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Um Lucky Luke redivivo

Um Lucky Luke redivivo

Ricardo António Alves 03/08/2020 18:34

L’Homme qui Tua Lucky Luke, de Mathieu Bonhomme (Paris, 1973), conhece a primeira edição portuguesa neste ano 
da desgraça de 2020

Publicado em 2016, primeiro na Spirou, revista em que, 70 anos antes, o cowboy que dispara mais rápido que a própria sombra se estreou, L’Homme qui Tua Lucky Luke, de Mathieu Bonhomme (Paris, 1973), conhece a primeira edição portuguesa neste ano da desgraça de 2020. Para um ano pesado, um título duro: pois Lucky Luke deparou-se com alguém capaz de o (a)bater?...

Podemos abordar este álbum de duas formas interessantes: a primeira, apenas como western, o que será sempre difícil, mesmo não se tratando de um trabalho de Morris (alvo, aliás, de uma tocante homenagem no cemitério de Frog Town) ou do sucessor Achdé. E então teremos um western escorreito e com tudo, ou quase: cavaleiro solitário, cidadezeca (Frog Town) perdida no Oeste, nascida em torno do garimpo, forças da lei&ordem ineficazes e/ou ao serviço de gente pouco recomendável, populações ora assustadas ora enfurecidas, índios na retranca, duelos, enfim, todo o pathos do género – só faltando a cavalaria –, incluindo citações e homenagens ao cinema, como nota em texto final João Miguel Lameiras, um dos editores. Estamos, assim, diante de um western puro, não humorístico – o humor está presente de forma cirúrgica e eficaz –, com um estilo semirrealista muito expressivo, mas em tons macios. Lembra, com as devidas distâncias, os primeiros álbuns de Buddy Longway, de Derib, sem a sujidade característica das pranchas de Giraud ou Hermann; quanto às fisionomias mais grotescas, elas trazem à memória o traço de Will Eisner.

Mas este é um álbum de Lucky Luke, numa incursão até certo ponto comparável à que Émile Bravo está a fazer com Spirou e que temos vindo a acompanhar. A primeira evidência que apetece salientar neste trabalho de revisitação – tratava-se de um sonho antigo de Mathieu Bonhomme – é que o livro resulta num preito principalmente ao primeiro Lucky Luke, época pré-Goscinny, em que após as histórias iniciais, ainda pueris e muito influenciadas pela animação, Morris, entretanto, delineia o perfil da personagem: um “pistoleiro bom”, herói solitário, corajoso e leal, impiedoso se for caso disso, traços que progressivamente se vão desvanecendo com Goscinny, à medida que ganham protagonismo Jolly Jumper, os Dalton e Rantanplan; com Bonhomme, o cavalo de Lucky Luke volta a ser uma montada especial, é certo, mas sem os atributos delirantes que lhe foram outorgados pelo também criador de Astérix. A circunstância de o já célebre Lucky Luke, acabado de chegar à cidade, ser questionado pelas crianças que o admiram por Phil Deefer ou os Dalton – criados por Morris, a partir de uns Dalton que existiram mesmo e acabaram abatidos, como sucede, de resto, na primeira encarnação na série – é um indício desse recuo de Bonhomme às raízes do nosso cowboy. Com poucas referências à série canónica – e uma vez que o autor estava proibido de voltar a desenhar Lucky Luke com um cigarro na boca –, Mathieu Bonhomme revela-nos a razão de o nosso herói ter deixado de fumar. É, claramente, uma das edições do ano.

O Homem que Matou Lucky Luke

Texto e desenho Mathieu Bonhomme

Editora A Seita, Prior Velho, 2020

 

BDTECA

Tangerina A Planeta Tangerina é uma das editoras mais criativas e agradáveis no trabalho editorial destinado à infância e juventude. É ao segundo segmento que se destina a novela gráfica Desvio, com texto de Ana Pessoa e desenhos de Bernardo P. Carvalho, em que se abordam encruzilhadas da adolescência. Uma incursão da casa na BD, espera-se que para prosseguir.

Os Passageiros do Vento Série épica passada no séc. XVIII, combinando, no estilo único do autor, François Bourgeon, a aventura marítima, o comércio esclavagista e um erotismo que era ousado em finais da década de 1970 para uma BD de largo público, a Ala dos Livros publica o oitavo álbum, o primeiro tomo de O Sangue das Cerejas, originalmente saído em 2018. Estamos no século seguinte e a protagonista já não é Isa, mas uma sua bisneta.

“Boca-de-sapo” BD franco-belga e automóveis de época é uma mistura irresistível. A Pacquet, editora de Genebra, publica a série Brian Bones, detetive privado, e o enfoque do quarto tomo incide no glorioso Citroën DS, o conhecido “boca-de-sapo”, obra-prima conjunta do designer italiano Flaminio Bertoni e do engenheiro aeronáutico francês André Lefébvre. Em DS 29, Brian Bones escolta um modelo experimental movido a suco de beterraba, prevenindo os golpes baixos do lóbi do petróleo. O argumento é de Rodolphe, e os desenhos de Georges Van Linthout.

 

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