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Da velha estante – Dick Tracy

Da velha estante – Dick Tracy

Ricardo António Alves 15/06/2020 19:26

O imaginário gângster, que nos foi aportado pela literatura e pelo cinema, está muito longe de exercer o mesmo fascínio que o western, esse sim, o grande contributo da América do Norte para a narrativa humana global desde que descemos das árvores.

No que respeita aos comics, a primazia deve-se a Chester Gould (1900-1985) e ao detetive policial que criou, Dick Tracy, surgido em dois jornais, em Nova Iorque e Detroit, em 1931, em pleno vigor da Lei Seca, à sombra da qual medrou o crime organizado com o seu cortejo de horrores, disposição legal que viria a ser revogada na Presidência de Franklin D. Roosevelt, um dos grandes Presidentes da história dos Estados Unidos.

A diferença de Dick Tracy relativamente a recriações recentes como o magnífico Torpedo, de Enrique Sánchez Abuli e Jordi Bernett, reside na circunstância de este se tratar de uma recriação, com a justaposição da pátina que o tempo histórico lhe deu, ao passo que Dick Tracy evoluía durante o calor dos acontecimentos. Talvez por isso, a violência e a crueza que por vezes é apontada à série se explique por essa contiguidade com o crime, trazido em manchetes pelo mesmo jornal que publicava Dick Tracy, em tiras diárias e páginas dominicais. Acresce à verosimilhança da violência o atrativo dos gadgets de que o detetive lançava mão e à prática científica forense apresentada de forma meticulosa, pois o próprio Chester Gould tirara vários cursos para se documentar.

Mas o principal trunfo de Dick Tracy deve-se, quanto a nós, à mestria narrativa do autor, com uma influência do cinema, nomeadamente nas elipses e cortes de planos. Gould possuía uma mestria narrativa que prendia a atenção do leitor. Neste mesmo livrinho, por exemplo, numa única tira, com apenas três vinhetas – dando sequência à do dia anterior e procurando interessar o leitor pela continuação no dia seguinte –, cada quadrinho corresponde a lugares diferentes da história: o espaço da vítima, o dos criminosos e a esquadra de polícia (cfr. tira central da pág. 27).

O Caso 3-D, a história desta edição, datada de 1957, é um vulgar episódio de extorsão, muito bem contado. Cabeça-de-Lata, a personagem central, magnata do petróleo, detentor de uma fortuna colossal e vários casamentos, decide visitar um dos sete irmãos, após 30 anos de ausência. Este é BO Plenty (Farfalha, na tradução brasileira), um hillbilly – ou seja, uma dessas figuras rústicas que vivem em clã nas zonas montanhosas da América do Norte, celebrizados também pelos comics e pelo cinema –, e cuja família, em particular as jovens sobrinhas, quer presentear com uma modelar casa de banho... Este Farfalha, ex-criminoso tornado amigo de Tracy, foi um elemento de contraponto humorístico para suavizar a violência negra do argumento. Ao mesmo tempo, Poly, gananciosa ex-mulher de Cabeça-de-Lata, mancomunada com o amante, 3-D Magee, não olham a meios para extorquirem o possível ao velho tycoon. No fim, é fatal, o bem triunfa sobre o mal. Rima e tomara que fosse verdade.

Dick Tracy – O Caso 3-D

Texto e desenhos: Chester Gould

Edição: Rio Gráfica Editora, Rio de Janeiro, 1981

 

BDTECA

Do melhor Mesmo sem ainda termos lido senão algumas pranchas. E porquê? À partida, porque o argumentista é Xavier Dorrison, de quem já aqui falámos a propósito de Undertaker; depois, porque os desenhos de Félix Delepe, um jovem autor de 27 anos, são de tal forma soberbos na antropomorfização animal – ao nível de Sokal (Canardo) e Guarnido (Blacksad) – que nos deixam ávidos por próxima leitura. Um castelo é abandonado pelos senhores e os animais dele tomam posse. Sílvio, o touro, impõe-se e governa pela força. Que aproximações e distâncias a Animal Farm, de George Orwell?... O Castelo dos Animais, tomo 1, edição Arte de Autor, 2020.

À procura do passado Romance gráfico da alemã Antonia Khün, fala-nos de Paul, um rapaz que perdeu a mãe e cujo passado familiar está envolto em secretismo, interditos ou não-ditos. Trata-se de saber, ajudado pela memória desfocada e intermitente e por fragmentos remanescentes do passado, que família é a sua. La Clairière, edição Cambourakis, 2020. 

André Diniz, outra vez Também dele já aqui falámos, a propósito do desafiante Entre Cegos e Inimigos (2019). Oportunamente será a vez de abordarmos a segunda edição de Morro da Favela, sobre o fotógrafo Maurício Hora, enriquecida com novas pranchas do autor e mais fotografia. Edição Polvo, 2020.

 

 

 

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