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António Galamba 20/07/2020
António Galamba

opiniao@newsplex.pt

Na vertigem dos milhões

Na vertigem dos milhões, importa nunca perder de vista o resgate sustentável dos que vivem com tostões.

Os milhões povoam as notícias, as dúvidas e as últimas horas destes tempos especiais em que, por via de um organismo de tostão, estamos reconfigurados a novas condições. Os portugueses olham para as notícias e são os milhões que se esperam – e desesperam – de Bruxelas, os milhões para a banca, os milhões do golpe do BES, os milhões para as contratações e os milhões sem milhões. A desproporção não pode deixar de gerar desconforto, pela distância entre a existência, a sobrevivência e as realidades de marginalização que subsistem e a abundância das manchetes. A desigualdade no acesso aos recursos não pode deixar de ser geradora de perplexidades a quem olhe com a distância de quem não faz parte do ecossistema, aliás, em linha com a dramática situação a que estamos sujeitos por via das limitações à mobilidade europeia e da dependência do turismo.

Se estão tão bem no combate à pandemia, no epicentro de um milagre, como explicar a emergência de surtos que destroem a narrativa e projetam o posicionamento para números indesejáveis, com projeções na imagem externa do país?

Se estão tão necessitados de recursos para a resposta, para a mitigação e para o relançamento das dinâmicas sociais e económicas, como se esgrime nas notícias a existência de milhões?

O risco, do contexto e das dúvidas que ele suscita, não valida nenhuma posição de pretensa autoridade moral para impor a outros Estados-membros condicionalismos de servidão que encaminham as nações e os povos para um caminho de desintegração, ainda maior, do projeto europeu, sobretudo por quem tem uma visão egoísta da competitividade fiscal. Não é que a servidão pragmática da procura dos milhões da Europa não tenha estado presente nas reuniões de António Costa com o primeiro-ministro dos Países Baixos ou com o primeiro-ministro húngaro, agora sujeito ao crivo da geometria variável dos valores democráticos. Não é a primeira vez que os fins justificam todos os meios, num registo de regularidade que acentua o caráter no exercício político, e não a circunstância. No mercado comum de bens transacionáveis troca-se Estado de direito por fundos comunitários, democracia dos debates quinzenais por menos chatice em aturar as perguntas dos deputados ou participação cívica das petições em plenário a partir das 4 mil assinaturas por um afunilamento para as 15 mil subscrições. Pragmática habilidade, dirão os de sempre, quando tudo não passa de uma inaceitável modelação nos valores e nos princípios. É a mesma linha que sustenta opções de remendo quando há incompetência ou incapacidade para gerar soluções. O portal das matrículas não funciona, automatizem-se as inscrições no próximo ano letivo. A oferta de transporte público não permite a observância das distâncias sociais, altere-se a regra.

Consciente ou inconscientemente, o que se está a fazer é a sinalizar padrões de referência para o país, mas também na relação com o exterior. Por cá, o drama será quando o cidadão limitado à vivência dos tostões perante os milhões enunciados começar a não suportar a distância, a injustiça e a incapacidade para gerar opções políticas compreensíveis, eficazes e com sentido de sustentabilidade. É que existem diferentes níveis de tolerância popular à realidade, em função da liquidez disponível. Se não houver liquidez, a tolerância diminui e a disponibilidade desesperada para outras soluções emerge. Afinal, como em determinado momento da anterior legislatura se gerou a perceção de haver recursos para tudo e para todos, se há tantos milhões, os cidadãos interrogar-se-ão porque não lhes toca nada. O problema é quando estiverem maduros para a revolta ou para caírem nos braços de soluções populistas, pelo menos nas narrativas. Não será problema, porque ou já não estarão em funções ou haverá sempre um argumento amanhado para mascarar, distrair ou entreter, mas a democracia acabará por pagar a fatura do turno. Mais uma!

Apesar dos milhões enunciados, estamos no limiar das incontornáveis consequências da pandemia nas opções políticas adotadas nos últimos anos, nos problemas estruturais não superados e numa condução política que aposta em não ser linear, inteligível e transparente. Funcionará enquanto houver dinheiro no bolso, sobreviverá enquanto se enunciam milhões, mas não deverá resistir ao acumular de realidades insustentáveis. Na vertigem dos milhões, importa nunca perder de vista o resgate sustentável dos que vivem com tostões. Sem proclamações como a presidencial de erradicar os sem-abrigo, mas com um trabalho sustentado que vise a pobreza, a exclusão social, a indigência das condições de vida em meio urbano e no espaço rural, as injustiças e as discriminações sociais e territoriais. Foco e senso em vez de conversa fiada.

 

NOTAS FINAIS

TAPAR O SOL COM A PENEIRA. Ainda não foi desta que soubemos quais os jornalistas que recebiam avenças dos sacos azuis do universo do BES. A investigação judicial não indica os nomes e a investigação jornalística, tão zelosa do direito a informar, também não separou o trigo do joio. Com alguma probabilidade, alguns dos que comentaram comungavam da distribuição do bodo, pelo menos de viagens a estâncias de esqui. Mas está tudo bem, podem continuar a verberar escorreito pensamento sobre a organização que nós lidamos bem com a dúvida que se suscita a cada palavra. E a classe também.

AINDA A CEPA TORTA DO BES. O gigantesco polvo exposto na acusação do processo BES é bem o retrato dos poderes não escrutinados que existiam e existem na sociedade portuguesa, com maior ou menor expressão, que condicionam o normal funcionamento democrático, impondo sentidos e soluções negativas.

ALBARDA-SE O BURRO À VONTADE DO FREGUÊS. Há temas que amiúde, com ou sem fundamento, voltam à atualidade. A TAP resgatou a questão Norte-Sul, antes presente nos fundos comunitários, que escamoteia a assimetria central entre interior e litoral. Embalado na falta de saber ganhar, Pinto da Costa aproveitou os festejos para defender público nos estádios e apostolar: “Se o Bruno Nogueira não puder, mandamos vir os touros lá de baixo e fazemos uma tourada”. A incúria de invocar a festa com os animais de hastes, criados nos campos do nosso mundo rural, tem projeções que a latitude e a experiência de vida aconselhavam a evitar.

Escreve à segunda-feira

 


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