Aviv, continuou a dar aulas e não demorou a aprender o hebreu, continuando a colaborar com a imprensa do seu país e a publicar livros de poesia. Enquanto diplomata não demorou também a causar a melhor impressão, e a primeira-ministra israelita Golda Meir disse que ela “foi uma das mentes mais brilhantes que alguma vez conheci”.

A morte de Rosario Castellanos é das mais estúpidas que sofreu um poeta. Talvez só a de Frank O’Hara, que saíra para um passeio matinal, em Fire Isalnd, quando foi atingido por um carrinho de golfe que estava a ser conduzido ilegalmente na praia por um jovem a tentar impressionar a miúda que seguia a seu lado, seja ainda mais desoladora. Em Agosto de 1974, sozinha no apartamento da embaixada, Rosario saiu da banheira e tentou mudar uma lâmpada. A descarga eléctrica deixou-a inconsciente, sendo descoberta pela empregada. A caminho do hospital morreu. Segundo o biógrafo e amigo pessoal de Rosario Castellanos, Oscar Bonifaz, semeados pela sua obra encontram-se de forma reiterada e até obsessiva a associação das lâmpadas à morte. Eis dois exemplos escolhidos por Emma Garman (que escreveu um belíssimo ensaio para a “Paris Review” sobre a autora, e que foi a peça central para a escrita deste): “Ela era inteiramente consumida pelo calor/ e pela luz da lâmpada” (“In Memoriam”); “O cabelo dela deixa uma suave impressão no ar/ de flores esmagadas e lâmpadas a arder” (“Trayectoria del polvo”). Nesta antologia, no poema “Lamento de Dido”, Rosario diz-nos que herdou vários ofícios, entre eles o da “escolhedora do fruto que ilustra a estação e o seu clima,/ avivadora de lamparinas”, e mais à frente, adianta: “A minha linhagem entronca com a dos imoladores de si mesmos.”

A poeta tinha 49 anos e, dado o longo convívio com as trevas, a depressão, o facto de ser acompanhada por um psicanalista, que lhe prescrevia Valium, não faltou quem especulasse que podia ter-se matado. Mas Elena Poniatowska, sua amiga e uma das ensaístas que mais se tem empenhado não só na divulgação da sua obra, como na de tantas outras autoras relegadas para segundo plano e que, na opinião dela, são o verdadeiro tesouro da literatura latino-americana, é altamente improvável que Rosario tivesse os conhecimentos necessários para provocar uma morte por electrocussão. O mais provável é que se tenha entregue de forma algo distraída à sua hora, provando que era dessa raça dos “Que têm mãos desajeitadas/ e tudo se lhes quebra entre as mãos”. Até a própria vida.

Castellanos teve direito a um funeral de Estado, e um pouco por todo o mundo houve comemorações da sua vida e da sua obra, mas talvez a homenagem mais sincera, mais tocante, tenha sido a de Jaime Sabines, que lhe escreveu um “Recado”, que ralhou com ela, como é próprio dos amigos, desses que ficam devastados, pois são os verdadeiros destinatários dessa forma de ausência que chega com a morte. “Só uma tonta podia dedicar a sua vida à solidão e ao amor./ Só uma tonta podia morrer ao tocar uma lâmpada,/ sim, lâmpada acesa,/ desperdiçada lâmpada de dia eras tu.”

Sabines retrata-a sublimemente, fazendo contrastar a sua inteligência e sensibilidade com a sua condição inerme, com a “nudez estremecida”, com a sua solidão – esse terrível desperdício. O autor do maravilhoso poema “Os amorosos”, sabia como Rosario Castellanos como os que amam dão por si a apurar venenos mortais. E como, quando olham, “parte-se o mundo”. Como poucos, ele poderia ter-lhe devolvido os versos em que ela escreve: “Tu dóis a Deus; o universo/ faz-se pequeno em ti; faz-se cego, bêbado./ E louco.// Algo te é roubado se uma estrela cai.” Com uma mistura de ternura e raiva, disse que não era só tonta mas “retonta”, “por andares a oferecer o seu cesto de frutas/ às árvores,/ a tua água ao manancial,/ o teu calor ao deserto/ as tuas asas aos pássaros.” 

