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Um amor à face de exclusão

Um amor à face de exclusão

Ricardo António Alves 06/07/2020 15:50

 

Favela”: sabemos o que é, mas não a origem da palavra... O Morro da Providência, também conhecido por Morro da Favela, é a mais antiga aglomeração do género no Rio de Janeiro, iniciado por veteranos da Guerra de Canudos, a quem foram prometidas casas quando regressassem das operações. Fartos de esperar, ocuparam uma elevação no local da Providência, lembrando o morro da Baía – onde vicejava a favela, tipo de arbusto endémico –, de onde faziam pontaria aos homens de Antônio Conselheiro, “profeta” milenarista que sublevou os miseráveis da região, dando origem à Campanha de Canudos, descrita numa obra-prima da nossa língua, Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, e também motivo do extraordinário romance de Mario Vargas Llosa A Guerra do Fim do Mundo (1981).

Morro da Favela, de André Diniz, agora em segunda edição portuguesa, aumentada, é a quadrinização (palavra horrível) do relato autobiográfico do fotógrafo Maurício Hora (1968), nado e criado no morro, filho de um bicheiro tornado um dos primeiros traficantes de maconha do local, que, após duas prisões, decide poupar-se e à família, passando a trabalhar na estiva. De acordo com os critérios de hoje, Maurício cresceu numa família disfuncional. Pai pouco dado a rotinas, mas sempre presente quando não estava preso, mãe com episódios esquizoides, irmãos, além dos avós, referências de estabilidade. O que Maurício Hora transmite através dos quadrinhos de André Diniz traduz-se, por paradoxal que pareça, numa certa felicidade, uma nostalgia por esse país da infância em que o amor existia, apesar dos crimes, do medo, em particular da polícia, boa parte comportando-se como bandidos com farda e mais bem armados. Acima de tudo, Maurício veicula uma grande empatia, sempre vizinha do amor, que preenche também o coração de Maurício – demonstra-o o fotógrafo e o ativista sociocultural. Na favela há gente como todas as outras, gente boa e de trabalho, quantas vezes alvo da violência do Estado ou capturada pelo tráfico, que ali dita a lei; e há sobretudo uma invisibilidade para quem vive no asfalto, junto à linha de costa, circunstância que o fotógrafo tem vindo a contrariar, como artista e dinamizador social, procurando dar voz a quem a não tem.

Se a matéria de que se faz esta narrativa – o depoimento de Maurício Hora – é só por si de primeira grandeza, que dizer do trabalho de André Diniz? Em primeiro lugar, a estrutura narrativa disposta como uma espécie de romance de formação. Do ponto de vista gráfico, a opção pelo fundo negro realça as linhas dos desenhos, os espaços em branco, as notáveis expressões das figuras, integralmente num preto e branco que nos faz colar os olhos às páginas, um percurso que termina com uma única vinheta colorida, o sorriso de Dona Iracema e o lado bom e fraterno da entreajuda em comunidade.

André Diniz e Maurício Hora pertencem àquela família de artistas cuja estética é servida por uma ética. O mundo é demasiado interessante na sua complexidade para se confinar aos arredores do umbigo.

Morro da Favela
Texto André Diniz Desenho André Diniz
Fotografias: Maurício Hora e Augusto Malta/ Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro
Editora 2.ª edição, Polvo, Lisboa, 2020

 

BDTECA

The Lisbon Studio Series Vários autores que integram o coletivo The Lisbon Studios associaram-se em álbuns sujeitos a mote. Depois de Cidades, Silêncio e Viagens, vem agora a lume o quarto título, Raízes. “Onde estão as raízes de cada um? No passado, nas memórias? Num sítio? Numa família ou grupo? Em que se enraízam as palavras e imagens?”, lê-se no press release. Autores: Ana Branco, Bárbara Lopes, Filipe Andrade, Marta Teives, Nuno Saraiva, Pedro Moura, Quico Nogueira e Ricardo Cabral; prefácios de André Diniz e Patrícia Furtado. Edição: A Seita, Lisboa, 2020.

30 anos de história com Spirou Depois de números consagrados a Uderzo e a Morris, a publicação Historia BD #3 dedica as suas páginas a Franquin, passando em revista o tempo e os tempos que acompanharam o genial autor belga no período em que se dedicou às histórias do groom do Hotel Moustique: Spirou par Franquin et les Trente Glorieuses – 1945-1975, Paris, julho de 2020.

Schtroumpfs. Com argumento de Alain Jost e Thierry Culliford (filho de Peyo), desenhos de Miguel Díaz Vizoso e cores de Nina Culliford, os Schtroumpfs chegaram ao 38.º álbum. Quando têm de deslocar-se a paragens longínquas, estes pequenos seres azuis da floresta dispõem de linhas áreas próprias para o efeito: as cegonhas… Após uma visita ao mago Homnibus por ocasião do seu aniversário, algo sucedeu quando se preparavam para regressar. Les Schtroumpfs et le Vol des Cigognes, Le Lombard, Bruxelas, 2020.

 

 

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