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José Paulo do Carmo 26/06/2020
José Paulo do Carmo

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O negócio roubou a alma ao Benfica (1)

Não costumo alongar-me muito sobre a vida do meu clube porque o vivo apaixonadamente. E quem vive apaixonadamente alguma coisa tem o sangue a correr forte nas veias e facilmente se deixa levar pelas emoções, que inocentemente resvalam para discussões estéreis nas redes sociais que, regra geral, dão azo a quebras de amizade e ao insulto fácil. Essa é, por isso, a forma que arranjei para ser um pouco mais racional neste assunto: remeter-me ao silêncio. Só que já não dá mais. E nem falo só deste catastrófico fim de época. Falo de um rol de situações, confusões e maroscas que nos colocam consecutivamente nas parangonas dos jornais. E sim, eu sei que o Benfica vende muito e que parte delas são puras invenções ou notícias para encher chouriços, mas outras há que não. Começa a tornar-se demasiado evidente o desnorte de uma estrutura que se tornou amorfa e resolveu abdicar de um projeto desportivo para desenhar uma visão mercantilista que não olha a meios para atingir os seus fins.

É, por isso, até porque se aproximam umas eleições, a altura certa para darmos o nosso contributo e a nossa opinião sobre o assunto. Nos dias que correm, os clubes tiveram (e bem) de se profissionalizar e implementar uma visão empresarial para que pudessem sobreviver, crescer e desenvolver-se. Até aqui, Vieira e a sua direção fizeram tudo muito bem. O problema foi depois. Um clube de futebol nunca será uma empresa normal. Por aqui mexe-se com emoções, com risos e choros, com amor de deixar tudo na hora do jogo. Aqui beija-se a camisola com uma profundidade inexplicável, sofre-se de uma forma implacável e quando é bom, meu Deus, leva-nos ao céu. É, por isso, tão importante ganhar, mas não basta ganhar, é preciso que a alma e a mística do clube nos envolvam e nos deixem orgulhosos. É por isso que, mesmo que nos últimos seis anos o Benfica tenha ganho cinco títulos nacionais, isso não é suficiente.

Nestes quatro anos de mandato, a direção do Benfica rebentou completamente com a equipa de futebol, vendeu os melhores jogadores e para o lugar destes trouxe um comboio de outros de qualidade duvidosa. Muitos deles nem chegaram a treinar. O clube tornou-se um entreposto de jogadores com ligações estranhas a clubes paraguaios e polacos. Tentou-se vender a ideia de que só com os jogadores da formação se lutaria por títulos europeus quando, na verdade, estes jogadores precisam de outros mais experientes para crescerem, e não da mediocridade vigente, que lhes faz perder a confiança. Custa ver plantéis depauperados e desequilibrados numa altura em que o rival se encontra em grandes dificuldades financeiras – uma oportunidade perdida para se criar uma verdadeira hegemonia, à custa do vício do negócio. Prometem-se grandes conquistas e depois faz-se gala de que, se não fosse a covid, os nossos dois melhores jogadores estariam vendidos. Areia para os olhos e mentiras atrás de mentiras, gozando com os sócios através de estratégias de comunicação gastas.

Queremos de volta a nossa alma que a cegueira do negócio roubou. Nós, que vos levamos ao colo para todo o lado, que enchemos as bancadas dos sítios mais distantes e longínquos, que abdicamos de muito para ter um lugar no estádio ou para comprar um bilhete. Nós, que queremos passar uma mística aos nossos filhos que os faça sonhar todos os dias como nós um dia sonhámos. Estamos fartos de yes-men que corroem o nosso amor, de gente sem qualidade. Temos vergonha dos Pedros Guerras que nos representam na televisão e das sucessivas campanhas que têm feito para nos iludir. Façam o que nos prometeram e devolvam o nosso orgulho e a nossa chama imensa com um projeto desportivo que nos devolva a imagem que um dia tivemos lá fora. O Benfica é nosso e há de ser. Vêm aí eleições, espero eu com vários candidatos e projetos distintos. Está na hora de esta incomparável massa associativa tomar decisões e escolher para onde quer ir. O que temos não chega. Queremos mais. Sem medos. Somos Benfica.

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