Quanto ao seu legado literário, é importante notar que foi a sua condição trágica o que nunca lhe permitiu a ilusão de se sentir parte de alguma coisa, mesmo que fosse uma ideia de esperança, uma luta necessária, pois sabia-se mais como uma profeta da decepção: “Demasiado cedo/ cuspi nos lugares/ que a plebe consagra à reverência", e se os homens pressentiam nela a “impiedosa lei dos cosmos”... “As mulheres farejam-me de longe e sonham/ o mesmo que os animais de trabalho, quando cheiram/ a rajada brutal da tormenta”. Assim, lendo como qualquer um os avisos e a moral espalhados por toda a parte, sabia como o preço a pagar é terrível, e mesmo assim: “Não, não é solução/ atirarmo-nos para debaixo de um comboio como Ana de Tolstói/ nem acabar com o arsénico de Madame Bovary/ nem aguardar nos páramos de Ávila a visita/ do anjo com venábulo/ antes de colocar o manto na cabeça/ e começar a agir. (...) Não é solução/ escrever enquanto chegam as visitas,/ na sala de estar da família Austen/nem fecharmo-nos no sótão/ de uma residência da Nova Inglaterra/ e sonhar, com a Bíblia dos Dickinson,/ debaixo de uma almofada de solteira.// Deve haver outro modo que não se chame Safo/ nem Messalina nem Maria Egipcíaca/ nem Madalena nem Clemência Isaura.”

Não quis que fizessem dela um símbolo pois sabia que nenhuma simplificação nos leva a algum lado. Todo o amanhecer está virado para uma luta. “Cada dia amanhece/ e o mundo é novamente devorado.” A partir de certa altura, percebeu que nunca poderia encarar o mundo senão como um fenómeno de “Agonia fora do muro”: “Olho as ferramentas,/ o mundo que os homens fazem, onde se afadigam,/ suam, parem, coabitam.// O corpo dos homens, prensado pelos dias,/ a sua noite de ronco e de esperneios/ e as suas encruzilhadas em que se reconhecem. (...) Sem orgulho (o que é o orgulho? Uma vértebra/ que a espécie ainda não produz?)/ os homens roubam, mentem,/ como predadores farejam, devoram/ e disputam a outro a carcaça.” Assim, e beneficiando da isenção linguística deste plural, que deixa as mulheres de fora, Rosario aponta para esse êxodo, essa revolução secreta e fatal de quem prefere não ser outra coisa senão um estranho: “Não te aproximes de mim, homem que fazes o mundo,/ deixa-me, não é preciso que me mates./ Eu sou dos que morrem sós, dos que morrem/ de algo pior que a vergonha.// Eu morro de olhar para ti e não perceber.”

“O orgulho supremo é a suprema/ renúncia”, diz-nos Rosario Castellanos. É uma mensagem que pode parecer derrotista, e que certamente não colherá grande favor entre uma geração que adere aos fulgores passageiros e que com os seus esperneios julga mudar alguma coisa, buscando raspar as suas consciências manchadas como se fosse só outra pele. Esta poeta preferiu entregar-se lucidamente ao seu destino, recusando-se “a ser o astro morto/ que absorve luz para poder viver”. Talvez por isso escreveu um dos melhores poemas do século XX, e possivelmente a melhor estrofe de que nos lembramos. Chama-se precisamente “Destino” e começa por estes versos: “Matamos o que amamos. O resto/ nunca esteve vivo.” Mais abaixo reconhece: “O homem é animal de solidões,/ cervo com uma flecha no flanco/ que foge e sangra.” E um pouco mais abaixo vem a tal estrofe inigualável: “O cervo vai beber e na água aparece/ o reflexo de um tigre./ O cervo bebe a água e a imagem. Torna-se/ – antes que o devorem – (cúmplice, fascinado)/ igual ao seu inimigo.”
E o poema conclui então: “Damos a vida somente ao que odiamos.”

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