28/10/20
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 10/06/2020
Eduardo Oliveira e Silva

opiniao@newsplex.pt

Portugal

Somos um país marcante na história mundial e ainda hoje reconhecido em muitos campos. Precisamos, no entanto, de nos organizar melhor.

1. Muito se irá escrever e dizer sobre Portugal nesta data de celebração do dia nacional de um país que caminha para 900 anos de história.

Sem excessos patrióticos laudatórios ou derrotismos permanentes, podemos dizer com orgulho que somos dos países mais antigos do planeta. Em termos estatísticos, estamos em níveis aceitáveis mundialmente, embora em declínio no nosso espaço europeu, onde o Leste nos ultrapassou num ápice. Conseguimos manter as nossas fronteiras de forma permanente como nenhum outro Estado. Temos uma história que nos honra e um papel importante no início de uma globalização, contribuindo decisivamente para a matriz cristã que influencia muitos milhões de seres humanos. Portugal, um país médio na Europa, e não pequeno, como alguns assumem, deixou mais marcas boas do que más no mundo. Não tem de se envergonhar de nada, porque não se julga o passado à luz dos critérios de hoje. Podemos e devemos manter laços com os povos que saíram de nós e com aqueles que enfrentámos. Temos, nomeadamente, de os manter com Espanha e as suas diferentes identidades.

O povo português tem uma boa imagem no mundo. Cá, é acolhedor. Está espalhado por todo o lado, não suscitando ódios, nem mesmo nos países que colonizou. A diáspora trabalha, integra-se e faz-se respeitar. Curiosamente, talvez a relação mais complexa aconteça com o Brasil, que se tornou independente com o apoio dos metropolitanos. O Brasil são os nossos Estados Unidos. Ambos têm coisas comuns, designadamente na organização política e judicial, embora os brasileiros não tenham, manifestamente, a capacidade coletiva dos norte-americanos.

Atualmente, os portugueses estão novamente confrontados com a necessidade de recuperarem de um tombo gigante, causado pela pandemia. Ao contrário da crise anterior, a situação atual diferencia-se na medida em que não estamos melhores nem piores do que outros, enquanto em 2008 estávamos francamente mais fragilizados do que a média dos nossos parceiros europeus. Afundou-se o nosso melhor filão económico: o turismo. Trata-se de uma atividade que, basicamente, foi fruto da iniciativa privada em muitos setores, que iam da hotelaria clássica ao alojamento local, passando por desportos como o surf, a vela, o golfe e a captação de eventos e congressos. Hoje, precisamos de voltar a ter um fluxo de visitantes que impeça o país de mergulhar numa pobreza extrema, que já se se sente nas ruas e pode trazer problemas de segurança. Não serão os empreendimentos e fábricas postos em papel que permitirão o relançamento. Esses projetos poderão ser importantes, se forem bem pensados e se, efetivamente, se desenvolverem em setores de inovação, como a investigação científica, a comunicação e um ou outro campo específico. Mas nenhum deles dará lugar a superempresas como a Autoeuropa, uma obra notável, mas dificilmente repetível. Já será bom se conseguirmos mantê-la cá. Nesse sentido, talvez fosse útil ouvir quem a trouxe. Ao que parece, para ajudar na recuperação, aguardamos da União Europeia cerca de 50 mil milhões em ajudas diversas que devem ser aproveitadas ao cêntimo. Há quem duvide e quem até queira já uma troika para fiscalizar o uso desse dinheiro. A ideia é prudente porque houve muito forrobodó com os financiamentos anteriores, que geraram roubalheiras inauditas. Importa também ter consciência de que temos muitos monos frutos de megaprojetos que não deram em nada – Sines, que nunca chegou a dez por cento do projetado. As PPP rodoviárias foram uma desgraça: pagamos muito e circulamos pouco por elas. Vai ser difícil evitar a repetição de casos lamentáveis.

O melhor será permitir que a economia se desenvolva naturalmente, aligeirando e tornando o Estado menos intrusivo e burocrático na vida das empresas e das pessoas. São precisas regras claras e simples. Não precisamos de legislação às toneladas produzida diariamente pelo Governo, pelo Parlamento, pelas autarquias e por qualquer bicho-careta que tenha autoridade. Precisamos também de mais transparência no exercício de funções públicas e políticas. Mas temos de ter a coragem de deixar o cinismo do bacteriologicamente puro e da obrigação dos políticos de não poderem fazer mais nada. Esse puritanismo acaba por transformá-los em meros seguidistas, gerando mais corrupção do que haveria se se conhecessem os interesses de cada um.

Um país dinâmico e moderno precisa de economia livre (com exceção de duas ou três empresas nevrálgicas), que funcionem áreas vitais – saúde, segurança social, justiça, segurança, educação (no sentido do estudo e da aprendizagem de conceitos de vida saudáveis), defesa, energia – e de saber explorar o seu potencial natural (o mar, no nosso caso) sem destruir o ambiente. Se fizermos isso, teremos uma sociedade equilibrada e um país capaz de atrair gente interessada em viver de forma integrada, e não imigrantes que não se sentem minimamente inseridos e protegidos, apesar de não serem, nalguns casos, de primeira geração.

Essa integração é indispensável para que Portugal se mantenha um Estado coerente, diferente mas homogéneo, e não um mosaico de culturas que vivem separadamente, numa espécie de apartheid. Ser português é bom. Podíamos era ser um pouco mais organizados e não poupar no farelo para gastar na farinha. Pelo nosso passado, faz-nos falta também reforçar os laços lusófonos que estão a perder-se e aproveitar minimamente o nosso posicionamento geopolítico, que continuamos a desaproveitar. Mas isso é alta estratégia de Estado que a pequenez da política quotidiana, em regra, não alcança nem percebe.

 

2. De repente anunciou-se a esperada saída de Mário Centeno. Surpreendeu apenas no timing, porque a tensão entre o ministro das Finanças e o primeiro-ministro era crescente. A escolha de João Leão, o homem do Orçamento, tem lógica e era esperada. Para o grande público, é desconhecido; para os políticos, não é. De resto, os secretários de Estado do Orçamento podem dar grandes ministros das Finanças. Foi o caso de Manuela Ferreira Leite. Veremos se volta a acontecer. Era bom para Portugal. Agora resta ver se Centeno vai mesmo para o Banco de Portugal ou se António Costa se prepara para voltar atrás na combinação que, obviamente, existia. É que, com ele, nunca se sabe, e Mário Centeno merece bem a sua cadeira de sonho, como diria André Villas-Boas...

 

Escreve à quarta-feira

 

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