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José Paulo do Carmo 03/07/2020
José Paulo do Carmo

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O negócio roubou a alma ao Benfica

Perderam-se no meio de tanto negócio e perderam a vontade de vencer, esquecendo-se de que a sociedade anónima desportiva é detida na sua maioria por um clube feito de gente de todas as classes que vive intensamente esta paixão, gente séria e trabalhadora que abdica de muito para seguir a sua paixão para qualquer parte e que não gosta de ver o nome do Benfica na lama.

O Benfica precisa de um projeto desportivo. Os últimos quatro anos revelaram-se um tremendo disparate, com uma perda clara de qualidade no plantel relativamente a anos em que o dinheiro não era tão abundante – desequilíbrios evidentes que todos os sócios reconhecem e que foram sendo camuflados com algumas vitórias, fruto do enfraquecimento dos rivais. Ainda assim, perdeu-se a oportunidade de conquistar um penta e, nos últimos três anos, estamos prestes a perder dois campeonatos para um clube intervencionado pela UEFA. Supostamente, um melhor processo financeiro desagua em melhores plantéis, que resultam em mais vitórias e campanhas europeias com outro brilho que até permitem, no devido tempo, transações mais elevadas. Os últimos anos mostram-nos, no entanto, uma realidade diferente: resultados financeiros cada vez mais robustos, jogadores mais medíocres. O objetivo passou a ser construir para vender ao invés de construir para ganhar. E o princípio está errado logo à partida.

Mas o problema é bem mais profundo e estrutural. Foram saindo figuras que eram reconhecidamente importantes, como Lourenço Coelho, Shéu Han ou José Boto. Não sei se, em alguns casos, estas ausências foram bem colmatadas, mas noutros é bem evidente que não. O que transparece é uma estrutura amorfa e obediente, sem sangue benfiquista nem chama e que ostraciza quem ousa ter uma voz incómoda e diferente, como António Simões. Perderam-se no meio de tanto negócio e perderam a vontade de vencer, esquecendo-se de que a sociedade anónima desportiva é detida na sua maioria por um clube feito de gente de todas as classes que vive intensamente esta paixão, gente séria e trabalhadora que abdica de muito para seguir a sua paixão para qualquer parte e que não gosta de ver o nome do Benfica na lama. Um amor que vai passando de geração em geração, como foi o meu caso, cheio de recordações e conquistas que nos envolvem e nos unem de uma forma inexplicável. Só assim, aliás, se explica pedirem-nos o cachecol (sem retorno) que nos acompanha para todo o lado. Eles sabem lá o que aquilo significa para nós. O que já viveu connosco e nos traz à memória.

Não é exequível ter um departamento de comunicação que se esgota em apagar os fogos de casos e mais casos que todas as semanas são revelados, em vez de ter uma mensagem estratégica. Uma área jurídica onde se gastam milhões para tentar evitar escândalos quando a marca Benfica tem uma capacidade tremenda para se superiorizar a todas as outras e quando devíamos estar preocupados no desenvolvimento, e não nos processos em tribunal. Um departamento de prospeção em que não se percebe se tem uma palavra a dizer nas ( erradas ) contratações ou se quem define tudo é o presidente. O Benfica, há 20 anos, estava uma miséria. Nós reconhecemos isso e estamos imensamente agradecidos pela recuperação, sobretudo financeira. Mas isso não pode fazer-nos reféns desta direção. Temos todo o direito de querer mais mas, acima de tudo, de querer de forma diferente.

Aproximam-se tempos importantes. Façamos, por isso, este debate com elevação. Sei que não é fácil. Eu próprio praguejo sempre que vejo um Pedro Guerra a comentar na BTV, mas não podemos cair no erro de atingir o clube quando o objetivo será denunciar os procedimentos de alguns. Há muita gente a gravitar à volta do nosso clube que não presta. O Benfica tem 116 anos , feitos de muita gente boa. Muito sacrifício. O Benfica é dos sócios. Não é o quintal de ninguém. Mais do que nunca precisamos de uma vaga de fundo, gente nova e competente, cheia de alma benfiquista, plasmada no suor da camisola, que honre a nossa história mas que se projete no futuro, que contemple ao mesmo tempo um projeto sólido, uma visão profissional e uma ambição desportiva. Que não vá contra ninguém, mas pelos nossos ideais. Que nos encha de orgulho e nos devolva a credibilidade, o sonho, a magia e a convicção. E pluribus unum! Sócio 10 638.

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